LIVROS completos

AUTO DA BARCA DO INFERNO  (LIVROS completos) escrito em sexta 05 outubro 2007 12:32

Figura capiturada em: www.rabisco.com.br/ 

 

 

Gil
Vicente

(1465-1537)

http://www.bibvirt.futuro.usp

De Gil Vicente (1465?-1537?) pouco se sabe em concreto. Desconhece-se o local e a data exatos do nascimento e morte. Alguns documentos dão-no como, além de dramaturgo, ourives. Sabe-se, todavia, que no dia 8 de Junho de 1502 representou um monólogo à rainha D. Maria. É provável que tenha nascido na província (Guimarães), cedo se fixando em Lisboa. Na capital, a sua principal ocupação parece ter sido a de escrever e representar autos nas cortes do rei D. Manuel e do rei D. João III. É considerado o pai do teatro português. De 1502 a 1536, Gil Vicente produziu mais de quarenta peças de teatro, chegando a publicar em vida algumas delas. Colaborou no Cancioneiro Geral de Garcia de Resende. No entanto, só em 1562 é que o seu filho Luís Vicente publicou toda a sua obra com o título Compilação de toda as obras de Gil Vicente, que se divide em cinco livros. Da compilação, destacamos as peças mais conhecidas: Auto da Índia (1509), Exortação da Guerra (1513), Quem Tem Farelos? (1515), Auto da Barca do Inferno (1517), Auto da Fama (1521), Farsa de Inês Pereira (1523), Auto da Feira (1528) e Floresta de Enganos (1536).

 

Obras

Auto da Alma
Auto da Barca do Inferno
Auto da Feira
Auto da Índia
Auto de Mofina Mendes
Farsa ou Auto de Inês Pereira
Quem tem farelos?
O Velho da Horta

 

 

Auto da Barca do Inferno

Gil Vicente

 

Auto de moralidade composto por Gil Vicente por contemplação da sereníssima e muito católica rainha Lianor, nossa senhora, e representado por seu mandado ao poderoso príncipe e mui alto rei Manuel, primeiro de Portugal deste nome. Começa a declaração e argumento da obra. Primeiramente, no presente auto, se fegura que, no ponto que acabamos de espirar, chegamos supitamente a um rio, o qual per força havemos de passar em um de dous batéis que naquele porto estão, scilicet, um deles passa pera o paraíso e o outro pera o inferno: os quais batéis tem cada um seu arrais na proa: o do paraíso um anjo, e o do inferno um arrais infernal e um companheiro.

O primeiro intrelocutor é um Fidalgo que chega com um Paje, que lhe leva um rabo mui comprido e üa cadeira de espaldas. E começa o Arrais do Inferno ante que o Fidalgo venha.


DIABO
À barca, à barca, houlá! que temos gentil maré! - Ora venha o carro a ré!

COMPANHEIRO
Feito, feito! Bem está! Vai tu muitieramá, e atesa aquele palanco e despeja aquele banco, pera a gente que virá.

À barca, à barca, hu-u! Asinha, que se quer ir! Oh, que tempo de partir, louvores a Berzebu! - Ora, sus! que fazes tu? Despeja todo esse leito!

COMPANHEIRO
Em boa hora! Feito, feito!

DIABO
Abaixa aramá esse cu!

Faze aquela poja lesta e alija aquela driça.

COMPANHEIRO
Oh-oh, caça! Oh-oh, iça, iça!

DIABO
Oh, que caravela esta! Põe bandeiras, que é festa. Verga alta! Âncora a pique! - Ó poderoso dom Anrique, cá vindes vós?... Que cousa é esta?...

Vem o Fidalgo e, chegando ao batel infernal, diz:

FIDALGO
Esta barca onde vai ora, que assi está apercebida?

DIABO
Vai pera a ilha perdida, e há-de partir logo ess'ora.

FIDALGO
Pera lá vai a senhora?

DIABO
Senhor, a vosso serviço.

FIDALGO
Parece-me isso cortiço...

DIABO
Porque a vedes lá de fora.

FIDALGO
Porém, a que terra passais?

DIABO
Pera o inferno, senhor.

FIDALGO
Terra é bem sem-sabor.

DIABO
Quê?... E também cá zombais?

FIDALGO
E passageiros achais pera tal habitação?

DIABO
Vejo-vos eu em feição pera ir ao nosso cais...

FIDALGO
Parece-te a ti assi!...

DIABO
Em que esperas ter guarida?

FIDALGO
Que leixo na outra vida quem reze sempre por mi.

DIABO
Quem reze sempre por ti?!.. Hi, hi, hi, hi, hi, hi, hi!... E tu viveste a teu prazer, cuidando cá guarecer por que rezam lá por ti?!...

Embarca - ou embarcai... que haveis de ir à derradeira! Mandai meter a cadeira, que assi passou vosso pai.

FIDALGO
Quê? Quê? Quê? Assi lhe vai?!

DIABO
Vai ou vem! Embarcai prestes! Segundo lá escolhestes, assi cá vos contentai.

Pois que já a morte passastes, haveis de passar o rio.

FIDALGO
Não há aqui outro navio?

DIABO
Não, senhor, que este fretastes, e primeiro que expirastes me destes logo sinal.

FIDALGO
Que sinal foi esse tal?

DIABO
Do que vós vos contentastes.

FIDALGO
A estoutra barca me vou. Hou da barca! Para onde is? Ah, barqueiros! Não me ouvis? Respondei-me! Houlá! Hou!... (Pardeus, aviado estou! Cant'a isto é já pior...) Oue jericocins, salvanor! Cuidam cá que são eu grou?

ANJO
Que quereis?

FIDALGO
Que me digais, pois parti tão sem aviso, se a barca do Paraíso é esta em que navegais.

ANJO
Esta é; que demandais?

FIDALGO
Que me leixeis embarcar. Sou fidalgo de solar, é bem que me recolhais.

ANJO
Não se embarca tirania neste batel divinal.

FIDALGO
Não sei porque haveis por mal que entre a minha senhoria...

ANJO
Pera vossa fantesia mui estreita é esta barca.

FIDALGO
Pera senhor de tal marca nom há aqui mais cortesia?

Venha a prancha e atavio! Levai-me desta ribeira!

ANJO
Não vindes vós de maneira pera entrar neste navio. Essoutro vai mais vazio: a cadeira entrará e o rabo caberá e todo vosso senhorio.

Ireis lá mais espaçoso, vós e vossa senhoria, cuidando na tirania do pobre povo queixoso. E porque, de generoso, desprezastes os pequenos, achar-vos-eis tanto menos quanto mais fostes fumoso.

DIABO
À barca, à barca, senhores! Oh! que maré tão de prata! Um ventozinho que mata e valentes remadores!

Diz, cantando:

Vós me veniredes a la mano, a la mano me veniredes.

FIDALGO
Ao Inferno, todavia! Inferno há i pera mi? Oh triste! Enquanto vivi não cuidei que o i havia: Tive que era fantesia! Folgava ser adorado, confiei em meu estado e não vi que me perdia.

Venha essa prancha! Veremos esta barca de tristura.

DIABO
Embarque vossa doçura, que cá nos entenderemos... Tomarês um par de remos, veremos como remais, e, chegando ao nosso cais, todos bem vos serviremos.

FIDALGO
Esperar-me-ês vós aqui, tornarei à outra vida ver minha dama querida que se quer matar por mi. Dia, Que se quer matar por ti?!...

FIDALGO
Isto bem certo o sei eu.

DIABO
Ó namorado sandeu, o maior que nunca vi!...

FIDALGO
Como pod'rá isso ser, que m'escrevia mil dias?

DIABO
Quantas mentiras que lias, e tu... morto de prazer!...

FIDALGO
Pera que é escarnecer, quem nom havia mais no bem?

DIABO
Assi vivas tu, amém, como te tinha querer!

FIDALGO
Isto quanto ao que eu conheço...

DIABO
Pois estando tu expirando, se estava ela requebrando com outro de menos preço.

FIDALGO
Dá-me licença, te peço, que vá ver minha mulher.

DIABO
E ela, por não te ver, despenhar-se-á dum cabeço!

Quanto ela hoje rezou, antre seus gritos e gritas, foi dar graças infinitas a quem a desassombrou.

FIDALGO
Cant'a ela, bem chorou!

DIABO
Nom há i choro de alegria?..

FIDALGO
E as lástimas que dezia?

DIABO
Sua mãe lhas ensinou...

Entrai, meu senhor, entrai: Ei la prancha! Ponde o pé...

FIDALGO
Entremos, pois que assi é.

DIABO
Ora, senhor, descansai, passeai e suspirai. Em tanto virá mais gente.

FIDALGO
Ó barca, como és ardente! Maldito quem em ti vai!

Diz o Diabo ao Moço da cadeira:

DIABO
Nom entras cá! Vai-te d'i! A cadeira é cá sobeja; cousa que esteve na igreja nom se há-de embarcar aqui. Cá lha darão de marfi, marchetada de dolores, com tais modos de lavores, que estará fora de si...

À barca, à barca, boa gente, que queremos dar à vela! Chegar ela! Chegar ela! Muitos e de boamente! Oh! que barca tão valente!

Vem um Onzeneiro, e pergunta ao Arrais do Inferno, dizendo:

ONZENEIRO
Pera onde caminhais?

DIABO
Oh! que má-hora venhais, onzeneiro, meu parente!

Como tardastes vós tanto?

ONZENEIRO
Mais quisera eu lá tardar... Na safra do apanhar me deu Saturno quebranto.

DIABO
Ora mui muito m'espanto nom vos livrar o dinheiro!...

ONZENEIRO
Solamente para o barqueiro nom me leixaram nem tanto...

DIABO
Ora entrai, entrai aqui!

ONZENEIRO
Não hei eu i d'embarcar!

DIABO
Oh! que gentil recear, e que cousas pera mi!...

ONZENEIRO
Ainda agora faleci, leixa-me buscar batel!

DIABO
Pesar de Jam Pimentel! Porque não irás aqui?...

ONZENEIRO
E pera onde é a viagem?

DIABO
Pera onde tu hás-de ir.

ONZENEIRO
Havemos logo de partir?

DIABO
Não cures de mais linguagem.

ONZENEIRO
Mas pera onde é a passagem?

DIABO
Pera a infernal comarca.

ONZENEIRO
Dix! Nom vou eu tal barca. Estoutra tem avantagem.

Vai-se à barca do Anjo, e diz:

Hou da barca! Houlá! Hou! Haveis logo de partir?

ANJO
E onde queres tu ir?

ONZENEIRO
Eu pera o Paraíso vou.

ANJO
Pois cant'eu mui fora estou de te levar para lá. Essoutra te levará; vai pera quem te enganou!

ONZENEIRO
Porquê?

ANJO
Porque esse bolsão tomará todo o navio.

ONZENEIRO
Juro a Deus que vai vazio!

ANJO
Não já no teu coração.

ONZENEIRO
Lá me fica, de rondão, minha fazenda e alhea.

ANJO
Ó onzena, como és fea e filha de maldição!

Torna o Onzeneiro à barca do Inferno e diz:

ONZENEIRO
Houlá! Hou! Demo barqueiro! Sabês vós no que me fundo? Quero lá tornar ao mundo e trazer o meu dinheiro. que aqueloutro marinheiro, porque me vê vir sem nada, dá-me tanta borregada como arrais lá do Barreiro.

DIABO
Entra, entra, e remarás! Nom percamos mais maré!

ONZENEIRO
Todavia...

DIABO
Per força é! Que te pês, cá entrarás! Irás servir Satanás, pois que sempre te ajudou.

ONZENEIRO
Oh! Triste, quem me cegou?

DIABO
Cal'te, que cá chorarás.

Entrando o Onzeneiro no batel, onde achou o Fidalgo embarcado, diz tirando o barrete:

ONZENEIRO
Santa Joana de Valdês! Cá é vossa senhoria?

FIDALGO
Dá ò demo a cortesia!

DIABO
Ouvis? Falai vós cortês! Vós, fidalgo, cuidareis que estais na vossa pousada? Dar-vos-ei tanta pancada com um remo que renegueis!

Vem Joane, o Parvo, e diz ao Arrais do Inferno:

PARVO
Hou daquesta!

DIABO
Quem é?

PARVO
Eu soo. É esta a naviarra nossa?

DIABO
De quem?

PARVO
Dos tolos.

DIABO
Vossa. Entra!

PARVO
De pulo ou de voo? Hou! Pesar de meu avô! Soma, vim adoecer e fui má-hora morrer, e nela, pera mi só.

DIABO
De que morreste?

PARVO
De quê? Samicas de caganeira.

DIABO
De quê?

PARVO
De caga merdeira! Má rabugem que te dê!

DIABO
Entra! Põe aqui o pé!

PARVO
Houlá! Nom tombe o zambuco!

DIABO
Entra, tolaço eunuco, que se nos vai a maré!

PARVO
Aguardai, aguardai, houlá! E onde havemos nós d'ir ter?

DIABO
Ao porto de Lucifer.

PARVO
Ha-á-a...

DIABO
Ó Inferno! Entra cá!

PARVO
Ò Inferno?... Eramá... Hiu! Hiu! Barca do cornudo. Pêro Vinagre, beiçudo, rachador d'Alverca, huhá! Sapateiro da Candosa! Antrecosto de carrapato! Hiu! Hiu! Caga no sapato, filho da grande aleivosa! Tua mulher é tinhosa e há-de parir um sapo chantado no guardanapo! Neto de cagarrinhosa!

Furta cebolas! Hiu! Hiu! Excomungado nas erguejas! Burrela, cornudo sejas! Toma o pão que te caiu! A mulher que te fugiu per'a Ilha da Madeira! Cornudo atá mangueira, toma o pão que te caiu!

Hiu! Hiu! Lanço-te üa pulha! Dê-dê! Pica nàquela! Hump! Hump! Caga na vela! Hio, cabeça de grulha! Perna de cigarra velha, caganita de coelha, pelourinho da Pampulha! Mija n'agulha, mija n'agulha!

Chega o Parvo ao batel do Anjo e dlz:

PARVO
Hou da barca!

ANJO
Que me queres?

PARVO
Queres-me passar além?

ANJO
Quem és tu?

PARVO
Samica alguém.

ANJO
Tu passarás, se quiseres; porque em todos teus fazeres per malícia nom erraste. Tua simpreza t'abaste pera gozar dos prazeres.

Espera entanto per i: veremos se vem alguém, merecedor de tal bem, que deva de entrar aqui.

Vem um Sapateiro com seu avental e carregado de formas, e chega ao batel infernal, e diz:

SAPATEIRO
Hou da barca!

DIABO
Quem vem i? Santo sapateiro honrado, como vens tão carregado?...

SAPATEIRO
Mandaram-me vir assi...

E pera onde é a viagem?

DIABO
Pera o lago dos danados.

SAPATEIRO
Os que morrem confessados onde têm sua passagem?

DIABO
Nom cures de mais linguagem! Esta é a tua barca, esta!

SAPATEIRO
Renegaria eu da festa e da puta da barcagem!

Como poderá isso ser, confessado e comungado?!...

DIABO
Tu morreste excomungado: Nom o quiseste dizer. Esperavas de viver, calaste dous mil enganos... Tu roubaste bem trint'anos o povo com teu mester.

Embarca, eramá pera ti, que há já muito que t'espero!

SAPATEIRO
Pois digo-te que nom quero!

DIABO
Que te pês, hás-de ir, si, si!

SAPATEIRO
Quantas missas eu ouvi, nom me hão elas de prestar?

DIABO
Ouvir missa, então roubar, é caminho per'aqui.

SAPATEIRO
E as ofertas que darão? E as horas dos finados?

DIABO
E os dinheiros mal levados, que foi da satisfação?

SAPATEIRO
Ah! Nom praza ò cordovão, nem à puta da badana, se é esta boa traquitana em que se vê Jan Antão!

Ora juro a Deus que é graça!

Vai-se à barca do Anjo, e diz:

Hou da santa caravela, poderês levar-me nela?

ANJO
A cárrega t'embaraça.

SAPATEIRO
Nom há mercê que me Deus faça? Isto uxiquer irá.

ANJO
Essa barca que lá está Leva quem rouba de praça.

Oh! almas embaraçadas!

SAPATEIRO
Ora eu me maravilho haverdes por grão peguilho quatro forminhas cagadas que podem bem ir i chantadas num cantinho desse leito!

ANJO
Se tu viveras dereito, Elas foram cá escusadas.

SAPATEIRO
Assi que determinais que vá cozer ò Inferno?

ANJO
Escrito estás no caderno das ementas infernais.

Torna-se à barca dos danados, e diz:

SAPATEIRO
Hou barqueiros! Que aguardais? Vamos, venha a prancha logo e levai-me àquele fogo! Não nos detenhamos mais!

Vem um Frade com üa Moça pela mão, e um broquel e üa espada na outra, e um casco debaixo do capelo; e, ele mesmo fazendo a baixa, começou de dançar, dizendo:

FRADE
Tai-rai-rai-ra-rã; ta-ri-ri-rã; ta-rai-rai-rai-rã; tai-ri-ri-rã: tã-tã; ta-ri-rim-rim-rã. Huhá!

DIABO
Que é isso, padre?! Que vai lá?

FRADE
Deo gratias! Som cortesão.

DIABO
Sabês também o tordião?

FRADE
Porque não? Como ora sei!

DIABO
Pois entrai! Eu tangerei e faremos um serão.

Essa dama é ela vossa?

FRADE
Por minha la tenho eu, e sempre a tive de meu,

DIABO
Fezestes bem, que é fermosa! E não vos punham lá grosa no vosso convento santo?

FRADE
E eles fazem outro tanto!

DIABO
Que cousa tão preciosa...

Entrai, padre reverendo!

FRADE
Para onde levais gente?

DIABO
Pera aquele fogo ardente que nom temestes vivendo.

FRADE
Juro a Deus que nom t'entendo! E este hábito no me val?

DIABO
Gentil padre mundanal, a Berzebu vos encomendo!

FRADE
Corpo de Deus consagrado! Pela fé de Jesu Cristo, que eu nom posso entender isto! Eu hei-de ser condenado?!... Um padre tão namorado e tanto dado à virtude? Assi Deus me dê saúde, que eu estou maravilhado!

DIABO
Não curês de mais detença. Embarcai e partiremos: tomareis um par de ramos.

FRADE
Nom ficou isso n'avença.

DIABO
Pois dada está já a sentença!

FRADE
Pardeus! Essa seria ela! Não vai em tal caravela minha senhora Florença.

Como? Por ser namorado e folgar com üa mulher se há um frade de perder, com tanto salmo rezado?!...

DIABO
Ora estás bem aviado!

FRADE
Mais estás bem corregido!

DIABO
Dovoto padre marido, haveis de ser cá pingado...

Descobriu o Frade a cabeça, tirando o capelo; e apareceu o casco, e diz o Frade:

FRADE
Mantenha Deus esta c'oroa!

DIABO
ó padre Frei Capacete! Cuidei que tínheis barrete...

FRADE
Sabê que fui da pessoa! Esta espada é roloa e este broquel, rolão.

DIABO
Dê Vossa Reverença lição d'esgrima, que é cousa boa!

Começou o frade a dar lição d'esgrima com a espada e broquel, que eram d'esgrimir, e diz desta maneira:

FRADE
Deo gratias! Demos caçada! Pera sempre contra sus! Um fendente! Ora sus! Esta é a primeira levada. Alto! Levantai a espada! Talho largo, e um revés! E logo colher os pés, que todo o al no é nada!

Quando o recolher se tarda o ferir nom é prudente. Ora, sus! Mui largamente, cortai na segunda guarda! - Guarde-me Deus d'espingarda mais de homem denodado. Aqui estou tão bem guardado como a palhá n'albarda.

Saio com meia espada... Hou lá! Guardai as queixadas!

DIABO
Oh que valentes levadas!

FRADE
Ainda isto nom é nada... Demos outra vez caçada! Contra sus e um fendente, e, cortando largamente, eis aqui sexta feitada.

Daqui saio com üa guia e um revés da primeira: esta é a quinta verdadeira. - Oh! quantos daqui feria!... Padre que tal aprendia no Inferno há-de haver pingos?!... Ah! Nom praza a São Domingos com tanta descortesia!

Tornou a tomar a Moça pela mão, dizendo:

FRADE
Vamos à barca da Glória!

Começou o Frade a fazer o tordião e foram dançando até o batel do Anjo desta maneira:

FRADE
Ta-ra-ra-rai-rã; ta-ri-ri-ri-rã; rai-rai-rã; ta-ri-ri-rã; ta-ri-ri-rã. Huhá!

Deo gratias! Há lugar cá pera minha reverença? E a senhora Florença polo meu entrará lá!

PARVO
Andar, muitieramá! Furtaste esse trinchão, frade?

FRADE
Senhora, dá-me à vontade que este feito mal está.

Vamos onde havemos d'ir! Não praza a Deus coa a ribeira! Eu não vejo aqui maneira senão, enfim, concrudir.

DIABO
Haveis, padre, de viir.

FRADE
Agasalhai-me lá Florença, e compra-se esta sentença: ordenemos de partir.

Tanto que o Frade foi embarcado, veio üa Alcoviteira, per nome Brízida Vaz, a qual chegando à barca infernal, diz desta maneira:

BRÍZIDA
Hou lá da barca, hou lá!

DIABO
Quem chama?

BRÍZIDA
Brízida Vaz.

DIABO
E aguarda-me, rapaz? Como nom vem ela já?

COMPANHEIRO
Diz que nom há-de vir cá sem Joana de Valdês.

DIABO
Entrai vós, e remarês.

BRÍZIDA
Nom quero eu entrar lá.

DIABO
Que sabroso arrecear!

BRÍZIDA
No é essa barca que eu cato.

DIABO
E trazês vós muito fato?

BRÍZIDA
O que me convém levar. Día. Que é o que havês d'embarcar?

BRÍZIDA
Seiscentos virgos postiços e três arcas de feitiços que nom podem mais levar.

Três almários de mentir, e cinco cofres de enlheos, e alguns furtos alheos, assi em jóias de vestir, guarda-roupa d'encobrir, enfim - casa movediça; um estrado de cortiça com dous coxins d'encobrir.

A mor cárrega que é: essas moças que vendia. Daquestra mercadoria trago eu muita, à bofé!

DIABO
Ora ponde aqui o pé...

BRÍZIDA
Hui! E eu vou pera o Paraíso!

DIABO
E quem te dixe a ti isso?

BRÍZIDA
Lá hei-de ir desta maré.

Eu sô üa mártela tal!... Açoutes tenho levados e tormentos suportados que ninguém me foi igual. Se fosse ò fogo infernal, lá iria todo o mundo! A estoutra barca, cá fundo, me vou, que é mais real.

Chegando à Barca da Glória diz ao Anjo:

Barqueiro mano, meus olhos, prancha a Brísida Vaz.

ANJO:
Eu não sei quem te cá traz...

BRÍZIDA
Peço-vo-lo de giolhos! Cuidais que trago piolhos, anjo de Deos, minha rosa? Eu sô aquela preciosa que dava as moças a molhos,

a que criava as meninas pera os cónegos da Sé... Passai-me, por vossa fé, meu amor, minhas boninas, olho de perlinhas finas! E eu som apostolada, angelada e martelada, e fiz cousas mui divinas.

Santa Úrsula nom converteu tantas cachopas como eu: todas salvas polo meu que nenhüa se perdeu. E prouve Àquele do Céu que todas acharam dono. Cuidais que dormia eu sono? Nem ponto se me perdeu!

ANJO
Ora vai lá embarcar, não estês importunando.

BRÍZIDA
Pois estou-vos eu contando o porque me haveis de levar.

ANJO
Não cures de importunar, que não podes vir aqui.

BRÍZIDA
E que má-hora eu servi, pois não me há-de aproveitar!...

Torna-se Brízida Vaz à Barca do Inferno, dizendo:

BRÍZIDA
Hou barqueiros da má-hora, que é da prancha, que eis me vou? E já há muito que aqui estou, e pareço mal cá de fora.

DIABO
Ora entrai, minha senhora, e sereis bem recebida; se vivestes santa vida, vós o sentirês agora...

Tanto que Brízida Vaz se embarcou, veo um Judeu, com um bode às costas; e, chegando ao batel dos danados, diz:

JUDEU
Que vai cá? Hou marinheiro!

DIABO
Oh! que má-hora vieste!...

JUDEU
Cuj'é esta barca que preste?

DIABO
Esta barca é do barqueiro.

JUDEU.
Passai-me por meu dinheiro.

DIABO
E o bode há cá de vir?

JUDEU
Pois também o bode há-de vir.

DIABO
Que escusado passageiro!

JUDEU
Sem bode, como irei lá?

DIABO
Nem eu nom passo cabrões.

JUDEU
Eis aqui quatro tostões e mais se vos pagará. Por vida do Semifará que me passeis o cabrão! Querês mais outro tostão?

DIABO
Nem tu nom hás-de vir cá.

JUDEU
Porque nom irá o judeu onde vai Brísida Vaz? Ao senhor meirinho apraz? Senhor meirinho, irei eu?

DIABO
E o fidalgo, quem lhe deu...

JUDEU
O mando, dizês, do batel? Corregedor, coronel, castigai este sandeu!

Azará, pedra miúda, lodo, chanto, fogo, lenha, caganeira que te venha! Má corrença que te acuda! Par el Deu, que te sacuda coa beca nos focinhos! Fazes burla dos meirinhos? Dize, filho da cornuda!

PARVO
Furtaste a chiba cabrão? Parecês-me vós a mim gafanhoto d'Almeirim chacinado em um seirão.

DIABO
Judeu, lá te passarão, porque vão mais despejados.

PARVO
E ele mijou nos finados n'ergueja de São Gião!

E comia a carne da panela no dia de Nosso Senhor! E aperta o salvador, e mija na caravela!

DIABO
Sus, sus! Demos à vela! Vós, Judeu, irês à toa, que sois mui ruim pessoa. Levai o cabrão na trela!

Vem um Corregedor, carregado de feitos, e, chegando à barca do Inferno, com sua vara na mão, diz:

CORREGEDOR
Hou da barca!

DIABO
Que quereis?

CORREGEDOR
Está aqui o senhor juiz?

DIABO
Oh amador de perdiz. gentil cárrega trazeis!

CORREGEDOR
No meu ar conhecereis que nom é ela do meu jeito.

DIABO
Como vai lá o direito?

CORREGEDOR
Nestes feitos o vereis.

DIABO
Ora, pois, entrai. Veremos que diz i nesse papel...

CORREGEDOR
E onde vai o batel?

DIABO
No Inferno vos poeremos.

CORREGEDOR
Como? À terra dos demos há-de ir um corregedor?

DIABO
Santo descorregedor, embarcai, e remaremos!

Ora, entrai, pois que viestes!

CORREGEDOR
Non est de regulae juris, não!

DIABO
Ita, Ita! Dai cá a mão! Remaremos um remo destes. Fazei conta que nacestes pera nosso companheiro. - Que fazes tu, barzoneiro? Faze-lhe essa prancha prestes!

CORREGEDOR
Oh! Renego da viagem e de quem me há-de levar! Há 'qui meirinho do mar?

DIABO
Não há tal costumagem.

CORREGEDOR
Nom entendo esta barcagem, nem hoc nom potest esse.

DIABO
Se ora vos parecesse que nom sei mais que linguagem...

Entrai, entrai, corregedor!

CORREGEDOR
Hou! Videtis qui petatis - Super jure magestatis tem vosso mando vigor?

DIABO
Quando éreis ouvidor nonne accepistis rapina? Pois ireis pela bolina onde nossa mercê for...

Oh! que isca esse papel pera um fogo que eu sei!

CORREGEDOR
Domine, memento mei!

DIABO
Non es tempus, bacharel! Imbarquemini in batel quia Judicastis malitia.

CORREGEDOR
Sempre ego justitia fecit, e bem por nivel.

DIABO
E as peitas dos judeus que a vossa mulher levava?

CORREGEDOR
Isso eu não o tomava eram lá percalços seus. Nom som pecatus meus, peccavit uxore mea.

DIABO
Et vobis quoque cum ea, não temuistis Deus.

A largo modo adquiristis sanguinis laboratorum ignorantis peccatorum. Ut quid eos non audistis?

CORREGEDOR
Vós, arrais, nonne legistis que o dar quebra os pinedos? Os direitos estão quedos, sed aliquid tradidistis...

DIABO
Ora entrai, nos negros fados! Ireis ao lago dos cães e vereis os escrivães como estão tão prosperados.

CORREGEDOR
E na terra dos danados estão os Evangelistas?

DIABO
Os mestres das burlas vistas lá estão bem fraguados.

Estando o Corregedor nesta prática com o Arrais infernal chegou um Procurador, carregado de livros, e diz o Corregedor ao Procurador:

CORREGEDOR
Ó senhor Procurador!

PROCURADOR
Bejo-vo-las mãos, Juiz! Que diz esse arrais? Que diz?

DIABO
Que serês bom remador. Entrai, bacharel doutor, e ireis dando na bomba.

PROCURADOR
E este barqueiro zomba... Jogatais de zombador?

Essa gente que aí está pera onde a levais?

DIABO
Pera as penas infernais.

PROCURADOR
Dix! Nom vou eu pera lá! Outro navio está cá, muito milhor assombrado.

DIABO
Ora estás bem aviado! Entra, muitieramá!

CORREGEDOR
Confessaste-vos, doutor?

PROCURADOR
Bacharel som. Dou-me à Demo! Não cuidei que era extremo, nem de morte minha dor. E vós, senhor Corregedor?

CORREGEDOR
Eu mui bem me confessei, mas tudo quanto roubei encobri ao confessor...

Porque, se o nom tornais, não vos querem absolver, e é mui mau de volver depois que o apanhais.

DIABO
Pois porque nom embarcais?

PROCURADOR
Quia speramus in Deo.

DIABO
Imbarquemini in barco meo... Pera que esperatis mais?

Vão-se ambos ao batel da Glória, e, chegando, diz o Corregedor ao Anjo:

CORREGEDOR
Ó arrais dos gloriosos, passai-nos neste batel!

ANJO
Oh! pragas pera papel, pera as almas odiosos! Como vindes preciosos, sendo filhos da ciência!

CORREGEDOR
Oh! habeatis clemência e passai-nos como vossos!

PARVO
Hou, homens dos breviairos, rapinastis coelhorum et pernis perdigotorum e mijais nos campanairos!

CORREGEDOR
Oh! não nos sejais contrairos, pois nom temos outra ponte!

PARVO
Belequinis ubi sunt? Ego latinus macairos.

ANJO
A justiça divinal vos manda vir carregados porque vades embarcados nesse batel infernal.

CORREGEDOR
Oh! nom praza a São Marçal! coa ribeira, nem co rio! Cuidam lá que é desvario haver cá tamanho mal!

PROCURADOR
Que ribeira é esta tal!

PARVO
Parecês-me vós a mi como cagado nebri, mandado no Sardoal. Embarquetis in zambuquis!

CORREGEDOR
Venha a negra prancha cá! Vamos ver este segredo.

PROCURADOR
Diz um texto do Degredo...

DIABO
Entrai, que cá se dirá!

E Tanto que foram dentro no batel dos condenados, disse o Corregedor a Brízida Vaz, porque a conhecia:

CORREGEDOR
Oh! esteis muitieramá, senhora Brízida Vaz!

BRÍZIDA
Já siquer estou em paz, que não me leixáveis lá.

Cada hora sentenciada: «Justiça que manda fazer....»

CORREGEDOR
E vós... tornar a tecer e urdir outra meada.

BRÍZIDA
Dizede, juiz d'alçada: vem lá Pêro de Lixboa? Levá-lo-emos à toa e irá nesta barcada.

Vem um homem que morreu Enforcado, e, chegando ao batel dos mal-aventurados, disse o Arrais, tanto que chegou:

DIABO
Venhais embora, enforcado! Que diz lá Garcia Moniz?

ENFORCADO
Eu te direi que ele diz: que fui bem-aventurado em morrer dependurado como o tordo na buiz, e diz que os feitos que eu fiz me fazem canonizado.

DIABO
Entra cá, governarás atá as portas do Inferno.

ENFORCADO
Nom é essa a nau que eu governo.

DIABO
Mando-te eu que aqui irás.

ENFORCADO
Oh! nom praza a Barrabás! Se Garcia Moniz diz que os que morrem como eu fiz são livres de Satanás...

E disse que a Deus prouvera que fora ele o enforcado; e que fosse Deus louvado que em bo'hora eu cá nacera; e que o Senhor m'escolhera; e por bem vi beleguins. E com isto mil latins, mui lindos, feitos de cera.

E, no passo derradeiro, me disse nos meus ouvidos que o lugar dos escolhidos era a forca e o Limoeiro; nem guardião do moesteiro nom tinha tão santa gente como Afonso Valente que é agora carcereiro.

DIABO
Dava-te consolação isso, ou algum esforço?

ENFORCADO
Com o baraço no pescoço, mui mal presta a pregação... E ele leva a devação que há-de tornar a jentar... Mas quem há-de estar no ar avorrece-lhe o sermão.

DIABO
Entra, entra no batel, que ao Inferno hás-de ir!

ENFORCADO
O Moniz há-de mentir? Disse-me que com São Miguel jentaria pão e mel tanto que fosse enforcado. Ora, já passei meu fado, e já feito é o burel.

Agora não sei que é isso: não me falou em ribeira, nem barqueiro, nem barqueira, senão - logo ò Paraíso. Isto muito em seu siso. e era santo o meu baraço... Eu não sei que aqui faço: que é desta glória emproviso?

DIABO
Falou-te no Purgatório?

ENFORCADO
Disse que era o Limoeiro, e ora por ele o salteiro e o pregão vitatório; e que era mui notório que àqueles deciprinados eram horas dos finados e missas de São Gregório.

DIABO
Quero-te desenganar: se o que disse tomaras, certo é que te salvaras. Não o quiseste tomar... - Alto! Todos a tirar, que está em seco o batel! - Saí vós, Frei Babriel! Ajudai ali a botar!

Vêm Quatro Cavaleiros cantando, os quais trazem cada um a Cruz de Cristo, pelo qual Senhor e acrecentamento de Sua santa fé católica morreram em poder dos mouros. Absoltos a culpa e pena per privilégio que os que assi morrem têm dos mistérios da Paixão d'Aquele por Quem padecem, outorgados por todos os Presi- dentes Sumos Pontífices da Madre Santa Igreja. E a cantiga que assi cantavam, quanto a palavra dela, é a seguinte:

CAVALEIROS
À barca, à barca segura, barca bem guarnecida, à barca, à barca da vida!

Senhores que trabalhais pola vida transitória, memória , por Deus, memória deste temeroso cais! À barca, à barca, mortais, Barca bem guarnecida, à barca, à barca da vida!

Vigiai-vos, pecadores, que, depois da sepultura, neste rio está a ventura de prazeres ou dolores! À barca, à barca, senhores, barca mui nobrecida, à barca, à barca da vida!

E passando per diante da proa do batel dos danados assi cantando, com suas espadas e escudos, disse o Arrais da perdição desta maneira:

DIABO
Cavaleiros, vós passais e nom perguntais onde is?

1º CAVALEIRO
Vós, Satanás, presumis?

Atentai com quem falais!

2º CAVALEIRO
Vós que nos demandais? Siquer conhecê-nos bem: morremos nas Partes d'Além, e não queirais saber mais.

DIABO
Entrai cá! Que cousa é essa? Eu nom posso entender isto!

CAVALEIROS
Quem morre por Jesu Cristo não vai em tal barca como essa!

Tornaram a prosseguir, cantando, seu caminho direito à barca da Glória, e, tanto que chegam, diz o Anjo:

ANJO
Ó cavaleiros de Deus, a vós estou esperando, que morrestes pelejando por Cristo, Senhor dos Céus! Sois livres de todo mal, mártires da Santa Igreja, que quem morre em tal peleja merece paz eternal.

E assi embarcam.

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CARTA de Pero Vaz de Caminha  (LIVROS completos) escrito em domingo 21 outubro 2007 15:06

Tela de Jean Baptiste Debret 

PÊRO VAZ DE CAMINHA (1437-1500) nasceu no Porto e faleceu em Calecut, na Índia. Exerceu o cargo de mestre da balança no Porto e foi escrivão da armada de Pedro Álvares Cabral. Terá sido assassinado pelos mouros em Calecut. Ficou conhecido pela carta que dirigiu ao rei D. Manuel datada de 1 de maio de 1500, onde relata o "achamento" do Brasil. A carta teria sido descoberta na Torre do Tombo em 1773 por José de Seabra da Silva, tendo sido publicada por Aires do Casal na Corografia Brasílica em 1817, e publicada por Jaime Cortesão em facsimile em 1943, com transcrição e adaptação à grafia atual. 

A carta de Caminha é considerada a primeira manifestação literária brasileira, classificada como literatura quinhetista. [1]
Representa  ainda a introdução do indianismo abordado posteriormente em obras como Uruguai, de Basílio da Gama (1769), O Caramuru, de Santa Rita Durão (1781), Iracema, de José de Alecar (1868), [2] entre outros.

[1] Clique aqui para ler o texro sobre as Escolas Literárias

[2] Clique aqui para ver análise sobre Iracema

 

A CARTA 

 

Bonita tela de Kurt Guilherme Herrmann, avô de Guilherme Meneghelli


 

Carta a El Rei D. Manuel,

Senhor,

posto que o Capitão-mor desta Vossa frota, e assim os outros capitães escrevam a Vossa Alteza a notícia do achamento desta Vossa terra nova, que se agora nesta navegação achou, não deixarei de também dar disso minha conta a Vossa Alteza, assim como eu melhor puder, ainda que -- para o bem contar e falar -- o saiba pior que todos fazer!

 

Todavia tome Vossa Alteza minha ignorância por boa vontade, a qual bem certo creia que, para aformosentar nem afear, aqui não há de pôr mais do que aquilo que vi e me pareceu.

 

Da marinhagem e das singraduras do caminho não darei aqui conta a Vossa Alteza -- porque o não saberei fazer -- e os pilotos devem ter este cuidado.

 

E portanto, Senhor, do que hei de falar começo:

 

E digo quê:

 

A partida de Belém foi -- como Vossa Alteza sabe, segunda-feira 9 de março. E sábado, 14 do dito mês, entre as 8 e 9 horas, nos achamos entre as Canárias, mais perto da Grande Canária. E ali andamos todo aquele dia em calma, à vista delas, obra de três a quatro léguas. E domingo, 22 do dito mês, às dez horas mais ou menos, houvemos vista das ilhas de Cabo Verde, a saber da ilha de São Nicolau, segundo o dito de Pero Escolar, piloto.

 

Na noite seguinte à segunda-feira amanheceu, se perdeu da frota Vasco de Ataíde com a sua nau, sem haver tempo forte ou contrário para poder ser !

 

Fez o capitão suas diligências para o achar, em umas e outras partes. Mas... não apareceu mais !

 

E assim seguimos nosso caminho, por este mar de longo, até que terça-feira das Oitavas de Páscoa, que foram 21 dias de abril, topamos alguns sinais de terra, estando da dita Ilha -- segundo os pilotos diziam, obra de 660 ou 670 léguas -- os quais eram muita quantidade de ervas compridas, a que os mareantes chamam botelho, e assim mesmo outras a que dão o nome de rabo-de-asno. E quarta-feira seguinte, pela manhã, topamos aves a que chamam furabuchos.

 

Neste mesmo dia, a horas de véspera, houvemos vista de terra! A saber, primeiramente de um grande monte, muito alto e redondo; e de outras serras mais baixas ao sul dele; e de terra chã, com grandes arvoredos; ao qual monte alto o capitão pôs o nome de O Monte Pascoal e à terra A Terra de Vera Cruz!

 

Mandou lançar o prumo. Acharam vinte e cinco braças. E ao sol-posto umas seis léguas da terra, lançamos ancoras, em dezenove braças -- ancoragem limpa. Ali ficamo-nos toda aquela noite. E quinta-feira, pela manhã, fizemos vela e seguimos em direitura à terra, indo os navios pequenos diante -- por dezessete, dezesseis, quinze, catorze, doze, nove braças -- até meia légua da terra, onde todos lançamos ancoras, em frente da boca de um rio. E chegaríamos a esta ancoragem às dez horas, pouco mais ou menos.

 

E dali avistamos homens que andavam pela praia, uns sete ou oito, segundo disseram os navios pequenos que chegaram primeiro.

 

Então lançamos fora os batéis e esquifes. E logo vieram todos os capitães das naus a esta nau do Capitão-mor. E ali falaram. E o Capitão mandou em terra a Nicolau Coelho para ver aquele rio. E tanto que ele começou a ir-se para lá, acudiram pela praia homens aos dois e aos três, de maneira que, quando o batel chegou à boca do rio, já lá estavam dezoito ou vinte.

 

Pardos, nus, sem coisa alguma que lhes cobrisse suas vergonhas. Traziam arcos nas mãos, e suas setas. Vinham todos rijamente em direção ao batel. E Nicolau Coelho lhes fez sinal que pousassem os arcos. E eles os depuseram. Mas não pôde deles haver fala nem entendimento que aproveitasse, por o mar quebrar na costa. Somente arremessou-lhe um barrete vermelho e uma carapuça de linho que levava na cabeça, e um sombreiro preto. E um deles lhe arremessou um sombreiro de penas de ave, compridas, com uma copazinha de penas vermelhas e pardas, como de papagaio. E outro lhe deu um ramal grande de continhas brancas, miúdas que querem parecer de aljôfar, as quais peças creio que o Capitão manda a Vossa Alteza. E com isto se volveu às naus por ser tarde e não poder haver deles mais fala, por causa do mar.

 

À noite seguinte ventou tanto sueste com chuvaceiros que fez caçar as naus. E especialmente a Capitanisol-postoa. E sexta pela manhã, às oito horas, pouco mais ou menos, por conselho dos pilotos, mandou o Capitão levantar ancoras e fazer vela. E fomos de longo da costa, com os batéis e esquifes amarrados na popa, em direção norte, para ver se achávamos alguma abrigada e bom pouso, onde nós ficássemos, para tomar água e lenha. Não por nos já minguar, mas por nos prevenirmos aqui. E quando fizemos vela estariam já na praia assentados perto do rio obra de sessenta ou setenta homens que se haviam juntado ali aos poucos. Fomos ao longo, e mandou o Capitão aos navios pequenos que fossem mais chegados à terra e, se achassem pouso seguro para as naus, que amainassem.

 

E velejando nós pela costa, na distância de dez léguas do sítio onde tínhamos levantado ferro, acharam os ditos navios pequenos um recife com um porto dentro, muito bom e muito seguro, com uma mui larga entrada. E meteram-se dentro e amainaram. E as naus foram-se chegando, atrás deles. E um pouco antes de sol-posto amainaram também, talvez a uma légua do recife, e ancoraram a onze braças.

 

E estando Afonso Lopez, nosso piloto, em um daqueles navios pequenos, foi, por mandado do Capitão, por ser homem vivo e destro para isso, meter-se logo no esquife a sondar o porto dentro. E tomou dois daqueles homens da terra que estavam numa almadia: mancebos e de bons corpos. Um deles trazia um arco, e seis ou sete setas. E na praia andavam muitos com seus arcos e setas; mas não os aproveitou. Logo, já de noite, levou-os à Capitaina, onde foram recebidos com muito prazer e festa.

 

A feição deles é serem pardos, um tanto avermelhados, de bons rostos e bons narizes, bem feitos. Andam nus, sem cobertura alguma. Nem fazem mais caso de encobrir ou deixa de encobrir suas vergonhas do que de mostrar a cara. Acerca disso são de grande inocência. Ambos traziam o beiço de baixo furado e metido nele um osso verdadeiro, de comprimento de uma mão travessa, e da grossura de um fuso de algodão, agudo na ponta como um furador. Metem-nos pela parte de dentro do beiço; e a parte que lhes fica entre o beiço e os dentes é feita a modo de roque de xadrez. E trazem-no ali encaixado de sorte que não os magoa, nem lhes põe estorvo no falar, nem no comer e beber.

 

Os cabelos deles são corredios. E andavam tosquiados, de tosquia alta antes do que sobre-pente, de boa grandeza, rapados todavia por cima das orelhas. E um deles trazia por baixo da solapa, de fonte a fonte, na parte detrás, uma espécie de cabeleira, de penas de ave amarela, que seria do comprimento de um coto, mui basta e mui cerrada, que lhe cobria o toutiço e as orelhas. E andava pegada aos cabelos, pena por pena, com uma confeição branda como, de maneira tal que a cabeleira era mui redonda e mui basta, e mui igual, e não fazia míngua mais lavagem para a levantar.

 

O Capitão, quando eles vieram, estava sentado em uma cadeira, aos pés uma alcatifa por estrado; e bem vestido, com um colar de ouro, mui grande, ao pescoço. E Sancho de Tovar, e Simão de Miranda, e Nicolau Coelho, e Aires Corrêa, e nós outros que aqui na nau com ele íamos, sentados no chão, nessa alcatifa. Acenderam-se tochas. E eles entraram. Mas nem sinal de cortesia fizeram, nem de falar ao Capitão; nem a alguém. Todavia um deles fitou o colar do Capitão, e começou a fazer acenos com a mão em direção à terra, e depois para o colar, como se quisesse dizer-nos que havia ouro na terra. E também olhou para um castiçal de prata e assim mesmo acenava para a terra e novamente para o castiçal, como se lá também houvesse prata!

 

Mostraram-lhes um papagaio pardo que o Capitão traz consigo; tomaram-no logo na mão e acenaram para a terra, como se os houvesse ali.

 

Mostraram-lhes um carneiro; não fizeram caso dele.

 

Mostraram-lhes uma galinha; quase tiveram medo dela, e não lhe queriam pôr a mão. Depois lhe pegaram, mas como espantados.

 

Deram-lhes ali de comer: pão e peixe cozido, confeitos, fartéis, mel, figos passados. Não quiseram comer daquilo quase nada; e se provavam alguma coisa, logo a lançavam fora.

 

Trouxeram-lhes vinho em uma taça; mal lhe puseram a boca; não gostaram dele nada, nem quiseram mais.

 

Trouxeram-lhes água em uma albarrada, provaram cada um o seu bochecho, mas não beberam; apenas lavaram as bocas e lançaram-na fora.

 

Viu um deles umas contas de rosário, brancas; fez sinal que lhas dessem, e folgou muito com elas, e lançou-as ao pescoço; e depois tirou-as e meteu-as em volta do braço, e acenava para a terra e novamente para as contas e para o colar do Capitão, como se dariam ouro por aquilo.

 

Isto tomávamos nós nesse sentido, por assim o desejarmos! Mas se ele queria dizer que levaria as contas e mais o colar, isto não queríamos nós entender, por que lho não havíamos de dar! E depois tornou as contas a quem lhas dera. E então estiraram-se de costas na alcatifa, a dormir sem procurarem maneiras de encobrir suas vergonhas, as quais não eram fanadas; e as cabeleiras delas estavam bem rapadas e feitas.

 

O Capitão mandou pôr por baixo da cabeça de cada um seu coxim; e o da cabeleira esforçava-se por não a estragar. E deitaram um manto por cima deles; e consentindo, aconchegaram-se e adormeceram.

 

Sábado pela manhã mandou o Capitão fazer vela, fomos demandar a entrada, a qual era mui larga e tinha seis a sete braças de fundo. E entraram todas as naus dentro, e ancoraram em cinco ou seis braças — ancoradouro que é tão grande e tão formoso de dentro, e tão seguro que podem ficar nele mais de duzentos navios e naus. E tanto que as naus foram distribuídas e ancoradas, vieram os capitães todos a esta nau do Capitão-mor. E daqui mandou o Capitão que Nicolau Coelho e Bartolomeu Dias fossem em terra e levassem aqueles dois homens, e os deixassem ir com seu arco e setas, aos quais mandou dar a cada um uma camisa nova e uma carapuça vermelha e um rosário de contas brancas de osso, que foram levando nos braços, e um cascavel e uma campainha. E mandou com eles, para lá ficar, um mancebo degredado, criado de dom João Telo, de nome Afonso Ribeiro, para lá andar com eles e saber de seu viver e maneiras. E a mim mandou que fosse com Nicolau Coelho. Fomos assim de frecha direitos à praia. Ali acudiram logo perto de duzentos homens, todos nus, com arcos e setas nas mãos. Aqueles que nós levamos acenaram-lhes que se afastassem e depusessem os arcos. E eles os depuseram. Mas não se afastaram muito. E mal tinham pousado seus arcos quando saíram os que nós levávamos, e o mancebo degredado com eles. E saídos não pararam mais; nem esperavam um pelo outro, mas antes corriam a quem mais correria. E passaram um rio que aí corre, de água doce, de muita água que lhes dava pela braga. E muitos outros com eles. E foram assim correndo para além do rio entre umas moitas de palmeiras onde estavam outros. E ali pararam. E naquilo tinha ido o degredado com um homem que, logo ao sair do batel, o agasalhou e levou até lá. Mas logo o tornaram a nós. E com ele vieram os outros que nós leváramos, os quais vinham já nus e sem carapuças.

 

E então se começaram de chegar muitos; e entravam pela beira do mar para os batéis, até que mais não podiam. E traziam cabaças d'água, e tomavam alguns barris que nós levávamos e enchiam-nos de água e traziam-nos aos batéis. Não que eles de todo chegassem a bordo do batel. Mas junto a ele, lançavam-nos da mão. E nós tomávamo-los. E pediam que lhes dessem alguma coisa.

 

Levava Nicolau Coelho cascavéis e manilhas. E a uns dava um cascavel, e a outros uma manilha, de maneira que com aquela encarna quase que nos queriam dar a mão. Davam-nos daqueles arcos e setas em troca de sombreiros e carapuças de linho, e de qualquer coisa que a gente lhes queria dar.

 

Dali se partiram os outros, dois mancebos, que não os vimos mais.

 

Dos que ali andavam, muitos — quase a maior parte — traziam aqueles bicos de osso nos beiços.

 

E alguns, que andavam sem eles, traziam os beiços furados e nos buracos traziam uns espelhos de pau, que pareciam espelhos de borracha. E alguns deles traziam três daqueles bicos, a saber um no meio, e os dois nos cabos.

 

E andavam lá outros, quartejados de cores, a saber metade deles da sua própria cor, e metade de tintura preta, um tanto azulada; e outros quartejados d'escaques.

 

Ali andavam entre eles três ou quatro moças, bem novinhas e gentis, com cabelos muito pretos e compridos pelas costas; e suas vergonhas, tão altas e tão cerradinhas e tão limpas das cabeleiras que, de as nós muito bem olharmos, não se envergonhavam.

 

Ali por então não houve mais fala ou entendimento com eles, por a barbaria deles ser tamanha que se não entendia nem ouvia ninguém. Acenamos-lhes que se fossem. E assim o fizeram e passaram-se para além do rio. E saíram três ou quatro homens nossos dos batéis, e encheram não sei quantos barris d'água que nós levávamos. E tornamo-nos às naus. E quando assim vínhamos, acenaram-nos que voltássemos. Voltamos, e eles mandaram o degredado e não quiseram que ficasse lá com eles, o qual levava uma bacia pequena e duas ou três carapuças vermelhas para lá as dar ao senhor, se o lá houvesse. Não trataram de lhe tirar coisa alguma, antes mandaram-no com tudo. Mas então Bartolomeu Dias o fez outra vez tornar, que lhe desse aquilo. E ele tornou e deu aquilo, em vista de nós, a aquele que o da primeira agasalhara. E então veio-se, e nós levamo-lo.

 

Esse que o agasalhou era já de idade, e andava por galanteria, cheio de penas, pegadas pelo corpo, que parecia seteado como São Sebastião. Outros traziam carapuças de penas amarelas; e outros, de vermelhas; e outros de verdes. E uma daquelas moças era toda tingida de baixo a cima, daquela tintura e certo era tão bem feita e tão redonda, e sua vergonha tão graciosa que a muitas mulheres de nossa terra, vendo-lhe tais feições envergonhara, por não terem as suas como ela. Nenhum deles era fanado, mas todos assim como nós.

 

E com isto nos tornamos, e eles foram-se.

 

À tarde saiu o Capitão-mor em seu batel com todos nós outros capitães das naus em seus batéis a folgar pela baía, perto da praia. Mas ninguém saiu em terra, por o Capitão o não querer, apesar de ninguém estar nela. Apenas saiu -- ele com todos nós -- em um ilhéu grande que está na baía, o qual, aquando baixamar, fica mui vazio. Com tudo está de todas as partes cercado de água, de sorte que ninguém lá pode ir, a não ser de barco ou a nado. Ali folgou ele, e todos nós, bem uma hora e meia. E pescaram lá, andando alguns marinheiros com um chinchorro; e mataram peixe miúdo, não muito. E depois volvemo-nos às naus, já bem noite.

 

Ao domingo de Pascoela pela manhã, determinou o Capitão ir ouvir missa e sermão naquele ilhéu. E mandou a todos os capitães que se arranjassem nos batéis e fossem com ele. E assim foi feito. Mandou armar um pavilhão naquele ilhéu, e dentro levantar um altar mui bem arranjado. E ali com todos nós outros fez dizer missa, a qual disse o padre frei Henrique, em voz entoada, e oficiada com aquela mesma voz pelos outros padres e sacerdotes que todos assistiram, a qual missa, segundo meu parecer, foi ouvida por todos com muito prazer e devoção.

 

Ali estava com o Capitão a bandeira de Cristo, com que saíra de Belém, a qual esteve sempre bem alta, da parte do Evangelho.

 

Acabada a missa, desvestiu-se o padre e subiu a uma cadeira alta; e nós todos lançados por essa areia. E pregou uma solene e proveitosa pregação, da história evangélica; e no fim tratou da nossa vida, e do achamento desta terra, referindo-se à Cruz, sob cuja obediência viemos, que veio muito a propósito, e fez muita devoção.

 

Enquanto assistimos à missa e ao sermão, estaria na praia outra tanta gente, pouco mais ou menos, como a de ontem, com seus arcos e setas, e andava folgando. E olhando-nos, sentaram. E depois de acabada a missa, quando nós sentados atendíamos a pregação, levantaram-se muitos deles e tangeram corno ou buzina e começaram a saltar e dançar um pedaço. E alguns deles se metiam em almadias — duas ou três que lá tinham — as quais não são feitas como as que eu vi; apenas são três traves, atadas juntas. E ali se metiam quatro ou cinco, ou esses que queriam, não se afastando quase nada da terra, só até onde podiam tomar pé.

 

Acabada a pregação encaminhou-se o Capitão, com todos nós, para os batéis, com nossa bandeira alta. Embarcamos e fomos indo todos em direção à terra para passarmos ao longo por onde eles estavam, indo na dianteira, por ordem do Capitão, Bartolomeu Dias em seu esquife, com um pau de uma almadia que lhes o mar levara, para o entregar a eles. E nós todos trás dele, a distância de um tiro de pedra.

 

Como viram o esquife de Bartolomeu Dias, chegaram-se logo todos à água, metendo-se nela até onde mais podiam. Acenaram-lhes que pousassem os arcos e muitos deles os iam logo pôr em terra; e outros não os punham.

 

Andava lá um que falava muito aos outros, que se afastassem. Mas não já que a mim me parecesse que lhe tinham respeito ou medo. Este que os assim andava afastando trazia seu arco e setas. Estava tinto de tintura vermelha pelos peitos e costas e pelos quadris, coxas e pernas até baixo, mas os vazios com a barriga e estômago eram de sua própria cor. E a tintura era tão vermelha que a água lha não comia nem desfazia. Antes, quando saía da água, era mais vermelho. Saiu um homem do esquife de Bartolomeu Dias e andava no meio deles, sem implicarem nada com ele, e muito menos ainda pensavam em fazer-lhe mal. Apenas lhe davam cabaças d'água; e acenavam aos do esquife que saíssem em terra. Com isto se volveu Bartolomeu Dias ao Capitão. E viemo-nos às naus, a comer, tangendo trombetas e gaitas, sem os mais constranger. E eles tornaram-se a sentar na praia, e assim por então ficaram.

 

Neste ilhéu, onde fomos ouvir missa e sermão, espraia muito a água e descobre muita areia e muito cascalho. Enquanto lá estávamos foram alguns buscar marisco e não no acharam. Mas acharam alguns camarões grossos e curtos, entre os quais vinha um muito grande e muito grosso; que em nenhum tempo o vi tamanho. Também acharam cascas de berbigões e de amêijoas, mas não toparam com nenhuma peça inteira. E depois de termos comido vieram logo todos os capitães a esta nau, por ordem do Capitão-mor, com os quais ele se aportou; e eu na companhia. E perguntou a todos se nos parecia bem mandar a nova do achamento desta terra a Vossa Alteza pelo navio dos mantimentos, para a melhor mandar descobrir e saber dela mais do que nós podíamos saber, por irmos na nossa viagem.

 

E entre muitas falas que sobre o caso se fizeram foi dito, por todos ou a maior parte, que seria muito bem. E nisto concordaram. E logo que a resolução foi tomada, perguntou mais, se seria bem tomar aqui por força um par destes homens para os mandar a Vossa Alteza, deixando aqui em lugar deles outros dois destes degredados.

 

E concordaram em que não era necessário tomar por força homens, porque costume era dos que assim à força levavam para alguma parte dizerem que há de tudo quanto lhes perguntam; e que melhor e muito melhor informação da terra dariam dois homens desses degredados que aqui deixássemos do que eles dariam se os levassem por ser gente que ninguém entende. Nem eles cedo aprenderiam a falar para o saberem tão bem dizer que muito melhor estoutros o não digam quando cá Vossa Alteza mandar.

 

E que portanto não cuidássemos de aqui por força tomar ninguém, nem fazer escândalo; mas sim, para os de todo amansar e apaziguar, unicamente de deixar aqui os dois degredados quando daqui partíssemos.

 

E assim ficou determinado por parecer melhor a todos.

 

Acabado isto, disse o Capitão que fôssemos nos batéis em terra. E ver-se-ia bem, quejando era o rio. Mas também para folgarmos.

 

Fomos todos nos batéis em terra, armados; e a bandeira conosco. Eles andavam ali na praia, à boca do rio, para onde nós íamos; e, antes que chegássemos, pelo ensino que dantes tinham, puseram todos os arcos, e acenaram que saíssemos. Mas, tanto que os batéis puseram as proas em terra, passaram-se logo todos além do rio, o qual não é mais ancho que um jogo de mancal. E tanto que desembarcamos, alguns dos nossos passaram logo o rio, e meteram-se entre eles. E alguns aguardavam; e outros se afastavam. Com tudo, a coisa era de maneira que todos andavam misturados. Eles davam desses arcos com suas setas por sombreiros e carapuças de linho, e por qualquer coisa que lhes davam. Passaram além tantos dos nossos e andaram assim misturados com eles, que eles se esquivavam, e afastavam-se; e iam alguns para cima, onde outros estavam. E então o Capitão fez que o tomassem ao colo dois homens e passou o rio, e fez tornar a todos. A gente que ali estava não seria mais que aquela do costume. Mas logo que o Capitão chamou todos para trás, alguns se chegaram a ele, não por o reconhecerem por Senhor, mas porque a gente, nossa, já passava para aquém do rio. Ali falavam e traziam muitos arcos e continhas, daquelas já ditas, e resgatavam-nas por qualquer coisa, de tal maneira que os nossos levavam dali para as naus muitos arcos, e setas e contas.

 

E então tornou-se o Capitão para aquém do rio. E logo acudiram muitos à beira dele.

 

Ali veríeis galantes, pintados de preto e vermelho, e quartejados, assim pelos corpos como pelas pernas, que, certo, assim pareciam bem. Também andavam entre eles quatro ou cinco mulheres, novas, que assim nuas, não pareciam mal. Entre elas andava uma, com uma coxa, do joelho até o quadril e a nádega, toda tingida daquela tintura preta; e todo o resto da sua cor natural. Outra trazia ambos os joelhos com as curvas assim tintas, e também os colos dos pés; e suas vergonhas tão nuas, e com tanta inocência assim descobertas, que não havia nisso desvergonha nenhuma.

 

Também andava lá outra mulher, nova, com um menino ou menina, atado com um pano aos peitos, de modo que não se lhe viam senão as perninhas. Mas nas pernas da mãe, e no resto, não havia pano algum.

 

Em seguida o Capitão foi subindo ao longo do rio, que corre rente à praia. E ali esperou por um velho que trazia na mão uma pá de almadia. Falou, enquanto o Capitão estava com ele, na presença de todos nós; mas ninguém o entendia, nem ele a nós, por mais coisas que a gente lhe perguntava com respeito a ouro, porque desejávamos saber se o havia na terra.

 

Trazia este velho o beiço tão furado que lhe cabia pelo buraco um grosso dedo polegar. E trazia metido no buraco uma pedra verde, de nenhum valor, que fechava por fora aquele buraco. E o Capitão lha fez tirar. E ele não sei que diabo falava e ia com ela para a boca do Capitão para lha meter. Estivemos rindo um pouco e dizendo chalaças sobre isso. E então enfadou-se o Capitão, e deixou-o. E um dos nossos deu-lhe pela pedra um sombreiro velho; não por ela valer alguma coisa, mas para amostra. E depois houve-a o Capitão, creio, para mandar com as outras coisas a Vossa Alteza.

 

Andamos por aí vendo o ribeiro, o qual é de muita água e muito boa. Ao longo dele há muitas palmeiras, não muito altas; e muito bons palmitos. Colhemos e comemos muitos deles.

 

Depois tornou-se o Capitão para baixo para a boca do rio, onde tínhamos desembarcado.

 

E além do rio andavam muitos deles dançando e folgando, uns diante os outros, sem se tomarem pelas mãos. E faziam-no bem. Passou-se então para a outra banda do rio Diogo Dias, que fora almoxarife de Sacavém, o qual é homem gracioso e de prazer. E levou consigo um gaiteiro nosso com sua gaita. E meteu-se a dançar com eles, tomando-os pelas mãos; e eles folgavam e riam e andavam com ele muito bem ao som da gaita. Depois de dançarem fez ali muitas voltas ligeiras, andando no chão, e salto real, de que se eles espantavam e riam e folgavam muito. E conquanto com aquilo os segurou e afagou muito, tomavam logo uma esquiveza como de animais monteses, e foram-se para cima.

 

E então passou o rio o Capitão com todos nós, e fomos pela praia, de longo, ao passo que os batéis iam rentes à terra. E chegamos a uma grande lagoa de água doce que está perto da praia, porque toda aquela ribeira do mar é apaulada por cima e sai a água por muitos lugares.

 

E depois de passarmos o rio, foram uns sete ou oito deles meter-se entre os marinheiros que se recolhiam aos batéis. E levaram dali um tubarão que Bartolomeu Dias matou. E levavam-lho; e lançou-o na praia.

 

Bastará que até aqui, como quer que se lhes em alguma parte amansassem, logo de uma mão para outra se esquivavam, como pardais do cevadouro. Ninguém não lhes ousa falar de rijo para não se esquivarem mais. E tudo se passa como eles querem -- para os bem amansarmos !

 

Ao velho com quem o Capitão havia falado, deu-lhe uma carapuça vermelha. E com toda a conversa que com ele houve, e com a carapuça que lhe deu tanto que se despediu e começou a passar o rio, foi-se logo recatando. E não quis mais tornar do rio para aquém. Os outros dois o Capitão teve nas naus, aos quais deu o que já ficou dito, nunca mais aqui apareceram -- fatos de que deduzo que é gente bestial e de pouco saber, e por isso tão esquiva. Mas apesar de tudo isso andam bem curados, e muito limpos. E naquilo ainda mais me convenço que são como aves, ou alimárias montesinhas, as quais o ar faz melhores penas e melhor cabelo que às mansas, porque os seus corpos são tão limpos e tão gordos e tão formosos que não pode ser mais! E isto me faz presumir que não tem casas nem moradias em que se recolham; e o ar em que se criam os faz tais. Nós pelo menos não vimos até agora nenhumas casas, nem coisa que se pareça com elas.

 

Mandou o Capitão aquele degredado, Afonso Ribeiro, que se fosse outra vez com eles. E foi; e andou lá um bom pedaço, mas a tarde regressou, que o fizeram eles vir: e não o quiseram lá consentir. E deram-lhe arcos e setas; e não lhe tomaram nada do seu. Antes, disse ele, que lhe tomara um deles umas continhas amarelas que levava e fugia com elas, e ele se queixou e os outros foram logo após ele, e lhas tomaram e tornaram-lhas a dar; e então mandaram-no vir. Disse que não vira lá entre eles senão umas choupaninhas de rama verde e de feteiras muito grandes, como as de Entre-Douro-e-Minho. E assim nos tornamos às naus, já quase noite, a dormir.

 

Segunda-feira, depois de comer, saímos todos em terra a tomar água. Ali vieram então muitos; mas não tantos como as outras vezes. E traziam já muito poucos arcos. E estiveram um pouco afastados de nós; mas depois pouco a pouco misturaram-se conosco; e abraçavam-nos e folgavam; mas alguns deles se esquivavam logo. Ali davam alguns arcos por folhas de papel e por alguma carapucinha velha e por qualquer coisa. E de tal maneira se passou a coisa que bem vinte ou trinta pessoas das nossas se foram com eles para onde outros muitos deles estavam com moças e mulheres. E trouxeram de lá muitos arcos e barretes de penas de aves, uns verdes, outros amarelos, dos quais creio que o Capitão há de mandar uma amostra a Vossa Alteza.

 

E segundo diziam esses que lá tinham ido, brincaram com eles. Neste dia os vimos mais de perto e mais à nossa vontade, por andarmos quase todos misturados: uns andavam quartejados daquelas tinturas, outros de metades, outros de tanta feição como em pano de ras, e todos com os beiços furados, muitos com os ossos neles, e bastantes sem ossos. Alguns traziam uns ouriços verdes, de árvores, que na cor queriam parecer de castanheiras, embora fossem muito mais pequenos. E estavam cheios de uns grãos vermelhos, pequeninos que, esmagando-se entre os dedos, se desfaziam na tinta muito vermelha de que andavam tingidos. E quanto mais se molhavam, tanto mais vermelhos ficavam.

 

Todos andam rapados até por cima das orelhas; assim mesmo de sobrancelhas e pestanas.

 

Trazem todos as testas, de fonte a fonte, tintas de tintura preta, que parece uma fita preta da largura de dois dedos.

 

E o Capitão mandou aquele degredado Afonso Ribeiro e a outros dois degredados que fossem meter-se entre eles; e assim mesmo a Diogo Dias, por ser homem alegre, com que eles folgavam. E aos degredados ordenou que ficassem lá esta noite.

 

Foram-se lá todos; e andaram entre eles. E segundo depois diziam, foram bem uma légua e meia a uma povoação, em que haveria nove ou dez casas, as quais diziam que eram tão compridas, cada uma, como esta nau capitaina. E eram de madeira, e das ilhargas de tábuas, e cobertas de palha, de razoável altura; e todas de um só espaço, sem repartição alguma, tinham de dentro muitos esteios; e de esteio a esteio uma rede atada com cabos em cada esteio, altas, em que dormiam. E de baixo, para se aquentarem, faziam seus fogos. E tinha cada casa duas portas pequenas, uma numa extremidade, e outra na oposta. E diziam que em cada casa se recolhiam trinta ou quarenta pessoas, e que assim os encontraram; e que lhes deram de comer dos alimentos que tinham, a saber muito inhame, e outras sementes que na terra dá, que eles comem. E como se fazia tarde fizeram-nos logo todos tornar; e não quiseram que lá ficasse nenhum. E ainda, segundo diziam, queriam vir com eles. Resgataram lá por cascavéis e outras coisinhas de pouco valor, que levavam, papagaios vermelhos, muito grandes e formosos, e dois verdes pequeninos, e carapuças de penas verdes, e um pano de penas de muitas cores, espécie de tecido assaz belo, segundo Vossa Alteza todas estas coisas verá, porque o Capitão vô-las há de mandar, segundo ele disse. E com isto vieram; e nós tornamo-nos às naus.

 

Terça-feira, depois de comer, fomos em terra, fazer lenha, e para lavar roupa. Estavam na praia, quando chegamos, uns sessenta ou setenta, sem arcos e sem nada. Tanto que chegamos, vieram logo para nós, sem se esquivarem. E depois acudiram muitos, que seriam bem duzentos, todos sem arcos. E misturaram-se todos tanto conosco que uns nos ajudavam a acarretar lenha e metê-las nos batéis. E lutavam com os nossos, e tomavam com prazer. E enquanto fazíamos a lenha, construíam dois carpinteiros uma grande cruz de um pau que se ontem para isso cortara. Muitos deles vinham ali estar com os carpinteiros. E creio que o faziam mais para verem a ferramenta de ferro com que a faziam do que para verem a cruz, porque eles não tem coisa que de ferro seja, e cortam sua madeira e paus com pedras feitas como cunhas, metidas em um pau entre duas talas, mui bem atadas e por tal maneira que andam fortes, porque lhas viram lá. Era já a conversação deles conosco tanta que quase nos estorvavam no que havíamos de fazer.

 

E o Capitão mandou a dois degredados e a Diogo Dias que fossem lá à aldeia e que de modo algum viessem a dormir às naus, ainda que os mandassem embora. E assim se foram.

 

Enquanto andávamos nessa mata a cortar lenha, atravessavam alguns papagaios essas árvores; verdes uns, e pardos, outros, grandes e pequenos, de sorte que me parece que haverá muitos nesta terra. Todavia os que vi não seriam mais que nove ou dez, quando muito. Outras aves não vimos então, a não ser algumas pombas-seixeiras, e pareceram-me maiores bastante do que as de Portugal. Vários diziam que viram rolas, mas eu não as vi. Todavia segundo os arvoredos são mui muitos e grandes, e de infinitas espécies, não duvido que por esse sertão haja muitas aves!

 

E cerca da noite nós volvemos para as naus com nossa lenha.

 

Eu creio, Senhor, que não dei ainda conta aqui a Vossa Alteza do feitio de seus arcos e setas. Os arcos são pretos e compridos, e as setas compridas; e os ferros delas são canas aparadas, conforme Vossa Alteza verá alguns que creio que o Capitão a Ela há de enviar.

 

Quarta-feira não fomos em terra, porque o Capitão andou todo o dia no navio dos mantimentos a despejá-lo e fazer levar às naus isso que cada um podia levar. Eles acudiram à praia, muitos, segundo das naus vimos. Seriam perto de trezentos, segundo Sancho de Tovar que para lá foi. Diogo Dias e Afonso Ribeiro, o degredado, aos quais o Capitão ontem ordenara que de toda maneira lá dormissem, tinham voltado já de noite, por eles não quererem que lá ficassem. E traziam papagaios verdes; e outras aves pretas, quase como pegas, com a diferença de terem o bico branco e rabos curtos. E quando Sancho de Tovar recolheu à nau, queriam vir com ele, alguns; mas ele não admitiu senão dois mancebos, bem dispostos e homens de prol. Mandou pensar e curá-los mui bem essa noite. E comeram toda a ração que lhes deram, e mandou dar-lhes cama de lençóis, segundo ele disse. E dormiram e folgaram aquela noite. E não houve mais este dia que para escrever seja.

 

Quinta-feira, derradeiro de abril, comemos logo, quase pela manhã, e fomos em terra por mais lenha e água. E em querendo o Capitão sair desta nau, chegou Sancho de Tovar com seus dois hóspedes. E por ele ainda não ter comido, puseram-lhe toalhas, e veio-lhe comida. E comeu. Os hóspedes, sentaram-no cada um em sua cadeira. E de tudo quanto lhes deram, comeram mui bem, especialmente lacão cozido frio, e arroz. Não lhes deram vinho por Sancho de Tovar dizer que o não bebiam bem.

 

Acabado o comer, metemo-nos todos no batel, e eles conosco. Deu um grumete a um deles uma armadura grande de porco montês, bem revolta. E logo que a tomou meteu-a no beiço; e porque se lhe não queria segurar, deram-lhe uma pouca de cera vermelha. E ele ajeitou-lhe seu adereço da parte de trás de sorte que segurasse, e meteu-a no beiço, assim revolta para cima; e ia tão contente com ela, como se tivesse uma grande jóia. E tanto que saímos em terra, foi-se logo com ela. E não tornou a aparecer lá.

 

Andariam na praia, quando saímos, oito ou dez deles; e de aí a pouco começaram a vir. E parece-me que viriam este dia a praia quatrocentos ou quatrocentos e cinqüenta. Alguns deles traziam arcos e setas; e deram tudo em troca de carapuças e por qualquer coisa que lhes davam. Comiam conosco do que lhes dávamos, e alguns deles bebiam vinho, ao passo que outros o não podiam beber. Mas quer-me parecer que, se os acostumarem, o hão de beber de boa vontade! Andavam todos tão bem dispostos e tão bem feitos e galantes com suas pinturas que agradavam. Acarretavam dessa lenha quanta podiam, com mil boas vontades, e levavam-na aos batéis. E estavam já mais mansos e seguros entre nós do que nós estávamos entre eles.

 

Foi o Capitão com alguns de nós um pedaço por este arvoredo até um ribeiro grande, e de muita água, que ao nosso parecer é o mesmo que vem ter à praia, em que nós tomamos água. Ali descansamos um pedaço, bebendo e folgando, ao longo dele, entre esse arvoredo que é tanto e tamanho e tão basto e de tanta qualidade de folhagem que não se pode calcular. Há lá muitas palmeiras, de que colhemos muitos e bons palmitos.

 

Ao sairmos do batel, disse o Capitão que seria bom irmos em direitura à cruz que estava encostada a uma árvore, junto ao rio, a fim de ser colocada amanhã, sexta-feira, e que nos puséssemos todos de joelhos e a beijássemos para eles verem o acatamento que lhe tínhamos. E assim fizemos. E a esses dez ou doze que lá estavam, acenaram-lhes que fizessem o mesmo; e logo foram todos beijá-la.

 

Parece-me gente de tal inocência que, se nós entendêssemos a sua fala e eles a nossa, seriam logo cristãos, visto que não têm nem entendem crença alguma, segundo as aparências. E portanto se os degredados que aqui hão de ficar aprenderem bem a sua fala e os entenderem, não duvido que eles, segundo a santa tenção de Vossa Alteza, se farão cristãos e hão de crer na nossa santa fé, à qual praza a Nosso Senhor que os traga, porque certamente esta gente é boa e de bela simplicidade. E imprimir-se-á facilmente neles qualquer cunho que lhe quiserem dar, uma vez que Nosso Senhor lhes deu bons corpos e bons rostos, como a homens bons. E o Ele nos para aqui trazer creio que não foi sem causa. E portanto Vossa Alteza, pois tanto deseja acrescentar a santa fé católica, deve cuidar da salvação deles. E prazerá a Deus que com pouco trabalho seja assim!

 

Eles não lavram nem criam. Nem há aqui boi ou vaca, cabra, ovelha ou galinha, ou qualquer outro animal que esteja acostumado ao viver do homem. E não comem senão deste inhame, de que aqui há muito, e dessas sementes e frutos que a terra e as árvores de si deitam. E com isto andam tais e tão rijos e tão nédios que o não somos nós tanto, com quanto trigo e legumes comemos.

 

Nesse dia, enquanto ali andavam, dançaram e bailaram sempre com os nossos, ao som de um tamboril nosso, como se fossem mais amigos nossos do que nós seus. Se lhes a gente acenava, se queriam vir às naus, aprontavam-se logo para isso, de modo tal, que se os convidáramos a todos, todos vieram. Porém não levamos esta noite às naus senão quatro ou cinco; a saber, o Capitão-mor, dois; e Simão de Miranda, um que já trazia por pajem; e Aires Gomes a outro, pajem também. Os que o Capitão trazia, era um deles um dos seus hóspedes que lhe haviam trazido a primeira vez quando aqui chegamos -- o qual veio hoje aqui vestido na sua camisa, e com ele um seu irmão; e foram esta noite mui bem agasalhados tanto de comida como de cama, de colchões e lençóis, para os mais amansar.

 

E hoje que é sexta-feira, primeiro dia de maio, pela manhã, saímos em terra com nossa bandeira; e fomos desembarcar acima do rio, contra o sul onde nos pareceu que seria melhor arvorar a cruz, para melhor ser vista. E ali marcou o Capitão o sítio onde haviam de fazer a cova para a fincar. E enquanto a iam abrindo, ele com todos nós outros fomos pela cruz, rio abaixo onde ela estava. E com os religiosos e sacerdotes que cantavam, à frente, fomos trazendo-a dali, a modo de procissão. Eram já aí quantidade deles, uns setenta ou oitenta; e quando nos assim viram chegar, alguns se foram meter debaixo dela, ajudar-nos. Passamos o rio, ao longo da praia; e fomos colocá-la onde havia de ficar, que será obra de dois tiros de besta do rio. Andando-se ali nisto, viriam bem cento cinqüenta, ou mais. Plantada a cruz, com as armas e a divisa de Vossa Alteza, que primeiro lhe haviam pregado, armaram altar ao pé dela. Ali disse missa o padre frei Henrique, a qual foi cantada e oficiada por esses já ditos. Ali estiveram conosco, a ela, perto de cinqüenta ou sessenta deles, assentados todos de joelho assim como nós. E quando se veio ao Evangelho, que nos erguemos todos em pé, com as mãos levantadas, eles se levantaram conosco, e alçaram as mãos, estando assim até se chegar ao fim; e então tornaram-se a assentar, como nós. E quando levantaram a Deus, que nos pusemos de joelhos, eles se puseram assim como nós estávamos, com as mãos levantadas, e em tal maneira sossegados que certifico a Vossa Alteza que nos fez muita devoção.

 

Estiveram assim conosco até acabada a comunhão; e depois da comunhão, comungaram esses religiosos e sacerdotes; e o Capitão com alguns de nós outros. E alguns deles, por o Sol ser grande, levantaram-se enquanto estávamos comungando, e outros estiveram e ficaram. Um deles, homem de cinqüenta ou cinqüenta e cinco anos, se conservou ali com aqueles que ficaram. Esse, enquanto assim estávamos, juntava aqueles que ali tinham ficado, e ainda chamava outros. E andando assim entre eles, falando-lhes, acenou com o dedo para o altar, e depois mostrou com o dedo para o céu, como se lhes dissesse alguma coisa de bem; e nós assim o tomamos!

Acabada a missa, tirou o padre a vestimenta de cima, e ficou na alva; e assim se subiu, junto ao altar, em uma cadeira; e ali nos pregou o Evangelho e dos Apóstolos cujo é o dia, tratando no fim da pregação desse vosso prosseguimento tão santo e virtuoso, que nos causou mais devoção.

 

Esses que estiveram sempre à pregação estavam assim como nós olhando para ele. E aquele que digo, chamava alguns, que viessem ali. Alguns vinham e outros iam-se; e acabada a pregação, trazia Nicolau Coelho muitas cruzes de estanho com crucifixos, que lhe ficaram ainda da outra vinda. E houveram por bem que lançassem a cada um sua ao pescoço. Por essa causa se assentou o padre frei Henrique ao pé da cruz; e ali lançava a sua a todos -- um a um -- ao pescoço, atada em um fio, fazendo-lha primeiro beijar e levantar as mãos. Vinham a isso muitos; e lançavam-nas todas, que seriam obra de quarenta ou cinqüenta. E isto acabado -- era já bem uma hora depois do meio dia -- viemos às naus a comer, onde o Capitão trouxe consigo aquele mesmo que fez aos outros aquele gesto para o altar e para o céu, (e um seu irmão com ele). A aquele fez muita honra e deu-lhe uma camisa mourisca; e ao outro uma camisa destoutras.

 

E segundo o que a mim e a todos pareceu, esta gente, não lhes falece outra coisa para ser toda cristã, do que entenderem-nos, porque assim tomavam aquilo que nos viam fazer como nós mesmos; por onde pareceu a todos que nenhuma idolatria nem adoração têm. E bem creio que, se Vossa Alteza aqui mandar quem entre eles mais devagar ande, que todos serão tornados e convertidos ao desejo de Vossa Alteza. E por isso, se alguém vier, não deixe logo de vir clérigo para os batizar; porque já então terão mais conhecimentos de nossa fé, pelos dois degredados que aqui entre eles ficam, os quais hoje também comungaram.

 

Entre todos estes que hoje vieram não veio mais que uma mulher, moça, a qual esteve sempre à missa, à qual deram um pano com que se cobrisse; e puseram-lho em volta dela. Todavia, ao sentar-se, não se lembrava de o estender muito para se cobrir. Assim, Senhor, a inocência desta gente é tal que a de Adão não seria maior -- com respeito ao pudor.

 

Ora veja Vossa Alteza quem em tal inocência vive se convertera, ou não, se lhe ensinarem o que pertence à sua salvação.

 

Acabado isto, fomos perante eles beijar a cruz. E despedimo-nos e fomos comer.

 

Creio, Senhor, que, com estes dois degredados que aqui ficam, ficarão mais dois grumetes, que esta noite se saíram em terra, desta nau, no esquife, fugidos, os quais não vieram mais. E cremos que ficarão aqui porque de manhã, prazendo a Deus fazemos nossa partida daqui.

 

Esta terra, Senhor, parece-me que, da ponta que mais contra o sul vimos, até à outra ponta que contra o norte vem, de que nós deste porto houvemos vista, será tamanha que haverá nela bem vinte ou vinte e cinco léguas de costa. Traz ao longo do mar em algumas partes grandes barreiras, umas vermelhas, e outras brancas; e a terra de cima toda chã e muito cheia de grandes arvoredos. De ponta a ponta é toda praia... muito chã e muito formosa. Pelo sertão nos pareceu, vista do mar, muito grande; porque a estender olhos, não podíamos ver senão terra e arvoredos -- terra que nos parecia muito extensa.

 

Até agora não pudemos saber se há ouro ou prata nela, ou outra coisa de metal, ou ferro; nem lha vimos. Contudo a terra em si é de muito bons ares frescos e temperados como os de Entre-Douro-e-Minho, porque neste tempo d'agora assim os achávamos como os de lá. Águas são muitas; infinitas. Em tal maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo; por causa das águas que tem!

 

Contudo, o melhor fruto que dela se pode tirar parece-me que será salvar esta gente. E esta deve ser a principal semente que Vossa Alteza em ela deve lançar. E que não houvesse mais do que ter Vossa Alteza aqui esta pousada para essa navegação de Calicute bastava. Quanto mais, disposição para se nela cumprir e fazer o que Vossa Alteza tanto deseja, a saber, acrescentamento da nossa fé!

 

E desta maneira dou aqui a Vossa Alteza conta do