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(O ESTADO DE SÃO
PAULO. Instituições em frangalhos.
1998)
14 de dezembro de
1964
No dia 14,
sábado, atingiram o Jornal da Tarde,
irmão do Estado. Policiais federais postaram-se à
porta do JT com ordens para impedir a saída da
edição do dia, que trazia a manchete O Brasil entra
no 5.º Ato, com fotos de tanques no centro da
cidade.
Impedido de exprimir-se livremente, Julio de Mesquita
Filho preferiu o silêncio. Não escreveu mais nenhuma
linha. Morreu poucos meses depois, desgostoso com os rumos da
política no País. “Estou convencido de que o
triunfo da linha-dura dos militares sobre os ideais originais do
movimento de 1964 produziu tal amargura e frustração
que terminariam levando-o à morte”, escreveu anos mais
tarde seu filho, Ruy Mesquita, atual diretor-responsável do
Estado, ao fazer um balanço do que ocorreu em
1968.
Censores
Foi
dessa maneira brutal que o AI-5 se abateu sobre o jornal Estado e o
JT. A invasão e apreensão dos jornais foi a primeira
de uma série de violências que seriam cometidas contra
as duas publicações, à sombra do ato
institucional.
A
censura foi a parte mais visível e constante da
violência. Os censores enviados para o jornal na noite do
AI-5 permaneceram durante algumas semanas e depois o controle
voltou a ser feito por meio de telefonemas e bilhetes. Quando a
situação política se tornava mais tensa, eram
enviados pessoalmente. Foi assim até 1972, quando chegaram
com força e, dessa vez, para ficar. A presença dos
censores na oficina iria durar 863 dias.
O
Estado foi o único grande jornal do País a ser
censurado diretamente na redação, por recusar-se a
praticar a autocensura. Seus repórteres e redatores, assim
como os do JT, eram orientados para ignorar a presença dos
censores e continuavam preparando normalmente o material para cada
edição. O trabalho de censura devia caber aos
policiais do regime. E como eles tiveram trabalho: a quantidade de
textos que vetaram no Estado em pouco mais de dois anos daria para
preencher um livro de 600 páginas.
A
lista de assuntos sujeitos à tesoura era vasta e
incluía qualquer fato que os censores consideravam
passível de comprometer a imagem do regime. Em 1973 o JT foi
impedido de publicar nota sobre uma partida de carne congelada
suspeita, importada do Paraguai. Grande parte do noticiário
produzida pelo Estado sobre a epidemia de meningite que castigou
São Paulo em 1974 também não
passou.
O
seqüestro, estupro e assassinato da menina Ana Lídia,
de 7 anos, ocorrido em Brasília no dia 11 de setembro de
1973 foi outro assunto censurado. Havia suspeitas, nunca
confirmadas, de que um dos autores do crime fosse o filho do
ministro da Justiça do governo Médici, o professor
Alfredo Buzaid, que controlava a censura.
Em 223
ocasiões, o Estado foi proibido de publicar notícias
relacionadas com prisões arbitrárias, torturas,
desaparecimentos e mortes de opositores do regime. Um total de 40
editoriais foram decepados. Um deles, escrito no dia 21 de setembro
de 1969 por Julio de Mesquita Neto, que substituíra o pai no
comando do jornal, relembrava o AI-5, com título
Instituições em Frangalhos (o mesmo do editorial do
pai, no ano anterior), e afirmava: “O Ato surgiu como uma
solução de desespero para manter uma frágil
fachada.” Exatamente como ocorrera em 1968, a polícia
invadiu o jornal quando a edição estava sendo
impressa.
Surpresa
Os
estragos causados pelos censores foram tantos que certa vez, no
governo Médici, ao depor num inquérito
policial-militar, o diretor Julio de Mesquita Neto causou surpresa
ao dizer que ele não era mais o responsável pelo
jornal. O diálogo ocorreu no início do
interrogatório:
Pergunta – O senhor é o
diretor-responsável do jornal O Estado?
Resposta – Não! (Houve uma certa surpresa
entre os militares.) Pergunta – O senhor é o
diretor-responsável do jornal? Resposta – Não! Pergunta – Então quem
é?
Resposta – O ministro da Justiça, professor
Alfredo Buzaid, que todas as noites tem um censor na tipografia do
jornal.
Além da censura, a história dos dois
jornais durante os anos do AI-5 foi marcada por vários atos
de violência. Em abril de 1972, o chefe da sucursal do Estado
em Recife, Carlos Garcia, foi preso por policiais e torturado.
Queriam que assinasse uma falsa confissão, afirmando que
havia uma célula comunista na
redação.
O
Estado e o JT nunca deixaram de reagir ao arbítrio. Para
furar a parede de silêncio que a censura insistir em impor, a
rede de repórteres, correspondentes e sucursais foi
ampliada.
Criou-se uma formidável máquina de
notícias, capaz de cobrir e discutir os grandes temas
institucionais do País. [...]
Camões e
receitas
Para
denunciar aos leitores a presença dos censores nas oficinas,
o Estado não substituía os textos vetados. Os buracos
causados pelas tesouras dos censores eram preenchidos com trechos
do épico Os Lusíadas, de Luís de
Camões.
Os
versos do bardo português foram utilizados com tanta
freqüência que se transformaram num símbolo de
resistência. Certa vez, durante uma entrevista no Rio, o
deputado Ulisses Guimarães, presidente do MDB, cujos
discursos eram freqüentemente censurados, brincou: “Quem
mais atrapalha o MDB é o Luís de
Camões.” O censor não gostou da brincadeira. E
no lugar da fala de Ulysses deu Camões.
O JT
seguia a mesma política, mas em lugar de versos publicava
receitas culinárias. Em 1973 estampou uma página
inteira de Receitas do Alfredo’s. O censor não
percebeu que se tratava de uma ironia com o objeto da
notícia que deveria ter saído naquele espaço,
o ministro da Justiça, Alfredo Buzaid.
Em nenhum momento, o Estado, jornal
de maior influência política do Brasil, e o JT
abdicaram de sua entranhada convicção de que
não existe uma sociedade livre e democrática se
não houver liberdade de imprensa.
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