OS ARTISTAS

ANTÔNIO FRANCISCO LISBOA: o Aleijadinho  (OS ARTISTAS) escrito em domingo 04 novembro 2007 22:40

Antônio Francisco Lisboa dito o Aleijadinho (1738-1814), São Joaquim, Primeiros
anos do século XIX, Madeira (cedro)  dourada policromada, Museu Arquidiocesano
de Arte Sacra de Mariana, Minas Gerais, in: Revista Psicanálise&Barroco nº10,
disponível em: http://www.psicanaliseebarroco.pro.br/

 

Antônio Francisco Lisboa,
o Aleijadinho.
 

 

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Antônio Francisco Lisboa dito Aleijadinho (1738-1814),
Santa Luzia, madeira dourada policromada, col. Renato de Almeida Whitaker, 
São Paulo, S.P., in: Revista Psicanálise&Barroco nº10, disponível em: http://www.psicanaliseebarroco.pro.br/

 

O MESTRE DO
BARROCO BRASILEIRO

 

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Aleijadinho’s The Scourging of Jesus in a series on the Passion
in the basilica at Congonhas in Minas Gerais.
Em: Americas - The Toynbee convector

 

Uma das maiores expressões do barroco no mundo
é o artista mineiro que os brasileiros chamam
(pejorativamente) de Aleijadinho.
Alguns duvidam que ele tenha existido,
mas a sua obra é bastante real.

 

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Profeta Abdias, em Congonhas do Campo, Minas Gerais. 
Foto: Beto Novaes/Estado de Minas

 

O texto a seguir foi adaptado  do site:
http://www.aleijadinho.com

 

Nascimento e dúvidas sobre a existência do Mestre

 

Antônio Francisco Lisboa (1738-1777?), conhecido por Aleijadinho por causa da doença que sofreu e o deformou sem piedade, nasceu dia 29 de Agosto de 1730.

 

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One of the Twelve Prophets, soapstone sculpture by Aleijadinho,
outside the church of Bom Jesús de Matozinhos (1757–77),
in Congonhas do Campo, Brazil. Em: www.britannica.com/

 

Izabel, mãe de Aleijadinho deu a luz no bairro do Bom Sucesso, na cidade de Ouro Preto, antiga capital da Província de Minas Gerais.

 

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Filho natural de Manuel Francisco Lisboa, arquiteto português, e de Izabel, uma pobre escrava africana:

"...nesta Igreja de Nossa Senhora da Conceição com licença minha baptizou o Rdo. Pe. João de Brito a António, fo. de Izabel, escrava de Manoel Francisco da Costa de Bom Sucesso..."

O nome do pai de Aleijadinho aparece, na Certidão, grafado Manoel Francisco da Costa.

 

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Igreja Nossa Senhora do Carmo , que era freqüentada pela aristocracia
de Vila Rica. O projeto inicial é de Manoel Francisco Lisboa,
pai de Aleijadinho, posteriormente modificado pelo filho. 
Sua construção ocorreu entre 1766 e 1772.
Fonte:  http://www.ouropreto.org.br/

 

Historiógrafos, como Rodrigo José Ferreira Bretas (1858), afirmam que são nomes pertencentes à mesma pessoa.

 

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Antônio Francisco Lisboa dito Aleijadinho ( 1738- 1814), Santana Mestra,
madeira dourada policromada, roveniente da Capela de N.S. do Pilar, Sabará,
Museu do Ó de Sabará, Minas Gerais. in: Revista Psicanálise&Barroco nº10,
disponível em: http://www.psicanaliseebarroco.pro.br/
 


Feu de Carvalho, autor do "Ementário da História de Minas" não aceita erros em qualquer documento da época. Argumenta que se o pai do Aleijadinho tivesse da Costa no nome, o Pro
curador da Câmara jamais consentiria que num contrato ele apenas assinasse parte do seu nome. Afirma que em nenhum documento há uma assinatura com da Costa. Todos estão assinados como Manuel Francisco Lisboa.

 

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Por causa deste fato muitos historiógrafos e a Igreja negam a existência do Aleijadinho.

 

Momento histórico em que viveu Antônio Francisco Lisboa

 

Nos primeiros anos de vida, Antônio (Aleijadinho) deve ter tido conhecimento das perversidades do governador luso, D. Pedro de Almeida.

 

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Este autocrata, Conde de Assumar, decretou a destruição das choupanas de adôbe situadas no Morro de Ouro Podre, local onde se refugiavam os escravos do Mestre-de-campo, Pascoal da Silva Guimarães.

Antônio, na adolescência, pode entender as velhas rivalidades entre taubateanos e outros paulistas. Sentiu na própria pele a mesquinhez do Governador D. Luiz da Cunha Menezes.

Soube das sangrentas lutas dos habitantes de São Paulo com os emboabas.

                    

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Pintura representando a Guerra dos Emboabas,
anônimo, século XVIII, Bahia.


Observou o descontentamento, cada vez maior, pela cobrança dos "quintos", taxas obrigatórias que a Colônia tinha de pagar ao Reino. Uma condição intolerável já que os fecundíssimos veios auríferos se exauriam.

Os interesses da Metrópole ligados às jazidas determinaram a mudança do Governo Geral para o Rio de Janeiro porque esta medida era mais conveniente do que a defesa da Colônia do Sacramento, localizada à margem esquerda do Rio da Prata.

E assim também se deslocou do sul em direção ao centro a economia brasileira da época.

Sacerdotes de diversas ordens conseguiam licença para esmolar nas Minas onde arrecadavam grandes quantidades de ouro, início do esplendor dos conventos sob o trabalho escravo.

 

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Altar da Igreja São Francisco de Assis, uma das mais importantes de Ouro Preto
e uma das mais conhecidas do Brasil. Construída em 1766, é considerada
uma das maiores obras do escultor e arquiteto Aleijadinho.


Descontentamentos, roubos, crimes, disputas entre ordens, mineradores, aventureiros e perseguições não impediram a prosperidade de Vila Rica de Nossa Senhora do Pilar de Albuquerque, nome dado pelo Governador Antônio de Albuquerque à região descoberta.

 

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São Jorge. Escultura de Aleijadinho que desfilava sobre um cavalo pelas
ruas de Ouro Preto, nas procissões de Corpus Cristi no final do século XVIII.
Se encontra no Museu da Inconfidência, em Ouro Preto.

 

Há de se ter muito cuidado em atribuir a Aleijadinho a autoria de tantas obras de arte.

Em cada gênero talhado pelo Mestre há diversas características próprias de seu risco: proporções, marcas de golpes do cinzel, número de dobras nas vestimentas.

 

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Obra de Aleijadinho


Aleijadinho não foi o único "santeiro", abridor de cunhos, escultor, projetista, empreiteiro de sua época, houve também Antônio Francisco Pombal, Domingos Marques, João Gomes Batista, José Coelho de Noronha, José Fernandes Pinto de Alpoim, Felipe Vieira, Manuel Rodrigues Coelho, Antônio Coelho da Fonseca, Pedro Gomes Chaves.
E também:  Francisco de Lima Cerqueira, Viricimo Vieira da Mota, além do próprio pai de Aleijadinho, Manuel Francisco Lisboa e do Mestre Valentim da Fonseca e Silva.

 

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Imagens de São Simão Stock e São Simão da Cruz, de Aleijadinho


Essas a seguir são as obras, com algumas ressalvas, atribuídas ao Mestre Aleijadinho:

 

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Igreja Nosa Senhora do Carmo, em Sao Joao Del Rei.

a) planta da Igreja de São Francisco de Assis, talha e escultura do frontispício, os dois púlpitos, o chafariz da sacristia, imagens das três pessoas da Santíssima Trindade, anjos do altar-mor;

 

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Igreja Nossa Senhora das Merces, em Sao Joao Del Rei.

O projeto da construção arredondada é de Aleijadinho, mas posteriomente o mestre-de-obras Francisco de Lima Siqueira introduziu várias modificações. De autoria de Aleijadinho são os belíssimos entalhes de pedra da fachada, o projeto dos retábulos e a imagem de São João Evangelista na sacristia. Os altares laterais estão na cor natural porque o ouro já rareava quando foram terminados, e um imenso lustre de cristal Baccarat ilumina a nave, deste que é considerada um dos mais importantes monumentos religiosos do país.

b) obras da Igreja de Nossa Senhora do Carmo;

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Igreja Nosa Senhora do Carmo, em Sao Joao Del Rei.

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Basílica Bom Jesus dos Matosinhos

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Igreja  São Francisco de Assis e
Nossa Senhora do Carmo, em Mariana.

 

c) obras na Capela de São Miguel e Almas, ou Bom Jesus das Cabeças.

Nos arquivos e livros das ordens religiosas (Franciscana, Carmelita, Beneditina) e das paróquias estabelecidas em Ouro Preto encontramos diversos recibos de trabalhos artísticos passados por Aleijadinho.

 

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E sob os argumentos sustentados nestes recibos é atribuída ao Mestre a autoria de centenas de obras em toda Gerais.

 

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Nossa Senhora das Dores: Obra de Aleijadinho

 

Invenção do governo Vargas?

Texto de Jair Ratter

O pesquisador paulista Dalton Sala acredita que Aleijadinho foi uma invenção do governo Getúlio Vargas. Para Sala, o Mestre é um mito criado para a construção da identidade nacional — um protótipo do brasileiro típico: "mestiço, torturado, doente, angustiado, capaz de superar as deficiências por meio da criatividade".

 

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Segundo o pesquisador, nunca ficou provado textualmente que uma pessoa chamada Antônio Francisco Lisboa, conhecida como Aleijadinho, tivesse feito todas as obras que lhe foram atribuídas. Sala atribui a construção do mito Aleijadinho a uma necessidade política e ideológica da ditadura Vargas.

 

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"Criado duas semanas depois do golpe de 1937, o SPHAN - Serviço de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional tinha como meta colaborar na construção de uma identidade nacional".

 

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Detalhes de Passos da Paixão

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Detalhes de Passos da Paixão 


Sala ainda afirma que a criação dessa identidade baseou-se em dois grandes mitos: Aleijadinho e Tiradentes porque a figura de Aleijadinho faz coincidir um processo de autonomia cultural com um processo de autonomia política, personificado em Tiradentes.

 

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Detalhe de O cristo do Carregamento da Cruz, madeira policromada,
por Aleijadinho, do Santuário de Bom Jesus de Matosinhos, Congonhas, MG.

 

O pesquisador diz que o mito Aleijadinho, de origem duvidosa, já existia antes de Vargas. Foi apenas aproveitado pelo Estado Novo.

 

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Imagem de São Francisco de Paula, de Aleijadinho
(museu do Aleijadinho, em Ouro Preto)

 

Em 1858, Rodrigo José Ferreira Bretas publicou no 'Correio Oficial' de Minas que havia achado um livro datado de 1790, com a história de Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho. 

"Acontece que esse livro, chamado 'Livro de registros de fatos notáveis da cidade de Mariana', nunca foi visto por ninguém", diz Sala.

 

Blog de turma : imagens nossas, Ezequiel

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Profeta Ezequiel

 

O paulista conclui sua teoria afirmando que em 1989, o historiador de Arte Germain Basin, disse-lhe que foi pressionado pelo ex-presidente do SPHAN, Rodrigo Melo Franco de Andrade, e pelo arquiteto Lúcio Costa para emitir parecer atribuindo a Aleijadinho a autoria de obras.

 

Acróstico prova a existência do Santo-bruxo, tombado

 

Aleijadinho transcende aos rococós e motivos do barroco mineiro que, carregados de ironia, faz de sua iconografia a enunciação de significados profanos.

 

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Nosso Senhor da Paciência


Não fosse verdadeira essa afirmação fica pelo menos a dúvida uma vez que o padre Júlio Engrácia, administrador do Santuário de Congonhas do Campo, no começo do século XX, tentou eliminar as obras de Aleijadinho.

 

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Profeta Oséias


Contra aqueles que
negaram ou ainda negam a sua existência o Mestre Lisboa montou um acróstico.

 

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As iniciais dos Profetas Abdias, Baruc, Ezequiel, Jonas, Jeremias, Amós, Daniel, Joel, Nahum, Habacuc, Oséias e Isaías montam o nome como era conhecido: Aleijadinho.

 

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Profeta Daniel [detalhe}


Bastariam 11 letras. O Mestre além de utilizar as iniciais de Jonas e Joel (o jota tônico tem som de "i"), usa o "i" de Isaías, para homenagear sua mãe, escrava Izabel, de propriedade de seu pai, Manoel Francisco Lisboa.

Ao todo são 12 Profetas: 4 Maiores, 7 Menores e 1 Escriba, Baruc (Berk-yah) que quer dizer Louvado, pois não há Profeta com a inicial L.

Aleijadinho estava além da alegoria, do telúrico, e já passeava pelo Mundo da Criação 200 anos da ciência ter chegado perto da interpretação do Universo.

Nesta audácia, transgride com o seu cinzel. Deixa impresso na arte os momentos e estados da Alma que morria em vida.

Conseguir ver e refletir sobre as mensagens deixadas pelo Mestre é uma conquista sem limites da capacidade criadora que transcende à compreensão dos homens de razão. Só entenderá as mensagens aquele que possuir Alma.

 

Um grito de libertação: independência ou morte!

 

Baruc é um escriba entre os Profetas, como Critilo foi o autor das Cartas Chilenas. Ambos, Aleijadinho e Gonzaga, foram perseguidos, oprimidos e possuíam desejos de libertação.

 

 

O reforço desta ligação com os Inconfidentes está no conhecimento que possuía sobre a Escola Maçônica que tanto destaca em suas arquiteturas, nos gestos dos Profetas e nos motivos de suas indumentárias.

Sem culpa pela profanação ou medo de castigos, Aleijadinho criou o Adro: um lamento coletivo.

 

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Peregrinos se apresentam diante do Bom Jesus arrependidos de suas culpas. Parece que todo o sofrimento humano flui para lá.

A pedra-fria-sabão naquele conjunto parece disposta a ouvir e a compartilhar dos sofrimentos da humanidade além de "fazer" as advertências que o próprio colóquio dos Profetas nos impõe.

Morrendo em vida mas com sua Vontade viva encontrou o Verbo Perfeito, o Absoluto, que se revelou pela força da palavra e que deu a esta palavra um sentido igual a si mesma: "passagem".

Com os 12 Profetas (1+2=3, o triângulo, a primeira figura perfeita) somou com ele 13 — a presença da Inteligência trabalhando diretamente ligada à Unidade produzindo uma total varredura de coisas negativas para ressuscitar as positivas, um Novo Ciclo, a Ressurreição.

 

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Aleijadinho deixou para a humanidade muito mais do que sinais, símbolos ou representações da Cabala. Obrigado por ter deixado tanta informação que, depois de quase 200 anos em silêncio, nós hoje podemos entender e ouvir o seu grito de Libertação: — Independência ou morte!

 

Aleijadinho: se uma invenção, e daí?

Texto de Ivo Lucchesi

 

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Sem o propósito deliberado de firmar polêmica sobre o tema cuja origem remete à pesquisa de Dalton Sala, segundo quem a autoria das belas esculturas não pertenceria à figura de Antonio Francisco Lisboa (Aleijadinho), interessa-me o fato de enfocar a questão por outro ângulo: a autonomia da arte e a verdade.

 

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Afirmam os positivistas que, contra os fatos, não há argumentos. Já os jornalistas consideram serem mais importantes que os fatos suas possíveis versões. Por fim, os semiólogos julgam estar, acima dos fatos e das versões, a interpretação. Confesso-me inclinado a ser parceiro da terceira vertente, principalmente quando o objeto de discussão envolve a arte.

 

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Aflige o ser humano o fantasma da verdade e da mentira. Há uma irrefreável tentação no sentido de se aprisionar o sentido sobre todas as coisas. Parece-nos que, quando o conseguimos, tornamo-nos menos inseguros e mais fortes. O problema, porém, é que a arte, embora se origine da substância do mundo, não comporta a contaminação do que é mundano.

 

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Por outra via, deseja-se afirmar que o mundano não serve para se tentar extrair a verdade da arte. A arte desliza no tempo-espaço em regime de plena liberdade, o que possibilita que seus conteúdo e forma se reatualizem, à luz das transformações. 

 

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É isto que explica o fato de uma obra concebida no século V de Péricles, a exemplo da tragédia Édipo Rei, prestar-se como desafio à compreensão de fenômenos contemporâneos. Nada a alterará se, num futuro qualquer, alguém encontrar um documento no qual figure que a autoria da peça não é de Sófocles. O que foi criado artisticamente haverá de continuar seguindo seu próprio caminho. O resto fica por conta da "fofoca histórica". E fim.

 

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Louve-se o espírito diligente do pesquisador Sala. Todavia, sua contribuição, se correta o for, apenas imporá pequenas alterações no campo da informação. Em nada, o conjunto de signos a configurar a estética presente em Congonhas do Campo sofrerá qualquer abalo. Ali está consignado um modo de apreender o real na sua dimensão mais profunda acerca das dores do mundo, de suas tensões, de sua beleza, de suas contradições. Enfim, uma visão de contrastes na mais profunda estetização barroca.

É preciso ainda ressaltar que, em tempos mais antigos, a autoria de qualquer obra era um dado inexpressivo, sujeito a circunstâncias das mais diversificadas. A autoria, como hoje a conhecemos, deriva de uma construção narcisista e patrimonial do imaginário burguês, diante de sua doentia aspiração à eternidade e ao lucro. 

 

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A obra escultural de Aleijadinho (ou de quem tenha sido) está fora de quaisquer contaminações ocasionais.

Como arte, nada do que sobre ela se venha a descobrir, ou a encobrir, a atingirá. E é apenas na condição de criação artística que as esculturas adquirem real e perene interesse.

 

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No mais, são curiosidades, bisbilhiotices de alcova ou de gabinetes, ou seja, tudo aquilo que é menor, mesquinho, simplório, apequenado. Tudo que é recusado e ignorado pela arte. Restabelecer ou ratificar a "verdade autoral" a respeito da obra de arte sinaliza o uso de um olhar estrábico que tende a ver o mundo por um viés torto.

 

O BARROCO

 

O termo barroco quer dizer: pérola irregular.

Esse estilo surgiu na Itália, no final do século dezesseis, como uma nova expressão artística influenciada pelas questões do Concílio de Trento que incentivou ações voltadas para a reconquista católica no centro da Europa.

O Barroco foi um período estilístico e filosófico da História da sociedade ocidental, ocorrido durante os séculos XVI e XVII (Europa) e XVII e XVIII (América), inspirado no fervor religioso e na passionalidade. Para o Brasil, foi trazido no século dezoito pelos colonizadores espanhóis e portugueses, ambos os países que até hoje são muito católicos.

Trata-se de uma forma de arte emocional caracterizada por grandes dimensões, riqueza das formas e excesso de enfeites. O termo Barroco é sinônimo de exagero, extravagância, irregularidade, pois na expressão barroca há a intenção de comover as pessoas, de exaltar os sentimentos.

 

São artistas famosos do Barroco:

 

Na pintura

Caravaggio (Itália)

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Rembrandt (Holanda)

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 Velázquez (Espanha)

 Athaide (Brasil)

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Na escultura

Aleijadinho (Brasil)

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Bernni (Itália)

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Na música 

Bach (Alemanha), Vivaldi (Itália), Jean-Baptiste Lully (França).

Há obras barrocas em várias cidades do Brasil como, por exemplo, Recife, Salvador, Ouro Preto, Congonhas do Campo, Rio de Janeiro.

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PORTINARI: anotações  (OS ARTISTAS) escrito em segunda 11 fevereiro 2008 00:59

Cândido Protinari, Cangaceiro., óleo sobre tela. 

 

OS ARTISTAS DOS VESTIBULARES

 


Cândido Protinari, Samba, óleo sobre tela.1956, Banco Central do Brasil, Brasília,D.F.

 

Por Ana C. Dantas

Vira e mexe a ENEM, a FUVEST e outros exames de avaliação como esses, inserem em uma de suas questões um quadro de pintores como Tarsila do Amaral, Lasar Segall, Anita Malfatti, Di Cavalcanti, Cícero Dias e, entre outros, Cândido Portinari, para algum exercício de interpretação. A idéia é bastante louvável, considerando-se que as obras desses pintores são objetos da nossa cultura e dizem respeito a nossa vivência.


Cândido Protinari, Meu Pai. óleo sobre tela. 1938. Coleção particular, RJ

No entanto, embora contemporâneo e amigo dos mencionados, um se difere: Cândido Portinari. Isso porque, enquanto no Rio de Janeiro e em São Paulo os artistas se envolviam no movimento em prol do tardio modernismo brasileiro, que teve como marco a Semana da Arte de 1922, considerada o grande divisor de águas das nossas artes, o comportado Portinari seguia cursando as Escolas de Artes e Ofícios e de Belas-Artes, mantendo-se na pintura de retratos encomendados, “envolto em seu casulo, tomando conhecimento de tudo o que se passava [...], mas sem alterar seu rumo”, como diz Cecília Prada [1]. 

“Ele apresentaria realmente uma defasagem de dez anos em relação à vanguarda brasileira. Mas essa resistência parece ter sido muito mais estratégica do que autêntica. Basta lembrar que em 1923 seu quadro Baile na Roça foi recusado, por fugir dos padrões acadêmicos, pelo salão oficial da Escola de Belas-Artes. Como seu grande objetivo era obter uma bolsa para estudar na Europa, em 1928 o pintor levava ao salão um bonito, mas bem convencional retrato do amigo poeta Olegário Mariano. E via satisfeito seu intento” [2].

PORTINARI

 


Cândido Protinari, Auto-Retrato, óleo sobre tela.1957, Coleção particular, RJ.

Nono filho de um total de 11 irmãos em uma família de imigrantes italianos, aos nove anos de idade Portinari participou, como aprendiz, do restauro da igreja matriz de sua cidade natal, Brodowski, encarregado da pintura das estrelas no teto no interior de São Paulo.


Cândido Protinari, Futebol, óleo sobre tela, 1935, Coleção particular, RJ.

A primeira gravura fez a carvão aos 11 anos, era o retrato de Carlos Gomes cuja imagem vinha gravada em um maço de cigarros.
 


Desenho de Carlos Gomes feito a carvão em 1914.
Inscrições, na metade superior à direita, “LO SCHIAVO”,
“SALVADOR ROSA” e “MARIA TUDOR”; na metade inferior à esquerda,
“TOSCA”, “COLOMBO”, “CONDOR” e “GUARANY”; no centro da metade inferior,
“Carlos Gomes nascido 17 julho de 1836 e fallecido 16 setembro de 1896

Na capital, na década de 1930, participou da formação do grupo Santa Helena junto a Alfredo Volpi, Francisco Rebolo, Mário Zanini e outros.

 
Candido Portinari,  Cana, 1938, Pintura mural a afresco,
salão de audiências do Palácio Gustavo Capanema, RJ.

Portinari viajou pela Espanha, Itália, Inglaterra, Alemanha, França. Casou-se com a uruguaia Maria Martinelli, com quem teve João Cândido, seu único filho. Estudou os mestres italianos, os da Escola de Paris, os muralistas mexicanos.


Cândido Portinari,Banda de música, óleo sobre tela, 1956, col. particular, SP.

Conquistou o Prêmio de Viagem ao Estrangeiro da Exposição Geral de Belas-Artes em 1928. Em 1935 obteve a segunda Menção Honrosa na exposição internacional do Instituto Carnegie de Pittsburgh, Estados Unidos. A Universidade de Chicago publicou o primeiro livro sobre ele em 1940, His Life and Art. No ano seguinte executou quatro grandes murais na Fundação Hispânica da Biblioteca do Congresso, em Washington e, em 1943, a pedido de Assis Chateaubriand, fez os famosos murais da Rádio Tupi, no Rio de Janeiro.


Cândido Protinari, Fumo, 1938, Pintura mural a afresco. Palácio Gustavo Capanema, RJ  

Em 1950, conquistou a Medalha de Ouro concedida pelo júri do Prêmio Internacional da Paz, reunido em Varsóvia. Recebeu também a Medalha de Ouro concedida pelo International Fine Arts Council de Nova York, em 1955 e, em 56, foi convidado pelo governo de Israel para fazer uma visitar àquele país. De volta ao Brasil, recebeu, no mesmo ano, o Prêmio Guggenheim. Em 57, a Menção Honrosa veio do Concurso Internacional de Aquarelas do Hallmark Art Award e, em 58, expôs como convidado de honra, em sala especial, na I Bienal de Artes Plásticas da Cidade do México.


Cândido Protinari, A Fuga para o Egito, 1937, pintura mural a afresco,
Museu Casa de Portinari, Brodowski,SP.

Ele foi o único artista brasileiro a participar da exposição 50 Anos de Arte Moderna, no Palais des Beaux Arts, em Bruxelas. Expôs em Paris, Milão, Munique, Bruxelas, Israel, Bolonha, Lima, Buenos Aires, na Galeria Wildenstein de Nova Iorque, Tchecoslováquia e outros locais.

 
Cândido Portinari, Guerra, 1952, óleo sobre tela,
Ministério das Relações Exteriores, Brasília, D.F.

Portinari deixou mais de cinco mil obras. Entre elas, dois painéis homenageiam a iniciativa das Nações Unidas no edifício-sede, em Nova Iorque. Os privilegiados delegados da ONU são os únicos com freqüente acesso aos maiores painéis do pintor, de um lado o Guerra, de outro, o Paz.


Cândido Protinari, Paz, óleo sobre tela, 1952,
Ministério das Relações Exteriores, Brasília,D.F.

 

50 ANOS DE PORTINARI NA ONU

 

Em 1952 Trygve Lie, então Secretário Geral da ONU, sugeriu a cada nação membro da Organização das Nações Unidas, que fizesse uma contribuição cultural à instituição cuja sede estava em construção.

Portinari foi o artista escolhido pelo governo brasileiro para realizar as obras em homenagem à entidade.

Aprovadas pela Junta Assessora de Arte da ONU, em 1954 as maquetes dos painéis foram expostas no Museu de Arte de São Paulo (MASP) por ocasião do IV Centenário da cidade de São Paulo.


Cândido Portinari, Mulher, 1955, desenho a grafite e lápis de cor
sobre papel, Galeria Bonino,RJ.

Depois de longo atraso nas negociações financeiras e da assinatura do contrato, Portinari deu início à execução dos painéis que já contava com muito estudo. Foram mais de 150 estudos, disse Rosinha Leão, "Cada mão, cada pé, cada rosto era motivo para um estudo detalhado".

 

 
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Estudos

No entanto, nesse período o artista já se encontrava as sob ordens médicas de afastar das atividades artísticas, em razão do estranho envenenamento causado pelas tintas que usava, e que o levou, mais tarde, a morte prematura. E, embora Portinari preferisse trabalhar no edifício da ONU, os painéis foram pintados no galpão da TV Tupi, no Rio de Janeiro, cedido por Assis Chateaubriand, onde as condições de trabalho eram precárias.

Os amigos Rosinha Leão e Enrico Bianco foram também discípulos e ajudantes.

Em janeiro de 1956 a obra estava pronta e, antes de embarcar para Nova Iorque, foi inaugurada pelo Presidente Juscelino Kubitscheck, no Teatro Municipal.

Chegando a Nova Iorque, em pleno macarthismo, os painéis forma boicotados como obra de um artista comunista. Guardados por um ano e seis meses, após esforços diplomáticos foram expostos no local combinado. Para a sua instalação no hall dos Delegados da Assembléia Geral foram gastos US$ 20.000,00.

Os painéis foram inaugurados em 6 de setembro de 1957, sem a presença de Portinari.

 

MACARTHISMO

 


Cândido Portinari, Mulher e menino morto,  1939, zincografia, papel.

Após a segunda Guerra Mundial, deu-se inicio a disputa entre EUA e União Soviética pelo poder hegemônico do planeta na chamada Guerra Fria. A política interna norte-americana daquele período caracterizava-se pela perseguição a pessoas acusadas de simpatizar com o comunismo e de realizar atividades antinorte-americanas, auxiliada pela Lei MacCarran-Nixon, de 1950, que exigia o registro de todas as organizações simpatizantes do comunismo.

O senador Joseph McCarthy era o responsável pelas subcomissões de investigação do Senado, que realizavam uma caça às bruxas no meio artístico, intelectual e sindical do país, que chegou a atingir cerca de seis milhões de norte-americanos, entre eles artistas como Charles Chaplin, Henry Fonda e outros, destacando-se o casal Julius e Ethel Rosenberg, executado na câmara de gás em 1953, acusados de entregar aos soviéticos o segredo da bomba atômica.


Cândido Portinari, Transporte do café, 1956, Painel a óleo/madeira.

Desde a década de 1940, parte da sociedade norte-americana já não via com bons olhos o brasileiro Cândido Portinari que incluíra figuras de negros em seus murais na Biblioteca do Congresso, em Washington, e que, por ocasião da sua exposição no Museu de Arte Moderna de Nova Iorque, incluiu dez negros na lista de convidados e a direção do MoMA se viu impulsionada a boicotar os convites.


Cândido Portinari, Menino com cabrito. 1954, Coleção particular, São Paulo,SP

Em 1945, junto de amigos como Oscar Niemeyer e outros intelectuais, filiou-se formalmente ao Partido Comunista, pelo qual se candidatou a deputado e, mais tarde, a senador, sem obter sucesso, mas com prejuízo em sua carreira, pois além de terem vetado uma exposição sua na cidade de São Paulo, sua entrada nos EUA foi dificultada nesse período.

 

FURTOS [3]

 

Faz muito tempo que comprar, vender ou colecionar obras de arte vem sendo um bom negócio. Essa é uma prática constante no mundo entre as pessoas de grande poder aquisitivo.

Embora, como afirma o marchand Lopes dos Santos [4], “o consumo não tenha a ver com uma educação culta, e sim com dinheiro”, a cultura brasileira não é muito voltada para conhecimentos de arte, muitas pessoas que se interessam por esse mercado deixam de comprar por falta de informações que lhes permita identificar a qualidade, o valor e a originalidade da obra. Mas, ainda assim, essa tem sido uma atividade atraente no País.

Nos últimos dez anos, foram furtadas 933 obras de arte e bens culturais no Brasil, que é o quarto país com o maior número de ocorrências desse tipo, atrás apenas dos Estados Unidos, França e Iraque.

A maior ocorrência de furtos no Brasil tem sido com a arte sacra, os roubos de quadro são mais casuais e amadores. Os especialistas afirmam que não há mercado para grandes obras de arte roubadas. “Acho muito fantasiosa a hipótese de um colecionador milionário, que fica em uma sala hermeticamente fechada onde só ele poderá contemplá-la” — diz João Cândido, filho de Portinari.

No carnaval de 2006, por exemplo, o Museu Chácara do Céu, no Rio, foi assaltado por bandidos armados com pistolas e granada. Foram roubados quadros de Matisse, Monet, Picasso e Salvador Dalí, avaliados em US$ 50 milhões.

No dia 29 de outubro de 2007, o Museu de Arte de São Paulo (MASP) foi invadido por dois assaltantes uniformizados de segurança que renderam os vigias do museu, mas sem sucesso. Fugiram sem levar nada.

Na madrugada de 27 de fevereiro de 2007, dois quadros de Pablo Picasso foram roubados da casa de sua neta, Diana Widmaier-Picasso, em Paris, França. Os quadros Retrato de Jacqueline e Maya à la Poupée estavam avaliados em 140 milhões de dólares.

De um museu holandês foi roubado, em 2002, o quadro Vista do Mar em Scheveningen, de Van Gogh. Renoir também já foi roubado, seu quadro A Praça de Trinite foi recuperado em uma tentativa de venda nos EUA, em 2004.

Do Museu de História da Arte de Viena, enquanto era reformado, foi roubado o saleiro de ouro feito pelo mestre da Renascença Benvenuto Cellini avaliado em 60 milhões de dólares. O ato do furto durou 50 segundos.

De Leonardo da Vinci, uma tela em exibição no Castelo de Drumlanrig, na Escócia, avaliada em 40 milhões de euros, também foi roubada. Igualmente Renoir, Rembrandt, Salvador Dali e até a Monalisa de Da Vinci que se encontra no museu do Louvre, já foram alvos de furto.

Só nos primeiro mês de 2008 já temos notícias de um roubo de quadro, dia 8 de janeiro, em um centro cultural na Suíça onde levaram um Picasso avaliado em quatro milhões de dólares e, no dia 10 de janeiro, um museu de Zurique anunciou o roubo de quadros dos impressionistas Cézanne, Degas, Van Gogh e Monet. Mesmo que a polícia de Zurique não tenha ainda revelado o nome do museu, acredita-se que o roubo tenha ocorrido na Fundação Emil Buehrle, entidade fundada por um empresário, que abriga várias obras impressionistas.


Edgar Degas, Pequena Bailarina de Quatorze Anos, s/d,
Museu de Arte moderna de São Paulo.
Essa obra coloca o MASP dentro de um seleto clube de somente
poucos museus colecionadores do mundo inteiro, que possuem em seus acervos
as 28 únicas reproduções em bronze da escultura original do artista feita em cera. [5]

As obras de Pablo Picasso lideram o ranking das mais roubadas contabilizando 586 obras, seguida de Juan Miró, com 365, Marc Chagall, com 320, Salvador Dali, com 244, e Pierre-Auguste Renoir, com 220 [6].

 

BASTARAM 3 MINUTOS
PARA CARREGAREM DO MASP
100 MILHÕES DE DÓLARES

 

 

No dia 20 de dezembro de 2007, às 5:09h, assaltantes arrombaram a porta principal do Museu de Arte de São Paulo e, às 5:12h saíram de lá carregando dois dos quadros mais importantes do acervo:

"O Lavrador de Café", de Cândido Portinari, de 1939, e "O Retrato de Suzanne Bloch", de Pablo Picasso, de 1904. As obras encontravam-se expostas em salas separadas no segundo andar. Juntas, estão avaliadas em mais de US$ 100 milhões, segundo a assessoria de imprensa do MASP.

João Cândido Portinari, filho do pintor, considera uma tragédia o furto de uma obra do pai, “porque 95% das cinco mil obras de Portinari estão em coleções particulares e longe dos olhos do público. Além disso, o quadro retrata a história do trabalhador brasileiro e do próprio pintor, que em um poema diz: 'Saí das águas do mar e do cafezal da terra roxa’" — diz João, fazendo referência à fazenda de café onde o pintor nasceu no interior de São Paulo.

No dia 8 de janeiro de 2008, os quadros foram encontrados intactos, enrolados em cobertores, em uma casa simples de Ferraz de Vasconcelos, um bairro periférico da cidade de São Paulo.

 

O RETRATO DE SUZANNE BLOCH 
de Picasso

 

O pintor catalão Pablo Ruiz Picasso (1881-1973) viveu um período entre Barcelona e Paris — de 1901 a 1904 —, em seu ateliê da capital francesa, na rua Ravignan número 13, a importante cantora wagneriana Suzanne, irmã do violinista Henri Bloch posou para Picasso.

Considerado um momento de transição de sua carreira, o Retrato de Suzanne Bloch é a sua última obra da fase azul. Além do quadro do acervo do MASP, Picasso fez outro retrato de Bloch a bico de pena com realces a guache, que se encontra na coleção de Neubury Coray, em Ascona, na Suíça.


A influência de Paul Cézanne (1839-1906) é percebida nessa obra de Picasso, que passa a ser identificada por alguns críticos como pós-impressionista.

 
Paul Cezanne, The Brook.


“Essa preocupação, de como a forma da construção é mais importante do que o realismo da representação, e, nesse sentido, o azul dominante nesta tela é um bom exemplo, é uma das características precursoras do cubismo, que tem em Picasso um de seus principais líderes, ao lado de Georges Braque” [7].


Georges Braque,

Depois do retrato da cantora Suzanne Bloch, Picasso rompe completamente com as formas tradicionais de representação dando início ao cubismo com a pintura Les Demoiselles d'Avignon, em 1907, conduzindo-se a idéia de autonomia da arte, um dos princípios do modernismo.


Pablo Picasso, Les Demoiselles d'Avignon, 1907.

O Retrato de Suzanne Bloch que faz parte do acervo do MASP mede 65X54 centímetros e já esteve exposto em diversos locais como o Museu Picasso de Paris, em 1994; Berlim, em 1913; Buenos Aires, em 1939; São Francisco, em 1940; Los Angeles, em 1941; e Berna, em 1992.

 

O LAVRADOR DE CAFÉ
de Portinari

 

É uma das telas mais famosas de Candido Portinari (1903-1962), cuja data é confusa, para o MASP ela teria sido elaborada em 1939, mas para o Projeto Portinari [8], a obra data de 1934.


Cândido Portinari,  Preto da enxada, bico-de-pena e nanquim, 1934, col. particular, RJ.

O Lavrador de café faz menção à temática social das mais recorrentes em Portinari que, só sobre esse tema, realizou cerca de 50 obras, tendo recebido, em 1935, a 2ª Menção Honrosa do Carnegie Institute, em Pittsburgh, nos EUA pela tela “Café”, hoje pertencente ao Museu Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro.


Cândido Portinari,  Vendedor de peru,  óleo sobre madeira, 1958, Col. Particular, S.P.

O interesse de Portinari foi muito além das classes trabalhadoras, pintou temas nacionais, pintou os índios, os negros e os mestiços, os heróis, as crianças, o circo e muito mais. São, no total, 450 temas diferentes catalogados no Projeto Portinari.


Cândido Portinari, Menino do Tabuleiro, óleo sobre tela, 1947, col. particular, RJ.

A obra O Lavrador de Café já foi exibida em vários países como Chile, 1980; Japão, 1982; e Suíça, 1993; bem como participou em várias cidades brasileiras como Salvador, 1963, e Curitiba 1985 [9].


Cândido Portinari, Café, mural afresco. 1938, Palácio Gustavo Capanema, RJ.

 

BRODOWSKI
A terra de Portinari

 


Cândido Portinari, Casa de Brodowski, óleo sobre tela, 1943, col. particular, RJ.

Antes conhecida como a capital do abacaxi, o município foi se desenvolvendo no interior paulista, ao redor dos trilhos de trem, instalados pela Companhia Mogiana de Estradas de Ferro em 1894.

 
Cândido Portinari, Lembrança da minha infância, óleo sobre tela, 1957, col. particular, SP. 

O nome é uma homenagem ao engenheiro Alexandre Brodowski, inspetor-geral da companhia e, embora a grafia cause confusão (Brodósqui, Brodoswky ou Brodóski), na década de 1980 foi aprovada em plebiscito a utilização do nome original.

 
Cândido Portinari, Paisagem de Brodowski, óleo sobre madeira,  col. particular, SP.

A cidade se orgulha de ter sido o berço de Candido Portinari, mesmo tendo o artista vivido no Rio de Janeiro desde os 15 anos.


Candido Portinari, Maninos brincando, óleo sobre madeira, 1958, col. particular, RJ.

 

TEMA DE EXAME DE
SELEÇÃO EM 2008

 

A Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ibitinga, FAIBI, introduziu no seu processo seletivo de 2008, no exame de atualidades, a seguinte questão:

39) Em dezembro de 2007 foram furtados (e já recuperados) do MASP (Museu de Arte de São Paulo) duas obras de arte de elevado valor financeiro. Quais os nomes dessas obras e seus respectivos autores?

a) Retrato de Suzanne Bloch (Pablo Picasso) e O Lavrador de Café (Cândido Portinari)
b) O Abaporu (Tarsila do Amaral) e O Lavrador de Café (Candido Portinari)
c) O Lavrador de Café (Pablo Picasso) e o Retrato de Suzanne Bloch (Cândido Portinari)
d) A Estudante (Anita Malfatti) e o Abaporu (Tarsila do Amaral)
e) A Artesiana (Vincent Van Gogh) e O Lavrador de Café (Tarsila do Amaral)

 

NOTAS

 

[1] Cecília Prada é escritora, jornalista editora. Escreve para a revista Problemas Brasileiros, do SESC-SP.

[2] PRADA, Cecília. Há cem anos nascia Portinari, um dos maiores pintores brasileiros, Revista Problemas Brasileiros, nº 38, 2003.

[3] Para entender a natureza do furto, é importante distingui-lo do conceito de roubo. Convém lembrar que ambos são conceitos jurídicos enquadrados no Código Penal. A diferença básica entre os dois tipos de crime é a forma pela qual eles são cometidos, um sem e outro com violência. Caracteriza furto (art. 155), mais especificamente furto qualificado (com agravante), quando há ''destruição de obstáculos'' (arrombamento do piso etc.). Nesse caso, a pena é de reclusão de dois a oito anos e multa. O roubo, segundo o artigo 157 do Código Penal, só ocorre quando há ''grave ameaça ou violência à pessoa, ou depois de havê-la, por qualquer meio, reduzido a impossibilidade de resistência''.

[4] João Carlos Lopes dos Santos, Yahoo! Brasil: Guia da semana, RJ, 4/02/08.

[5] "Em 4 de junho de 1951, Pietro Maria Bardi e Assis Chateaubriand receberam uma proposta da Galeria Marlborough, de Londres, para aquisição de um conjunto completo de bronze de Degas. Em outubro de 1951, Chateaubriand enviou uma resposta finalmente aceitando o pedido e em 1952, o conjunto de 73 peças foi enviado ao Brasil (...)”.  Antes de chegar ao Masp, o que ocorreu somente em 1954, as esculturas foram exibidas  no Itamaraty, em Brasília, e em seguida no Museu de Arte Moderna de São Paulo". (Margarida Nepomuceno, em: www.coresprimarias.com.br)

[6] Fonte: http://guiadoscuriosos.ig.com.br/index.php?cat_id=54360

[7] Fabio Cypriano, da Reportagem Local da Folha de São Paulo, 21/12/07.

[8] O Projeto Portinari é resultado do levantamento e catalogação da obra do pintor, que se iniciou em abril de 1979, e hoje conta com quase 5.000 obras, bem como aproximadamente 30.000 documentos a respeito delas. Em 1978 foi constatado que o Museu de Arte Moderna de Nova York possuía mais informações sobre Portinari do que todas as instituições brasileiras que havia visitado. Atualmente o Projeto conta com o apoio da PUC-Rio, da Faperj, da Petrobras, da IBM Brasil, da Associação Cultural Cândido Portinari e da Portinari Licensing Ltda. É dirigido por João Candido Portinari, filho do pintor, PhD pelo MIT e um dos fundadores do Departamento de Matemática da PUC-Rio, de onde foi primeiro Diretor. O endereço do site é: www.portinari.org.br.

[9] Fonte: Fabio Cypriano, da Reportagem Local da Folha de São Paulo, 21/12/07.

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PORTINARI: interpretação  (OS ARTISTAS) escrito em segunda 11 fevereiro 2008 17:39

Cândido Portinari, Depósito de óleo.  

RETALHOS

Fragmentos
interpretativos
das obras de Portinari

 

Trechos capturados ao léu de
trabalhos dos autores:
Jacob Klintowitz [1] e Anna Teresa Fabris [2]

fragmentos de texto de Jacob Klintowitz
 

Referindo-se a Portinari,
por ocasião da bela acolhida da sua
exposição em Paris, em 1946,
o poeta Carlos Drummond de Andrade disse:

 “… Foi em você que conseguimos a nossa
expressão mais universal, e não apenas
pela ressonância, mas pela natureza
mesma do seu gênio criador, que ainda
que permanecesse ignorado ou negado,
nos salvaria para o futuro…”

 


Portinari, Ar, óleo/tela, 1945. Palácio Gustavo Capanema,
Rio de Janeiro, RJ.

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A série dos “Meninos de Brodowski” despertou uma
atenção especial, por ser muito conhecida e por registrar
as memórias do artista, nascido nesta cidade. Trata-se
da seleção de 4 desenhos da série, constituída de 22 obras,
que retratam meninos da cidade natal do artista,
Brodowski, no interior do estado de São Paulo.

 

 

A extraordinária solenidade dos meninos nos afasta de imediato da idéia de que Candido Portinari, piedoso, pinta a infância desamparada. Fosse uma pintura sentimental, neste sentido, ela seria nobre e louvada por sua solidariedade, mas isto não bastaria. O que temos aqui, nestas pinturas de crianças do interior paulista, é um duplo movimento do mesmo vetor. O primeiro, é a qualidade artística que torna a figura emblemática e nos lembra autores inesperados, especialmente um tão diferente de Portinari, como Velazquez. Em ambos encontramos esta capacidade de tornar a figura infantil em paradigma. Imóvel, severa, concentrada em si mesmo, um modelo de existência real e, ao mesmo tempo, por sua inteireza, eterna. O segundo movimento deste vetor, é a inquietação do contemplador diante da intensidade da vida, a pergunta sobre a natureza da infância e da própria existência. “Meninos de Brodowski”, com a sua recusa à demagogia e a opção pela identidade do ser, constrói um dos mais altos momentos da arte brasileira.

 

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O espantalho, um signo visual da lavoura,
nas mãos de Portinari se transforma em pinturas
de grande força expressiva e nas das mais
características paisagens campestres da nossa arte.

 


Portinari, Espantalho, guache/papel, 1946, col. particular RJ.

Entretanto, o mais surpreendente é que em Portinari, este assunto recorrente em sua obra, ganha conotações transcendentais e se transforma numa das mais poderosas metáforas religiosas da nossa arte. O espantalho de Candido Portinari costuma ser carregado de dramaticidade, denso e impregnado de humanidade, idealizado ao limite do homem elevado à condição divina, símbolo do homem sacrificado por seu amor ao próximo.

 


Portinari, Espantalho, óleo/tela, 1940, col. particular SP.

Esses espantalhos, na postura de Jesus Cristo na cruz, transformam-se em verdadeiro símbolo nacional e se constitui de inúmeras facetas, como é próprio do simbólico: pastoral, semeadura, homem sacrificado, homem se sacrificando, Deus doador, morte e amor. Num poema de 1961, escrito em Paris, Portinari invoca e define a figura do espantalho como um Deus amoroso e acolhedor:

 

"Espantalho espantava as angústias,
a maldição e o silêncio…"

 


Portinari, Paz, Desenho a grafite, crayon, sanguínea
e lápis de cor/papel, 1955, col. particular, RJ.

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Cândido Portinari contou ao Presidente do Banco da Bahia, Clemente Mariani, que se inspirara em algumas pinturas do renascimento veneziano para pintar o mural “A chegada de D. João VI ao Brasil”. O que não chega a ser propriamente uma confidência notável, dado a sua admiração pelos venezianos, especialmente Veronese, mas ajuda a desfazer equívocos. Terminada a primeira das maquetes, Portinari convidou o seu amigo, o arquiteto Lúcio Costa, autor do plano piloto de Brasília, para conhecê-la.

 
Portinari, A Chegada de Dom João VI à Bahia, óleo/tela, 1952,
Banco BBM, Salvador, BA.

É uma pintura sinfônica e de esplendor, luminosa, com uma explosão de amarelos e brancos onde as cores crepitam e revelam as suas virtualidades. É notável como uma pintura feita com padrões tão rígidos — a organização das massas cromáticas, a estrutura geométrica, a representação severa — possa conter tantas questões da arte e da cultura contemporânea, especialmente as relações de cor e a estrutura geométrica; a consciência individual versus o anonimato funcional; o poder e a teatralização do ato público.


Quando comparamos essa pintura com um desenho preparatório, ainda tão desprovido dessas graves questões e da fulguração final, percebemos o longo caminho do artista até a realização de uma obra magna, como essa. O ex-Ministro da Educação e Cultura, Clemente Mariani, no seu testemunho sobre o painel percebeu com exatidão o caráter avançado da pintura e, ao mesmo tempo, a sua filiação clássica: “…O quadro saiu, evidentemente dentro da técnica do modernismo, mas obedecendo a uma ordem hierática, que lhe dava a visão de uma pintura clássica…”.

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Além da qualidade pictórica, o vigor que a sua pintura sacra
manifesta está na nobreza do sentimento imanente.
O conceito de generosidade e de amor ao próximo que
o artista possuía era esse, o de um ser desprovido
de ambições pessoais e desejo de poder
sobre os outros homens.


Portinari, São Francisco Pregando aos Pássaros, afresco, 1940,
Museu Casa de Portinari, Brodowski, SP.

Observe-se uma das suas pinturas mais conhecidas, um São Francisco de Assis. Ele é de uma leveza e simplicidade incríveis. É o homem santo porque amoroso com a natureza, irmão dos seres viventes, desprovido de interesses ocultos. É este homem vitorioso contra os apegos, sem posses, cuja característica é o amor ilimitado, o personagem do pintor.

Candido Portinari


O homem que não deseja poder sobre a natureza e os
outros homens. O pássaro, presença constante na
representação de São Francisco, forma o corpo
da pintura, o seu movimento e cromatismo.


Portinari, Raquel Lamentando o Massacre dos Inocentes,
óleo com areia/tela, 1939, col. particular, Salvador, BA.

No caso de Candido Portinari, a pintura de tema sacro não é uma representação técnica e fria de motivos tradicionais, mas a interpretação e recriação do sentimento amoroso da vida espiritual e a recuperação do sentido religioso, o re-ligare, o juntar as partes, o tornar o que está no céu igual ao que está na terra, o refazer o nó que une o céu e a terra, a celebração da aliança primordial entre a criatura e o Criador, a manifestação do júbilo do êxtase.

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No dia 9 de fevereiro de 1962, três dias após
a morte de Candido Portinari, o poeta brasileiro,
Carlos Drummond de Andrade,
publicou o poema “A Mão”.
Segue trechos selecionados:

                                   
"Entre o cafezal e o sonho
o garoto pinta uma estrela dourada
na parede da capela.
[…]
A mão sabe a cor da cor
e com ela veste o nu e o invisível.
Tudo tem explicação porque tudo tem
(nova) cor.
[…]
O que era dor é flor, conhecimento
plástico do mundo.
a mão-de-olhos-azuis de Candido Portinari."

                

Portinari, Figuras na Paisagem, óleo/tela, 1940, col. particular, RJ.

 
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fragmentos de texto de Anna Teresa Fabris

 

Com o afresco e a pintura mural moderna,

a pintura marcha no sentido do curso histórico, isto é, para sua reintegração na grande arte totalitária, hierarquizada pela arquitetura, da sociedade socialista em gestação. Portinari já sente a força desta atração.

 
Portinari, Borracha, afresco, 1938, Palácio Gustavo Capanema, RJ.

Como se deu com Rivera, com a escola mexicana atual, aliás — a matéria social o espreita. A condição de sua genialidade está ali.


Diego Rivera e Frida Kalo, em 1932.

A pintura atual procura o muro. O seu espírito é sempre um espírito de classe em luta. Estou com os que acham que não há arte neutra. Mesmo sem nenhuma intenção do pintor, o quadro indica sempre um sentido social.

 
Obra de Diego Rivera

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Portinari não é uma voz isolada na
defesa de uma arte social
.

 
Lívio Abramo, xilogravura.

Portinari opera uma abstração das diferentes etapas de produção. O painel Fumo, de fato, apresenta um trabalhador de costas levemente inclinado, sem que seja possível determinar a natureza de sua tarefa, acompanhado por outro trabalhador flagrado no momento em que está bebendo de uma cabaça, cada um deles observado por uma figura feminina.

 
Portinari, O Fumo, Pintura a guache, grafite, crayon colorido e caneta-tinteiro/papel,
1938, Banco Bradesco, Osasco, SP.


Uma outra figura feminina ocupa o primeiro plano da composição, aparentemente absorvida na contemplação da planta que dá nome ao painel.

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Portinari reduz ao máximo os elementos exteriores à temática do trabalho: a ambiência natural não passa de alguns elementos referenciais, o mesmo acontecendo com alguns fundos arquitetônicos, que denotam a adoção de recursos utilizados pelos primitivos italianos. 

 

 

A ordenação interna dos painéis é também de caráter sintético. O pintor situa em cada cena poucas figuras gigantescas, cuja volumetria evoca a estatuária; confere-lhes uma gestualidade estática e essencial, confiando o efeito de dinamismo a um jogo de correspondências psicológicas; despoja quase todas as fisionomias de traços característicos, construindo os rostos por planos e formas geométricas; racionaliza ao extremo o espaço; articula a temporalidade da ação em vários momentos significativos, embora imobilizados como na maior parte das obras de uma de suas fontes visuais indiscutível, Piero della Francesca.


Obra de Piero della Francesca