PARA PENSAR

Faz
muito tempo que a cada clique no controle remoto da minha
televisão, que acaba exibindo, no Canal Brasil, um daqueles filmes
"inassistíveis", que poderiam ser chamados de clássicos do cinema
brasileiros, eu páro e penso como deve ser difícil ser atriz no
Brasil e ter que se sujeitar a bestialidade da elite dominante da
comunicação neste País. Seja na área de propaganda, tv, ou na
"arte" do cinema. Sem deixar de mencionar imagem da mulher
brasileira que atrai, lá fora, o turismo sexual e outras idéias
ruins.
Hoje, lendo o desabafo do Pedro Cardoso, me senti
aliviado. Foi como um grito de "basta"! O grito dele, como ator não
quer se submeter a banalidade. O grito meu, como expectador, que
não quer mais ser tratado como idiota.
Não tratem mais as
nossas atrizes como prostitutas!
Não nos tratem como expectadores doentios ou
bestializados!
Nem pornô - Nem far west
Chega!

Tem muito para se
criar
Tá na hora de começar a fazer coisas
legais.
Obrigado,
PEDRO CARDOSO!

Segue o texto que o ator Pedro Cardoso leu
na
primeira exibição do filme
"Todo mundo tem problemas sexuais"
no cinema Odeon no dia 08 de outubro de
2008.
Senhoras e senhores, nesta primeira exibição pública de
"Todo Mundo Têm Problemas Sexuais", eu gostaria de, na qualidade de
ator e produtor do filme, compartilhar com vocês algumas
preocupações a respeito da pornografia que percebo presente na
quase totalidade da produção audiovisual mundial, e na brasileira
especialmente; e como esta invasão está aviltando a profissão de
ator e de atriz; e gostaria, de situar o filme no contexto desta
questão.

A
meu ver, as empresas que exploram a comunicação em massa (e as que
dela fazem uso para divulgar seus produtos) apossaram-se de uma
certa liberdade de costumes, obtida por parte da população nos anos
60 e 70, e fazem hoje um uso pervertido dessa
liberdade.
Uma
maior naturalidade quanto a nudez, que àquela época, fora uma
conquista contra os excessos da repressão a vida sexual de então,
tornou-se agora, na mão dessas empresas, apenas um modo de atrair
público.

Com
a conivência de escritores e diretores (alguns deles, em algum
momento, verdadeiros artistas; outros, nunca!) temos visto cenas de
nudez, ou semi-nudez, ou roupas sensuais, ou diálogos maliciosos,
ou beijos intermináveis, em quase todos os minutos da programaçãos
das televisões e nos filmes para cinema, sem falar na
publicidade.
A
constância com que essas cenas aparecem tem colocado em permanente
exposição a nudez dos atores, especialmente das mulheres; é sobre
as atrizes que a opressão da pornografia é exercida com maior
violência, uma vez que ela atende, na imensa maioria das vezes, a
um anseio sexual do homem.

É
raro o convite de trabalho, seja filme ou novela ou programa de
humor, que não inclua cenas desse tipo para o elenco
feminino.
No
filme que assistiremos em breve, apesar do nome que tem, não há
cenas de nudez. Embora o drama de todas as histórias aconteça nas
imediações de atos sexuais, este filme não tem cenas de nudez. Esta
foi uma sugestão minha que foi muito bem recebida pelo diretor,
Domingos Oliveira, e por ele endossada.
A
minha tese é de que a nudez impede a comédia, e mesmo o próprio ato
de representar. Quando estou nu sou sempre eu a estar nu, e nunca o
personagem. Quando vemos alguém nu vemos sempre a pessoa que está
nua.

O
personagem é justamente algo que o ator veste. Ao despir-se do
figurino, o ator despe-se também do personagem, e resta ele mesmo,
apenas ele e sua nudez pessoal e intransferível. Diante da
irredutível realidade da nudez de seu corpo, o ator não consegue
produzir a ilusão do personagem.
O
ator ou atriz que for representar um personagem que estiver nu,
terá que vestir um figurino de nu (seja lá o que isto quer
dizer!).

Fiz
algumas poucas cenas de nudez muito parcial e eu me senti sempre
muito mal, porque, despido, devia representar ainda, embora já sem
personagem nenhum. Este absurdo causa grande desconforto ao ator ou
a atriz porque nos obriga a mentir, e mentir é o ato mais distante
possível da arte de representar.
Neste filme de hoje a vida íntima dos personagem é o
ambiente onde seus dramas acontecem, apenas isso. Não há intenção
de provocar excitação sexual, como há na pornografia. Acredito que
a dramaturgia, que é arte de contar histórias, busca oferecer ao
público um pensamento, e não uma sensação.

Esta
pertence a vida. É na vida que sentimos frio e fome; na arte,
falamos do frio e da fome, se possível com alguma inspiração. A
apresentação da nudez, busca produzir uma sensação erótica e não
sugerir um pensamento sobre o erotismo.
Neste filme os atores estão vestidos para que os
personagens possam estar desnudos. O estímulo ao anseio sexual está
esquecido para que o pensamento possa ser
provocado.
Fazer o filme assim é uma decisão política para mim. A
pornografia está tão dissimulada em nossa cultura, que já não a
reconhecemos como tal.

Hoje, qualquer diretor ou autor de novela ou programa de
televisão (medíocre ou não, mas medíocre também!), ou qualquer
cineasta de primeiro filme, se acha no direito de determinar que
uma atriz deve ficar pelada em tal cena, ou sumariamente vestida
(já vem escrito no texto!), ou levando um malho, ou beijando
calorosamente dez minutos um ator que ela acabou de conhecer (e já
aconteceu de ser apresentado um prostituto para fazer uma cena de
beijo com uma colega nossa).
E
depois, é frequente que esses cineastas de primeiro filme exibam
para seus amigos, em sessões privê, as cenas ousadas que
conseguiram arrancar de determinada atriz. (E quanto mais séria e
profissional for a colega, maior terá sido o feito de tal cineasta
de merda.)
E
quando hesitamos diante de um diretor que nos pede a nudez, ele
fica bravo, faz má-criação, como uma criança mimada, porque se
considera no direito a ela. E se a atriz for jovem, é bem capaz que
ainda ouça uns desaforos.

Até
quando, nós atores, ficaremos atendendo ao voyeurismo e a desfunção
sexual de diretores e roteiristas, que instigados pelos apelos do
mercado, ou por si mesmos, nos impingem estas cenas
macabras?
Até
quando, nós atores, e sobretudo, as atrizes, serão constrangidas a
ficarem nuas em estúdios ou praias onde homens em profusão se
aglomeram para dar uma olhadinha?

Ou,
pior: quando dissimulam o seu apetite sexual num respeito
cerimonioso; respeito esse que é pura tática para não espantar a
presa, a oferenda que vai ser imolada no altar do tesão alheio dos
impotentes!
Um
diretor não deveria pedir a uma atriz que faça algo que ele não
pediria a uma filha sua. Assim como um homem não deve fazer a uma
mulher algo que ele não quer que seja feito a uma filha sua. Eu não
conheço outra dignidade além dessa.

Se
essa gente quer nudez, que fiquem nus eles mesmos, e então
conhecerão o uso pornográfico de suas próprias imagens e saberão
onde dói! Além do que, seria uma doce vingança para nós conhecer a
nudez dessas belíssimas pessoas, geralmente fora do
peso!
Quem
quer a nudez do outro, é porque tem problemas com a sua
própria.

Eu
ambiciono o dia em que os atores e as atrizes saibam que podem e
devem dizer "não" a cenas onde não se sintam confortáveis. O dia em
que saibamos que não temos obrigação de tirar a roupa, que esta não
é uma exigência do ofício de ator e sim da indústria
pornográfica.
O
dia em que não nos deixaremos convencer por patéticos argumentos do
tipo: "é fundamental para a história", "a luz vai ser linda", "você
vai estar protegida", "é só de lado", "a gente vai negociar tudo",
"se você não gostar, depois eu tiro na edição", e o pior argumento
de todos, "vai ser de bom gosto". E a conclusão de sempre "confie
em mim". E há também um argumento criminoso: "O programa é popular.
Tem que ter calcinha e sutiã." Como se a gente brasileira fosse
assim medíocre.

Claro que somos imperfeitos, pornografia talvez sempre
haverá. Mas que ela não seja dominante e absoluta. E,
principalmente, que ela não seja irreconhecível, disfarçada de obra
dramatúrgica, de entretenimento inocente. Isto é uma perversão de
consequências trágicas porque rouba à arte o seu lugar.
E a
arte, mesmo quando seja entretenimento inocente, é fundamental para
a nossa saúde coletiva. E se a pornografia também o for, que ela o
seja, mas como pornografia, e não querendo se passar pela nossa
vida de todo dia, no ar na novela das sete, ou mesmo das seis, como
se aquelas situações fossem a coisa mais normal do
mundo.

Criam-se cenas de estupro, de banho, de exibicionismo, de
adultério, ambientadas em boates, prostíbulos, etc, tudo apenas
para proporcionar cenas de nudez.
A
quem diga que a nudez destas cenas é fundamental para a história,
eu sugiro que assita a pelo menos 2 filmes de François Truffaut,
"Le Dernier Métro" e "La Femme à Coté" e aprendam alguma coisa
sobre a narrativa da intimidade de personagens sem haver exposição
da intimidade dos atores.
Um
bom ator pode surgir em qualquer lugar, na escola, na rua ou mesmo
no deserto hipócrita de um reality show.
O
fundamental aqui é fazer uma distinção, não quanto ao caráter de
cada pessoa individualmente, mas quanto a natureza de cada coisa. O
que é pornografia é pornografia, o que é arte é arte.

Que
os pornógrafos sejam os pornógrafos, e que os atores e atrizes
sejam os atores e as atrizes. Hoje está tudo confuso e sendo tomado
pelo mesmo. E nós, atores, que deveríamos estar servindo a
dramaturgia de uma história, temos sido, constantemente, o veículo
da pornografia, com maior ou menor consciência do que estamos
fazendo.
Mas
é bom lembrar que nunca é o ator que escreve para si mesmo a cena
em que ele ficará nu. Nunca é uma escolha do ator. É sempre a
escolha de um roterista e de um diretor e, certamente, do
produtor.
Eu
ambiciono o dia em que nós não teremos medo do You Tube ou das
sessões nostalgia dos canais brasil da vida, e suas retrospectivas
do nosso cinema; o dia em que não teremos medo de os nossos filhos
terem que responder perguntas contrangedoras a colegas na
escola.
Não
é necessário ser assim. Os filhos de grandes atrizes, de um passado
ainda muito recente, não passaram por esse constrangimento. Não há
porque nós aceitarmos tamanho aviltamento. Saibamos dizer "não"!
Nada acontecerá.

Claro que tudo isso nos é vendido como algo inofensivo,
apenas uma crônica dos costumes do nosso tempo. Mas esse é o grande
álibi para a disseminação da pornografia através do nosso trabalho.
Há muito tempo estamos passando por esse contrangimento e fingimos
que não.
Temos mil desculpas esfarrapadas para nos enganar. Mas a
verdade é que temos medo de ficar sem emprego. A pornografia é uma
mercadoria muito fácil de vender, mas eu acredito que o público,
por fim, a rejeita e se sente desrespeitado. Eu escrevi para
televisão brasileira, em companhia de outros colegas, e para o
teatro, obras que não tinham pornografia e que fizeram
sucesso.
Participo há oito anos da Grande Família, onde, se alguma
pornografia houver, é muito pouca. Digo se alguma houver, porque a
pornografia tem tantos disfarces que nenhum de nós está livre de
todo; então, faço eu mesmo a ressalva.
Onde
há pornografia, não há liberdade. Há alguém ganhando dinheiro e
alguém sofrendo para produzir o dinheiro que este outro está
ganhando. Quem se vê submetido a cena pornográfica, sempre sofre,
mesmo apesar de seus possíveis compromentimentos subjetivos a tal
submissão.
O
comprometimento eventual de alguns de nós, não legitima o ato
agressivo de quem propõe a pornografia.

A
quem se afobe em me acusar de exagerado, eu só peço que assista aos
filmes recentes e a televisão. Está tudo lá. É só ter liberdade
para ver.
A
quem se afobe em me acusar de moralista, peço antes que procure
conheçer o meu trabalho em teatro e que assista ao filme desta
noite. Nele, assim como algumas vezes no teatro, tratei, junto com
meus colegas, de assuntos bem distantes da uma moralidade
puritana.
Quem
for me acusar, tente primeiro perceber a diferença entre a
liberdade para tratar de qualquer assunto e a intenção de usar
qualquer assunto para difundir pornografia usando a liberdade de
costumes para disfarçá-la de obra dramatúrgica.
Para
que não digam que eu sou contra a nudez em si, dedico este texto a
atriz Clarisse Niskier, que faz de sua nudez em "A Alma Imoral" um
excelente instrumento para a narrativa do seu espetáculo e não um
ato pornográfico.

Na
televisão não há cena de nudez que eu me lembre de ter considerado
justificada, mas no cinema há pelo menos uma: Leila Diniz vestindo
a nudez de sua personagem no filme "Todas as Mulheres do Mundo",
enquanto o personagem de Paulo José diz um belíssimo poema de
Domingos Oliveira.
E
para que não digam que estou assim trasntornado com este assunto
porque agora estou namorando uma atriz, digo logo eu! De fato, nos
dói mais a dor que dói em nós mesmos. Mas saibam que estas idéias,
incômodos e preocupações já nos ocupavam, tanto a mim quanto a ela,
muito antes do nosso encontro.
Agora, ver a mulher que eu amo ter que diariamente se
defender no trabalho contra a pornografia reinante, tornou este
assunto a primeira ordem do meu dia. Se antes era apenas por
responsabilidade profissional que eu me opunha a pornografia, agora
é também por amor.

Se
alguém conhecer um motivo melhor do que este para lutar por uma
causa, me diga, porque eu não conheço. E ainda afirmo: o meu afeto
não me nubla o discernimento. Ao contrário, acredito que ele me
deixe mais lúcido porque mais determinado.
E se
ainda alguém quiser me acusar de mais alguma coisa, acho que
dificilmente serão atores e muito menos atrizes. As acusações virão
certamente daqueles que sempre permanecem vestidos nos estúdios de
televisão e nos sets de filmagem ou nem saem das salas de
reuniões.

Aqui
nesse filme também não houve amestradores de ator. Esse assunto
parece nada ter a ver com a pornografia, mas tem sim.
O
haver agora no mercado esses amestradores de atores faz parte da
desautorização do ator como autor do seu próprio trabalho. Quer
dizer que nem o seu próprio trabalho é o ator que faz?!
Há
alguém que o faz fazer como deve ser feito. Isso acontece, na minha
opinião, porque os cineastas confundem sua própria perplexidade
diante da dramaturgia (que, por vezes, eles desconhecem) com uma
suposta incompetência do ator, e resolvem o problema chamando um
amestrador de ator. (Melhor fariam se estudassem
teatro.)
É
nocivo para nós. Um ator desautorizado na autoria de seu próprio
trabalho irá aceitar, com muito mais subserviência, a pornografia
que lhe será exigida logo mais a frente.

O
que está escondido sob esta prática é a desautorização do ator como
líder da arte de representar e senhor do seu ofício. Lembremos-nos
de que só há realidade fílmica ou televisiva, e certamente teatral,
se um ator a faz existir! Sem o ator não há nada. Este é um poder
que podem nos impedir de exercer, mas não nos podem
tirar.
Espero que o filme que vamos assistir explique os meus
sentimentos e idéias a repeito desse assunto melhor do que estas
minhas palavras.
Vamos ao filme.
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Conheça o Blog do Pedro Cardoso, onde está publicado o
manifesto, e leve seu incentivo!
http://todomundotemproblemassexuais.zip.net
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