CONCEITOS

TEXTOS PARA DISCUSSÃO: O que é cultura?  (CONCEITOS) escrito em domingo 04 novembro 2007 16:09

fonte: ecochic.wordpress.com/2007/04/

                                  

 

CULTURA

 

                                 

Conceito
                                                                                                                                                                                   

O historiador Francisco Alambert, por ocasião do Painel Cultura e Pensamento 2006, realizado pelo SESC/SP, mencionou que o termo culttura é um dos mais complexos das línguas ocidentais.

A) A princípio, o termo nos remete à idéia de crescimento e cuidado, por exemplo:

a) o cultivo e colheita dos meios naturais de subsistência (a agriCULTURA)
b) o trato com os animais
c) o cuidado com as faculddes mentais e espeitituais do homem

B) A modernidade, que se iniciou no século 17, trouxe nova reflexão a respeito do termo, resultando em duas principais linhas de pensamento:
 

1ª A NOÇÃO ANTROPOLÓGICA

Conceito burguês e elitista, no qual:


i. cultura é a representação material e espiritual da realidade de um "povo", de uma nação, de uma comunidade, manifestada por meio de:

a. práticas,

b. rituais,

c. intiruições,

d. textos,

e. idéias e

f. imagens que dizem respeito à especificidade e à originalidade de um grupo social.

ii. a cultura tem caráter localizado, particular e exclusivo,
iii. o conceito burguês rejeita uma idéia de "Cultura Universal" e, portanto, de uma "Justica Universal",
iv. o conceito burguês inclui as diversas formas de "Cultura Popular"
v. tem concepção consercadora
vi. o conceito burguês reconhece apenas manifestações ligadas a uma tradição conformista, específica de regiões.
vii. o conceito burguês fantasia uma cultura pura, livre de estrangeirismo e intelectualismos

2ºA NOÇÃO ELITISTA

i. cultura é tudo o que deriva de "saberes "eruditos", "cultivados", adquiridos por meio do conhecimento de:

a) filosofia, literatura, histórico, educação formal etc.

ii) trata-se de um "homem cultivado", ou seja "civilizado"
iii) no século 19, a religiosidade, cuja influência política encontrava-se em declínio, serviu "das realizações mais 'nobres' e 'elevadas' do homem 'civilizado' e de seu 'espírito'", como afirma ironicamente o professor Alambert.

a) [vale lembrar que, nesse período, as religiões católica e protestante propagavam a idéia de que o negro ou indígena não possuiam alma, portanto, não poderiam ser enquadrados na condição de homem, não podendo também adquirir cultura, apenas os ensinamentos básicos para um coportamento aparentemente civilizado].

iv) os elitistas não incluiam a noção de "cultura popular" ou folclórica" que eram vistas como "barbárie" e decadência"
v) concebe a cultura como processo civilizatório

Para a Professora Maria Helena Pires Martins,
dependendo de como usamos o conceito, tudo pode ser cultura.

Fonte: http://www.brasilcultura.com.br/conteudo.php?menu=90......

                  
A professora explica que existem dois tipos de conceitos de cultura, o restrito e o amplo. No conceito amplo, ou antropológico, cultura é o modo como indivíduos ou comunidades respondem às suas próprias necessidades e desejos simbólicos.

                  

O ser humano, ao contrário dos animais, não vive de acordo com seus instintos, isto é, regido por leis biológicas, invariáveis para toda a espécie, mas a partir da sua capacidade de pensar a realidade que o circunda e de construir significados para a natureza, que vão além daqueles percebidos imediatamente. A essa construção simbólica, que vai guiar toda ação humana, dá-se o nome de cultura.

                       

A cultura, nesse sentido amplo, engloba a língua que falamos, as idéias de um grupo, as crenças, os costumes, os códigos, as instituições, as ferramentas, a arte, a religião, a ciência, enfim, toda as esferas da atividade humana. Mesmo as atividades básicas de qualquer espécie, como a reprodução e a alimentação, são realizadas de acordo com regras, usos e costumes de cada cultura particular. Os rituais de namoro e casamento, os usos referentes à alimentação (o que se come, como se come), o preparo dos alimentos, o tipo de roupa que vestimos, a língua que falamos, as palavras de nosso vocabulário, tudo isso é regulado pela cultura à qual pertencemos. A função da cultura é tornar a vida segura e contínua para a sociedade humana. Ela é o "cimento" que dá unidade a um certo grupo de pessoas que divide os mesmos usos e costumes, os mesmos valores. Deste ponto de vista, portanto, podemos dizer que tudo o que faz parte do mundo humano é cultura.

 

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RACISMO: População branca nos EUA e conceitos  (CONCEITOS) escrito em terça 12 fevereiro 2008 13:38


Darwin's theory of evolution

 

Para pensar:

 

AMERICANOS

 

BRANCOS

 

É RAÇA EM

 

EXTINÇÃO

 

A chamada matéria da Folha de São Paulo [1] diz assim: Brancos serão minoria nos EUA em 2050, mostra estudo.

Os "brancos" mencionados no título da matéria é a "população branca não-hispânica".

Entenda por “hispânico” tudo o que é "latino-americano", ou seja, nos estudos americanos, a população hispânica é a população de imigrantes latinos, sejam eles os de países que foram colonizados por espanhóis, ou os imigrantes brasileiros que, por sinal, não são poucos.

A reportagem diz que até 2050, os imigrantes e seus descendentes representarão a maioria, logo, os brancos serão a minoria.

Isso porque a população total, que hoje conta com 296 milhões de pessoas*, contará com um crescimento de 82% nos próximos anos, chegando a 438 milhões em 2050.

O estudo revelou que, dos 117 milhões de cidadãos acrescidos à população neste período, graças aos efeitos da nova imigração, 67 milhões serão estrangeiros e 50 milhões serão seus descendentes.

A população "branca", com baixas taxas de fertilidade, envelhece, mas a população "latina", a "mais populosa minoria", triplicará.

Em 2050, os latino-americanos representarão 29% da população, com 128 milhões de pessoas, a parcela de asiáticos dobrará em termos de porcentagem, de 5% a 9%, enquanto os negros continuarão em torno de 13% do total.

"A previsão da pesquisa mostra que a população de velhos dobrará por causa do envelhecimento da geração do "baby boom" do pós-guerra. Já o número de crianças e da população economicamente ativa crescerá mais vagarosamente."

A notícia deixa claro que:

1º latinos não são brancos;
logo, enganam-se os brasileiros que pensam que se distinguem dos negros ou dos índios por serem brancos.

2º brasileiros são hispânicos;
mas eu pensei que o Brasil havia sido colonizado por Portugal! e que, por conta disso, nossa língua materna era o português! é, mas, será que existe Portugal nos mapas americanos?

3º os hispânicos são a maior das minorias;
talvez porque eles enquadrem muitos tipos na categoria dos hispânicos.

4º além disso, os hispânicos procriam à beça;
rsrsrs

5º e, por fim, os brancos — os “americanos legítimos” —, representam uma raça em extinção.

Isso tudo faz sentido para você?

Notas
[1] Folha Online, Mundo, 12/02/2008 - 02h10.
[2] Dados de 2005.

 

DEFINIÇÕES E

 

CONCEITOS


aos olhos da

 

União Européia

 

Comissão Européia
"RACISTA, EU?!"
Luxemburgo: Serviço das Publicações
Oficiais das Comunidades Européias
1998 - 31 p. 21 x 29,7 cm
ISBN 92-828-4023-9

 

 

IMIGRAÇÃO

A imigração é um fenômeno constante
ao longo da história da Humanidade,
que cria e enriquece as culturas,
em vez de as ameaçar.
Russell King, Universidade de Sussex, 1991

 

RACISMO

O racismo começa quando a diferença,
real ou imaginária, é usada para justificar
uma agressão. Uma agressão que assenta
na incapacidade para compreender o outro,
para aceitar as diferenças e para
se empenhar no diálogo.
Mário Soares, ex-presidente de Portugal:

 

O racismo consiste em crer que
certas pessoas são superiores a outras
devido a pertencer a uma raça específica.
Pádraig Flynn, Comissário Europeu

 

O racismo reveste-se de várias formas
nos diversos países, consoante a sua
história, cultura e outros fatores sociais.
Uma forma relativamente recente de racismo,
por vezes denominada (diferenciação étnica
ou cultural), defende que todas as raças
e culturas são iguais, mas não se
deviam misturar, de maneira
a
conservar a sua originalidade.
Não existe nenhuma prova
científica da existência
de raças diferentes.
A biologia só identificou
uma raça: a raça humana.

Pádraig Flynn, Comissário Europeu

                                        

Nós nos encontramos hoje numa importante
encruzilhada, face àquilo que talvez seja
a mais dura batalha alguma vez travada.
As crenças fundamentalistas
de todo o tipo invadiram o mundo...
O racismo é uma invenção humana,
relativamente moderna
e que, julgo eu, não é inevitável.
Professora Patricia Williams,
conferencista, 1997

 

OS RACISTAS

Definem uma raça como sendo um grupo
de pessoas que têm a mesma ascendência.
Diferenciam as raças com base em características
físicas como a cor de pele e o aspecto do cabelo. Investigações recentes provam que a (raça)
é um conceito inventado.
Pádraig Flynn, Comissário Europeu

 

A NOÇÃO DE RAÇA

Não possui qualquer fundamento biológico.
A palavra (racismo) é igualmente usada
para descrever um comportamento
abusivo ou agressivo para com
os membros de uma (raça inferior).
Pádraig Flynn, Comissário Europeu

 

EUROPA

A Europa é uma sociedade multicultural e
multinacional que se enriquece com
esta variedade. No entanto,
a constante presença do racismo
na nossa sociedade não pode ser ignorada.
O racismo toca toda a gente.
Degrada as nossas comunidades
e gera insegurança e medo.
Pádraig Flynn, Comissário Europeu

 

CRIATIVIDADE

A criatividade só pode ter origem na diferença.
Yehudi Menuhin, violinista e defensor dos direitos do Homem

 

PRECONCEITO

Opinião desfavorável relativamente
a uma pessoa ou um grupo formado
sem conhecimento, razão ou causa.
Conselho da Juventude Britânico
 

 

PODER

Capacidade para fazer mover as coisas,
as possuir e as controlar.
Conselho da Juventude Britânico 

 

RACISMO X PRECONCEITO

O preconceito pode significar o desprezo
por alguém antes mesmo de saber o que
quer que seja sobre ele, mas sem ter,
necessariamente, o poder de influenciar
a sua vida negativamente.

Quanto ao racismo, está relacionado com o
funcionamento de toda uma sociedade e
inclui o poder de pôr os preconceitos
racistas em ação. A maioria tem poder
sobre a minoria e pode, intencionalmente
ou não, praticar atos racistas. Assim,
o racismo implica ter o poder para
discriminar e prejudicar as pessoas
sob pretexto de ser diferentes."
Conselho da Juventude Britânico

 

INTOLERÂNCIA

É uma falta de respeito pelas práticas e
convicções do outro. Aparece quando alguém
recusa deixar outras pessoas agirem de maneira
diferente e terem opiniões diferentes.
A intolerância pode conduzir ao tratamento
injusto de certas pessoas em razão das
suas convicções religiosas, sexualidade ou
mesmo da sua maneira de vestir ou
de pentear. A intolerância não aceita
a diferença. Está na base do racismo,
do anti-semitismo,
da xenofobia e da discriminação
em geral. Freqüentemente, a intolerância
pode conduzir à violência.
UNIDOS para uma acção intercultural

 

IGUALDADE

É a característica do que é igual.
O que significa que nenhuma
pessoa é mais importante que outra,
quaisquer que sejam os seus pais
e a sua condição social.
Naturalmente, as pessoas não
têm os mesmos interesses e
as mesmas capacidades,
nem estilos de vida idênticos.
Conseqüentemente,
a igualdade entre as pessoas
significa que todos têm os mesmos
direitos e as mesmas oportunidades.
No domínio da educação e do trabalho,
devem dispor de oportunidades iguais,
apenas dependentes dos seus esforços.
A igualdade só se tornará
uma realidade quando todos tiverem,
em termos idênticos, acesso
ao alojamento, à segurança social,
aos direitos cívicos e à cidadania.
UNIDOS para uma acção intercultural

 

INTELECTUALISMO

Consiste em pensar que nós no enriquecemos
através do conhecimento de outras culturas e dos
contactos que temos com elas e que
desenvolvemos a nossa personalidade
ao encontrá-las. As pessoas
diferentes deveriam poder viver
juntas apesar de terem culturas diferentes.
O interculturalismo é a aceitação e o
respeito pelas diferenças. Crer no
interculturalismo é crer que se
pode aprender e enriquecer
através do encontro com outras culturas.
UNIDOS para uma acção intercultural

 

Existem etapas que conduzem
à discriminação, à violência e mesmo
à chamada purificação étnica e ao genocídio,
são elas:

 

CATEGORIZAR

Fazer generalidades e dividir as nossas
experiências em categorias de modo
a facilitar a nossa maneira de gerir
o mundo à nossa volta. Divide-se e
rotula-se as pessoas e os grupos.

 

ESTEREOTIPAR

Quando se rotulam as pessoas,
é tentador fazer-se uso de estereótipos.
Os estereótipos são juízos de valor com base
em informação insuficiente.
Há estereótipos positivos e negativos,
mas acreditar num estereótipo negativo
e exacerbá-lo pode tornar-se perigoso
e pode conduzir ao...

 

PRECONCEITO

Composto por idéias criadas num leque
de emoções e, de fatos insuficientes.
Um preconceito é freqüentemente
constituído sem qualquer fundamento e,
no entanto, é aceito sem sem ser
questionado. Os preconceitos
podem levar a comportamentos hostis.
As reações a seguir derivam do preconceito:

 

EVITAR

Evitar o grupo, não lhe dirigir a palavra,
não o querer encontrar.

 

ABUSO VERBAL 

Falar negativamente do grupo e ao grupo.

 

DISCRIMINAÇÃO

O preconceito é uma atitude,
a discriminação é um comportamento 
de desprezo ao grupo, tratar mal,
o boicotar, e até mesmo o excluir.

 

ABUSO VIOLENTO

Gozando, importunando, ameaçando, assediando
ou prejudicando o patrimônio do grupo.

 

ELIMINAÇÃO

Isolando, banindo, matando, linchando,
procedendo ao genocídio ou à purificação étnica.

CSV Media (UK)
manual para grupos de jovens
que trabalham em iniciativas antidiscriminatórias
nos meios de comunicação social

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MACUNAÍMA: cultura x civilização; preguiça x trabalho  (CONCEITOS) escrito em domingo 30 março 2008 17:55

Capa do filme em DVD Macunaíma, escrita em polonês.
O filme que expressa a cultura brasileira sendo exibido na Polônia.
Imagem capturada so site: www.dvd.gildia.pl/_vp_filmy/macunaima
 

 

BRASILIDADES

 

Blog de turma : imagens nossas, MACUNAÍMA: cultura x civilização; preguiça x trabalho1
Ilustração de Pedro Nava para
edição de "Macunaíma" de Mário de Andrade

 

Artigo de Cesar Augusto Casella, O Falso Embate Entre
o Imperador do Mato e o Regatão Pietro Pietra
.

Disponível em: http://www.unicamp.br/iel/site/alunos/publicacoes/textos/f00001.htm

 

  Blog de turma : imagens nossas, MACUNAÍMA: cultura x civilização; preguiça x trabalho2
Tarcila do Amaral, Batizado de Maunaíma, 1958.

 

Cultura X Civilização

 

A cultura, nos explica Camara Cascudo em “Civilização e Cultura”, tem originalmente um sentido de particular, de esforço concentrado para uma finalidade determinada, como quando sinônimo de lavoura ou quando sinônimo de letrado por exemplo. Com o advento da concepção intelectualizante alemã de ‘Kultur’, cultura pode ser encarada como um repertório, uma forma de acumular as soluções aprendidas, as idéias pensadas, as normas estabelecidas, as doutrinas e os hábitos sedimentados pelas gerações passadas. Isto permite situar a cultura fora das regras comparativas. “Uma cultura vive por sua suficiência”, escreve Camara Cascudo, “a diferenciação dos níveis não devia estabelecer o critério de inferioridade, e sim da valorização local de cada complexo no plano de sua utilidade relativa aos possuidores e não aos observadores estranhos, portadores e defensores de outras culturas”. A importância de uma cultura não se dá em relação a outra, mas em relação a ela mesma.

A concepção de cidadão, civilidade, civilização, vem da idéia de convívio, da aproximação das relações humanas, da união de esforços para um bem duradouro e comum aos seus praticantes. A noção de civilização está impregnada de uma força vaga, espiritual, ampla, que é a totalidade, a realização permanente e comum dos homens. Comparada ao princípio da gravidade, uma força que mantém a unidade orientada e em movimento.

Camara Cascudo identifica o início da oposição entre cultura e civilização quando a utilização política, ou instrumento de coalisão, de ‘Kultur’ pelos alemães desde a luta de unificação até o nazismo. Inclusive há na Alemanha a separação entre a ação cultural do estrangeiro, a Kulturarbeit im Ausland, e a ação cultural de uso interno, o Bidungssystem, onde está a educação. Há então dois conceitos para cultura, ‘Kultur’ e ‘Bildung’ (“A idéia de Cultura” – Hell, Victor). O termo, então, se cacifou o suficiente para desejar o lugar antes ocupado pela noção de civilização, inclusive porque ganhou grande impulso e força nos Estados Unidos, que puderam utilizá-lo com proveito. Do lado da defesa do termo civilização, ficamos com a Inglaterra, Oxford e Cambridge, e a França. “Quando Spengler escreve ‘alta cultura’, Arnold J. Toynbee diz ‘civilização’ ” , escreve Cascudo, “cultura naturalmente não é sinônimo de civilização. Cultura religiosa, cultura artística, cultura filosófica, cultura jurídica, não é religião, arte, filosofia, direito. É o exercício de sua produção, amplitude do equipamento, melhoria, aperfeiçoamento, profundeza de sua aparelhagem”.

 

Preguiça X Trabalho

Blog de turma : imagens nossas, MACUNAÍMA: cultura x civilização; preguiça x trabalho3
Grande Otelo como Macunaíma no cinema

A preguiça é uma espécie de índice de brasilidade. Bordão recorrente em ‘Macunaíma’, Mário de Andrade faz do “Ai! que preguiça!...” do seu herói quase um hino. Dando-se o nome que quiser a esta preguiça, ócio criador, vagabundagem, jeitinho, ela está presente no nosso imaginário e no nosso dia a dia, e há consenso de que é causada pelos aspectos tropicais do nosso Brasil, o sol, o calor, a beleza natural da paisagem, a fauna e flora riquíssimas, etc, etc, etc... Somos então constituídos por esta característica, a preguiça, em virtude da posição geográfica e dos fatores climáticos a que estamos submetidos, e ao mesmo tempo somos dirigidos por esta característica, tornando-nos relapsos, manhosos, espertos. Além da preguiça, podemos aferir outras característica a Macunaíma que estão presentes no imaginário brasileiro e de alguma forma também na nossa realidade, tais como a sexualidade, para dizer o mínimo: latente, o sincretismo religioso e o complexo de inferioridade perante as grandes nações do mundo, modernamente conhecidas como ‘o primeiro mundo’.


Herder faz em seus escritos uma apologia das raízes de uma nação, dizendo que são nações fortes as que criam fortes com seus fatores de nascimento, que eles determinam e guiam a força de uma nação. “Se, portanto, a formação de um reino depende primordialmente do tempo e do lugar em que nasce, das partes que o compõem e das circunstâncias exteriores que o rodearam, vemos então que em grande parte o destino deste reino depende destes fatores”. Patrick Gardiner em “Teorias da História”  diz que “o pensamento de Herder está no seu todo impregnado na convicção de que a característica mais marcante da História é a variedade e a individualidade apresentada pelas diferentes nações”. Assim chegamos à dimensão da importância das raízes, e então podemos enxergar no livro de Mário de Andrade uma preocupação em representar esta possibilidade de ligação entre nação e natureza, com um herói que nomeia as máquinas de São Paulo com seu vocabulário de deuses e animais da Amazônia, que faz de bagos de cacau contos de réis. É claro o intuito de Mário em discutir estas raízes, um interesse em aprofundá-las, via folclore e lendas, em trazer novas noções de Brasil para seus leitores. Talvez acreditando que se estabelecêssemos fortes vínculos com nossa verdadeira formação, viríamos então a nos tornar uma forte nação.


E como opor preguiça ao trabalho? Usando Spengler e a estrutura pela qual a natureza, o trabalho rural onde está inserido a espécie de preguiça cabocla de que falamos, é a cultura, o nascimento de uma nação, uma nação que tenha importância, que constitua história no entender do autor. Nesta mesma estrutura temos a técnica como desenvolvimento, afastamento do rural, para chegarmos à maturidade, à civilização, à cidade, à indústria e ao exemplo mais bem  acabado deste sistema, a máquina. Ora, a máquina é puro trabalho, exige o esgotamento do homem no esforço de trabalhar, exige o operário, o trabalhador. E então podemos retomar a discussão dos laços entre cultura e civilização. Spengler anuncia a morte, a desintegração de toda cultura que atinge a forma de civilização. Após a maturação só resta o declínio, a decadência. Petrifica-se, como a São Paulo que tornou-se um bicho preguiça todinho de pedra. Camara Cascudo escreve que Spengler acredita que “a única justificativa da vida estaria no desenvolvimento. Nunca no estado de maturidade, indispensável à propagação”, e critica, “razão tem Sorokin quando afirma que nenhuma grande civilização morreu inteiramente, como Spengler declara. (...) O ciclo histórico não é  serpente mordendo a cauda”.

 

Macunaíma X Venceslau

Pietro Pietra

 

Blog de turma : imagens nossas, MACUNAÍMA: cultura x civilização; preguiça x trabalho4
Davis Lisboa, Hybrid-Macunaíma, 2007, Acrílico y óleo sobre lienzo, 130 x 130 cm


A disputa entre cultura e civilização se cristaliza para Mário de Andrade na disputa entre Macunaíma e o regatão peruano Venceslau Pietro Pietra, que representaria alegoricamente a discussão a qual Mário quer chegar. Ou seja, a verdadeira oposição da rapsódia não se esgota no combate Macunaíma versus Pietro Pietra, um italiano que representa a nova face industrial, não é o embate entre o santo ócio contra o monstro da máquina, mas é sim o embate entre a cultura brasileira e a civilização européia.


Mário, seguindo a vertente de Spengler, faz do conflito uma possibilidade do Brasil sair da cultura e começar a caminhar em direção a uma civilização, a civilização do próximo milênio. Para isso, faz seu herói perder em suas aventuras seus referenciais de cultura, seu domínio sobre a natureza, seu séquito de jandaias, araras vermelhas, tuins, periquitos papagaios, o faz perder o apoio e a simpatia de Vei, a Sol. Macunaíma passeia o livro todo pelo arcabouço de lendas e do folclore brasileiro, tornando-se um embaixador deste arcabouço. A sua destituição representa claramente o fim de um período. A sua transformação na constelação da Ursa Maior representa claramente um rito de passagem, com um formato indígena. O que se discute são as vias para o Brasil, de onde viemos, sobre o que estamos sedimentados, constituir uma civilização que seja necessariamente diversa de já constituída pela européia, ou o eterno presente ameaçador de Spengler. A preocupação freqüente com as saúvas e a saúde, as críticas aos italianos, aos parnasianos e seu modo de representação poética, são demonstrações no livro desta procura pelo caminho do país.


A ironia, o sarcasmo, a realidade fantasiosa que permeiam as aventuras de Macunaíma dão força ao projeto, moderno mais que modernista, de Mário de Andrade de repensar o Brasil, e tornam a leitura de vital importância nos dias de hoje, neste final de século brasileiro onde é preciso repensar tantas coisas, culturais e principalmente políticas. Mas,  esta é para mim uma ressalva neste viés de embate cultura/civilização, o posicionamento de Mário é spengleriano, acreditando na substituição da cultura pela civilização. Prefiro comungar com o ideário de que estes dois conceitos mais se complementam do que se substituem, com a cultura fazendo parte da civilização, alavancando o conceito de civilização, sendo uma espécie de espelho da nação.

 

Bibliografia

 

Andrade, Mário de. Macunaíma, o herói sem nenhum caráter. Belo Horizonte: Itatiaia. 1985.

Bosi, Alfredo. Pré-modernismo e Modernismo. in: História Concisa da Literatura Brasileira. São Paulo: Cultrix, s/d.

Cascudo, Luis da Camara. Civilização e Cultura. Belo Horizonte: Itatiaia 1983.

Gardiner, Patrick. Teorias da História. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1984.

Hell, Victor. A Idéia de Cultura. São Paulo: Martins Fontes, 1989.

Lopez, Telê Porto Ancona. Mário de Andrade: ramais e caminho. São Paulo: Duas Cidades, 1972.

Rocha, Filipe. Teorias Sobre a História. Braga: Faculdade de Filosofia, 1982.

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LEIA TAMBÉM

MÁRIO DE ANDRADE: por ele mesmo, cronologia e bibliografia
A GRAMÁTICA DE MÁRIO DE ANDRADE: Fale língua brasileira
UM POUCO DE MÁRIO DE ANDRADE
MACUNAÍMA: uma valorização da cultura nacional

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 Colaboração:
Consultoria Acadêmica

Blog de turma : imagens nossas, 1

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QUO USQUE TANDEM ABUTERE, CATILINA, PATIENTIA NOSTRA?  (CONCEITOS) escrito em domingo 19 outubro 2008 06:11

 

PARA PENSAR



Faz muito tempo que a cada clique no controle remoto da minha televisão, que acaba exibindo, no Canal Brasil, um daqueles filmes "inassistíveis", que poderiam ser chamados de clássicos do cinema brasileiros, eu páro e penso como deve ser difícil ser atriz no Brasil e ter que se sujeitar a bestialidade da elite dominante da comunicação neste País. Seja na área de propaganda, tv, ou na "arte" do cinema. Sem deixar de mencionar imagem da mulher brasileira que atrai, lá fora, o turismo sexual e outras idéias ruins.

Hoje, lendo o desabafo do Pedro Cardoso, me senti aliviado. Foi como um grito de "basta"! O grito dele, como ator não quer se submeter a banalidade. O grito meu, como expectador, que não quer mais ser tratado como idiota.

Não tratem mais as nossas atrizes como prostitutas!
Não nos tratem como expectadores doentios ou bestializados!

Nem pornô - Nem far west

Chega!


Tem muito para se criar
Tá na hora de começar a fazer coisas legais.

Obrigado,
PEDRO CARDOSO!


Segue o texto que o ator Pedro Cardoso leu na
primeira exibição do filme
"Todo mundo tem problemas sexuais"
no cinema Odeon no dia 08 de outubro de 2008.

Senhoras e senhores, nesta primeira exibição pública de "Todo Mundo Têm Problemas Sexuais", eu gostaria de, na qualidade de ator e produtor do filme, compartilhar com vocês algumas preocupações a respeito da pornografia que percebo presente na quase totalidade da produção audiovisual mundial, e na brasileira especialmente; e como esta invasão está aviltando a profissão de ator e de atriz; e gostaria, de situar o filme no contexto desta questão.


A meu ver, as empresas que exploram a comunicação em massa (e as que dela fazem uso para divulgar seus produtos) apossaram-se de uma certa liberdade de costumes, obtida por parte da população nos anos 60 e 70, e fazem hoje um uso pervertido dessa liberdade.

Uma maior naturalidade quanto a nudez, que àquela época, fora uma conquista contra os excessos da repressão a vida sexual de então, tornou-se agora, na mão dessas empresas, apenas um modo de atrair público.


Com a conivência de escritores e diretores (alguns deles, em algum momento, verdadeiros artistas; outros, nunca!) temos visto cenas de nudez, ou semi-nudez, ou roupas sensuais, ou diálogos maliciosos, ou beijos intermináveis, em quase todos os minutos da programaçãos das televisões e nos filmes para cinema, sem falar na publicidade.

A constância com que essas cenas aparecem tem colocado em permanente exposição a nudez dos atores, especialmente das mulheres; é sobre as atrizes que a opressão da pornografia é exercida com maior violência, uma vez que ela atende, na imensa maioria das vezes, a um anseio sexual do homem.


É raro o convite de trabalho, seja filme ou novela ou programa de humor, que não inclua cenas desse tipo para o elenco feminino.

No filme que assistiremos em breve, apesar do nome que tem, não há cenas de nudez. Embora o drama de todas as histórias aconteça nas imediações de atos sexuais, este filme não tem cenas de nudez. Esta foi uma sugestão minha que foi muito bem recebida pelo diretor, Domingos Oliveira, e por ele endossada.

A minha tese é de que a nudez impede a comédia, e mesmo o próprio ato de representar. Quando estou nu sou sempre eu a estar nu, e nunca o personagem. Quando vemos alguém nu vemos sempre a pessoa que está nua.

O personagem é justamente algo que o ator veste. Ao despir-se do figurino, o ator despe-se também do personagem, e resta ele mesmo, apenas ele e sua nudez pessoal e intransferível. Diante da irredutível realidade da nudez de seu corpo, o ator não consegue produzir a ilusão do personagem.

O ator ou atriz que for representar um personagem que estiver nu, terá que vestir um figurino de nu (seja lá o que isto quer dizer!).


Fiz algumas poucas cenas de nudez muito parcial e eu me senti sempre muito mal, porque, despido, devia representar ainda, embora já sem personagem nenhum. Este absurdo causa grande desconforto ao ator ou a atriz porque nos obriga a mentir, e mentir é o ato mais distante possível da arte de representar.

Neste filme de hoje a vida íntima dos personagem é o ambiente onde seus dramas acontecem, apenas isso. Não há intenção de provocar excitação sexual, como há na pornografia. Acredito que a dramaturgia, que é arte de contar histórias, busca oferecer ao público um pensamento, e não uma sensação.


Esta pertence a vida. É na vida que sentimos frio e fome; na arte, falamos do frio e da fome, se possível com alguma inspiração. A apresentação da nudez, busca produzir uma sensação erótica e não sugerir um pensamento sobre o erotismo.

Neste filme os atores estão vestidos para que os personagens possam estar desnudos. O estímulo ao anseio sexual está esquecido para que o pensamento possa ser provocado.

Fazer o filme assim é uma decisão política para mim. A pornografia está tão dissimulada em nossa cultura, que já não a reconhecemos como tal.


Hoje, qualquer diretor ou autor de novela ou programa de televisão (medíocre ou não, mas medíocre também!), ou qualquer cineasta de primeiro filme, se acha no direito de determinar que uma atriz deve ficar pelada em tal cena, ou sumariamente vestida (já vem escrito no texto!), ou levando um malho, ou beijando calorosamente dez minutos um ator que ela acabou de conhecer (e já aconteceu de ser apresentado um prostituto para fazer uma cena de beijo com uma colega nossa).

E depois, é frequente que esses cineastas de primeiro filme exibam para seus amigos, em sessões privê, as cenas ousadas que conseguiram arrancar de determinada atriz. (E quanto mais séria e profissional for a colega, maior terá sido o feito de tal cineasta de merda.)

E quando hesitamos diante de um diretor que nos pede a nudez, ele fica bravo, faz má-criação, como uma criança mimada, porque se considera no direito a ela. E se a atriz for jovem, é bem capaz que ainda ouça uns desaforos.


Até quando, nós atores, ficaremos atendendo ao voyeurismo e a desfunção sexual de diretores e roteiristas, que instigados pelos apelos do mercado, ou por si mesmos, nos impingem estas cenas macabras?

Até quando, nós atores, e sobretudo, as atrizes, serão constrangidas a ficarem nuas em estúdios ou praias onde homens em profusão se aglomeram para dar uma olhadinha?


Ou, pior: quando dissimulam o seu apetite sexual num respeito cerimonioso; respeito esse que é pura tática para não espantar a presa, a oferenda que vai ser imolada no altar do tesão alheio dos impotentes!

Um diretor não deveria pedir a uma atriz que faça algo que ele não pediria a uma filha sua. Assim como um homem não deve fazer a uma mulher algo que ele não quer que seja feito a uma filha sua. Eu não conheço outra dignidade além dessa.


Se essa gente quer nudez, que fiquem nus eles mesmos, e então conhecerão o uso pornográfico de suas próprias imagens e saberão onde dói! Além do que, seria uma doce vingança para nós conhecer a nudez dessas belíssimas pessoas, geralmente fora do peso!

Quem quer a nudez do outro, é porque tem problemas com a sua própria.


Eu ambiciono o dia em que os atores e as atrizes saibam que podem e devem dizer "não" a cenas onde não se sintam confortáveis. O dia em que saibamos que não temos obrigação de tirar a roupa, que esta não é uma exigência do ofício de ator e sim da indústria pornográfica.

O dia em que não nos deixaremos convencer por patéticos argumentos do tipo: "é fundamental para a história", "a luz vai ser linda", "você vai estar protegida", "é só de lado", "a gente vai negociar tudo", "se você não gostar, depois eu tiro na edição", e o pior argumento de todos, "vai ser de bom gosto". E a conclusão de sempre "confie em mim". E há também um argumento criminoso: "O programa é popular. Tem que ter calcinha e sutiã." Como se a gente brasileira fosse assim medíocre.


Claro que somos imperfeitos, pornografia talvez sempre haverá. Mas que ela não seja dominante e absoluta. E, principalmente, que ela não seja irreconhecível, disfarçada de obra dramatúrgica, de entretenimento inocente. Isto é uma perversão de consequências trágicas porque rouba à arte o seu lugar.

E a arte, mesmo quando seja entretenimento inocente, é fundamental para a nossa saúde coletiva. E se a pornografia também o for, que ela o seja, mas como pornografia, e não querendo se passar pela nossa vida de todo dia, no ar na novela das sete, ou mesmo das seis, como se aquelas situações fossem a coisa mais normal do mundo.


Criam-se cenas de estupro, de banho, de exibicionismo, de adultério, ambientadas em boates, prostíbulos, etc, tudo apenas para proporcionar cenas de nudez.

A quem diga que a nudez destas cenas é fundamental para a história, eu sugiro que assita a pelo menos 2 filmes de François Truffaut, "Le Dernier Métro" e "La Femme à Coté" e aprendam alguma coisa sobre a narrativa da intimidade de personagens sem haver exposição da intimidade dos atores.

Um bom ator pode surgir em qualquer lugar, na escola, na rua ou mesmo no deserto hipócrita de um reality show.

O fundamental aqui é fazer uma distinção, não quanto ao caráter de cada pessoa individualmente, mas quanto a natureza de cada coisa. O que é pornografia é pornografia, o que é arte é arte.


Que os pornógrafos sejam os pornógrafos, e que os atores e atrizes sejam os atores e as atrizes. Hoje está tudo confuso e sendo tomado pelo mesmo. E nós, atores, que deveríamos estar servindo a dramaturgia de uma história, temos sido, constantemente, o veículo da pornografia, com maior ou menor consciência do que estamos fazendo.

Mas é bom lembrar que nunca é o ator que escreve para si mesmo a cena em que ele ficará nu. Nunca é uma escolha do ator. É sempre a escolha de um roterista e de um diretor e, certamente, do produtor.

Eu ambiciono o dia em que nós não teremos medo do You Tube ou das sessões nostalgia dos canais brasil da vida, e suas retrospectivas do nosso cinema; o dia em que não teremos medo de os nossos filhos terem que responder perguntas contrangedoras a colegas na escola.

Não é necessário ser assim. Os filhos de grandes atrizes, de um passado ainda muito recente, não passaram por esse constrangimento. Não há porque nós aceitarmos tamanho aviltamento. Saibamos dizer "não"! Nada acontecerá.


Claro que tudo isso nos é vendido como algo inofensivo, apenas uma crônica dos costumes do nosso tempo. Mas esse é o grande álibi para a disseminação da pornografia através do nosso trabalho. Há muito tempo estamos passando por esse contrangimento e fingimos que não.

Temos mil desculpas esfarrapadas para nos enganar. Mas a verdade é que temos medo de ficar sem emprego. A pornografia é uma mercadoria muito fácil de vender, mas eu acredito que o público, por fim, a rejeita e se sente desrespeitado. Eu escrevi para televisão brasileira, em companhia de outros colegas, e para o teatro, obras que não tinham pornografia e que fizeram sucesso.

Participo há oito anos da Grande Família, onde, se alguma pornografia houver, é muito pouca. Digo se alguma houver, porque a pornografia tem tantos disfarces que nenhum de nós está livre de todo; então, faço eu mesmo a ressalva.

Onde há pornografia, não há liberdade. Há alguém ganhando dinheiro e alguém sofrendo para produzir o dinheiro que este outro está ganhando. Quem se vê submetido a cena pornográfica, sempre sofre, mesmo apesar de seus possíveis compromentimentos subjetivos a tal submissão.

O comprometimento eventual de alguns de nós, não legitima o ato agressivo de quem propõe a pornografia.


A quem se afobe em me acusar de exagerado, eu só peço que assista aos filmes recentes e a televisão. Está tudo lá. É só ter liberdade para ver.

A quem se afobe em me acusar de moralista, peço antes que procure conheçer o meu trabalho em teatro e que assista ao filme desta noite. Nele, assim como algumas vezes no teatro, tratei, junto com meus colegas, de assuntos bem distantes da uma moralidade puritana.

Quem for me acusar, tente primeiro perceber a diferença entre a liberdade para tratar de qualquer assunto e a intenção de usar qualquer assunto para difundir pornografia usando a liberdade de costumes para disfarçá-la de obra dramatúrgica.

Para que não digam que eu sou contra a nudez em si, dedico este texto a atriz Clarisse Niskier, que faz de sua nudez em "A Alma Imoral" um excelente instrumento para a narrativa do seu espetáculo e não um ato pornográfico.


Na televisão não há cena de nudez que eu me lembre de ter considerado justificada, mas no cinema há pelo menos uma: Leila Diniz vestindo a nudez de sua personagem no filme "Todas as Mulheres do Mundo", enquanto o personagem de Paulo José diz um belíssimo poema de Domingos Oliveira.

E para que não digam que estou assim trasntornado com este assunto porque agora estou namorando uma atriz, digo logo eu! De fato, nos dói mais a dor que dói em nós mesmos. Mas saibam que estas idéias, incômodos e preocupações já nos ocupavam, tanto a mim quanto a ela, muito antes do nosso encontro.

Agora, ver a mulher que eu amo ter que diariamente se defender no trabalho contra a pornografia reinante, tornou este assunto a primeira ordem do meu dia. Se antes era apenas por responsabilidade profissional que eu me opunha a pornografia, agora é também por amor.


Se alguém conhecer um motivo melhor do que este para lutar por uma causa, me diga, porque eu não conheço. E ainda afirmo: o meu afeto não me nubla o discernimento. Ao contrário, acredito que ele me deixe mais lúcido porque mais determinado.

E se ainda alguém quiser me acusar de mais alguma coisa, acho que dificilmente serão atores e muito menos atrizes. As acusações virão certamente daqueles que sempre permanecem vestidos nos estúdios de televisão e nos sets de filmagem ou nem saem das salas de reuniões.


Aqui nesse filme também não houve amestradores de ator. Esse assunto parece nada ter a ver com a pornografia, mas tem sim.

O haver agora no mercado esses amestradores de atores faz parte da desautorização do ator como autor do seu próprio trabalho. Quer dizer que nem o seu próprio trabalho é o ator que faz?!

Há alguém que o faz fazer como deve ser feito. Isso acontece, na minha opinião, porque os cineastas confundem sua própria perplexidade diante da dramaturgia (que, por vezes, eles desconhecem) com uma suposta incompetência do ator, e resolvem o problema chamando um amestrador de ator. (Melhor fariam se estudassem teatro.)

É nocivo para nós. Um ator desautorizado na autoria de seu próprio trabalho irá aceitar, com muito mais subserviência, a pornografia que lhe será exigida logo mais a frente.


O que está escondido sob esta prática é a desautorização do ator como líder da arte de representar e senhor do seu ofício. Lembremos-nos de que só há realidade fílmica ou televisiva, e certamente teatral, se um ator a faz existir! Sem o ator não há nada. Este é um poder que podem nos impedir de exercer, mas não nos podem tirar.

Espero que o filme que vamos assistir explique os meus sentimentos e idéias a repeito desse assunto melhor do que estas minhas palavras.

Vamos ao filme.

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