QUINHENTISMO NO BRASIL  (LITERATURA) escrito em segunda 29 outubro 2007 15:32

Blog de pre-vestibular :SÓ PARA AJUDAR O PESSOAL DO PRÉ-VESTIBULAR, QUINHENTISMO NO BRASIL

 Descobrimento, de Cândido Portinari,
1956, Banco Centtral do Brasil - Brasília, DF 

 

Quinhentismo


 no Brasil[1]

Colégio Objetivo

Época literária em que os textos possuem cunho informativo e se apresentam como prolongamento da literatura de viagens, gênero largamente cultivado em Portugal e em toda Europa.

A literatura informativa descreve a nova terra descoberta (Brasil), seus habitantes, sua beleza natural. Também documenta as intenções do colonizador: conquistar, explorar, apresar escravos sob o disfarce da difusão do Cristianismo.

Os escritos decorrentes das viagens de reconhecimento são simples relatórios destinados a Coroa Portuguesa reportando as possibilidades de exploração e colonização. Expressam muitas vezes uma visão paradisíaca em razão do deslumbramento do europeu diante da exuberante beleza tropical. No Quinhentismo distinguimos quatro tipos de textos:

1. TEXTOS INFORMATIVOS: Visam a descrição da terra e do selvagem [2]. Temos como exemplos de escritores Pero Vaz de Caminha e Pero Lopes de Souza.

Citamos aqui a Carta de Pero Vaz de Caminha [3] ao rei D. Emanuel sobre o Descobrimento do Brasil. Trata-se de um dos mais importantes textos informativos do Quinhentismo. Foi escrita sob forma de um diário de bordo datada de 1º de maio de 1500. Os pontos mais importantes desta carta são a simpatia pela terra e pelo índio.

2. TEXTOS PROPAGANDÍSTICOS: Adicionam ao propósito informativo a intenção de atrair colonos e investimentos para a nova terra.

3. TEXTOS CATEQUÉTICOS: Unem o propósito de conversão dos índios à preservação dos costumes e da moral ibérico-jesuíticos. Como principais escritores deste estilo temos Manoel da Nóbrega, Padre José de Anchieta e Fernão Cardim.


Obra de Cândido Portinari, óleo sobre madeira, 0,56 x 0,46, acervo do Banco Itaú

O Padre José de Anchieta é visto como a maior vocação literária que viveu no Brasil Quinhentista, apesar de sua obra ter caráter utilitário, didático e moralizante. Escreveu várias poesias em latim, castelhano, português, tupi e multilingues. Também escreveu oito autos entre os quais:

  • a) Na Festa de São Lourenço e
  • b) Na Visitação de Santa Isabel.

Como os autos medievais e aproximando-se do teatro de Gil Vicente [4], eram encenações simples, envolvendo anjos, demônios, personificações do Bem e do Mal, dos Vícios, das Virtudes, entremeados de rezas, cantos e danças. Sua prosa consta de cartas, informações, fragmentos literários e sermões.

4. TEXTOS DE VIAJANTES ESTRANGEIROS: São escritos de não-portugueses que inventariam as riquezas e possibilidades da terra.

É importante ressaltar que o Quinhentismo não pára por aí. Em vários momentos da nossa evolução literária, muitos escritores buscaram inspiração nos textos quinhentistas, como Oswald de Andrade (Modernismo), José de Alencar (Romantismo) [5], Gonçalves Dias (Romantismo), entre outros.

Notas:

[1] Leia sobre o Quinhentismo em: <ESCOLAS-LITERARIAS-E-EPOCAS>[2] Leia sobre a caracterização do selvagem em: <ROUSSEAU: Discurso sobre a origem das desigualdades>
[3] Leia a carta na íntegra em: <CARTA-de-Pero-Vaz-de-Caminha>
[4] Leia sobre Gil Vicente em: <
GIL VICENTE E AUTO >
Leia também  o auto na íntegra em: <
AUTO-DA-BARCA-DO-INFERNO/>
[5] Leia sobre José de Alencar: <IRACEMA-Analise-II-O-autor/>

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CLIQUE E CONHEÇA A TRAÇOS & LETRAS


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DICAS DE ATUALIDADES  (ATUALIDADES) escrito em segunda 29 outubro 2007 22:08

No vídeo acima, um assunto ainda atual.

ATENÇÃO PESSOAL!

ESSAS DICAS FORAM

PARA OS EXAMES DE 2007,

CONVÉM DAR UMA OLHADA

NAS NOVAS DICAS.


Temas de conchecimentos

gerais que envolveram os

exames da FUVEST 2008


O site globo.com tem um setor que trata de vestibular e educação. No dia 17/10/07 o professor Reinaldo Scalzaretto, supervisor do curso do Anglo, participou do chat G1, e o resumo do que foi discutido no chat (http://videochat.globo.com/) está no site e foi transcrito na íntegra a seguir.


Dicas sobre

atualidades para


os vestibulares


realizados em


2007-2008

Veja como melhorar seu desempenho nas
questões dos processos seletivos

As atualidades são cada vez mais freqüentes em exames de vestibulares. Por isso, o  supervisor de geografia do Curso Anglo, Reinaldo Scalzaretto, dá dicas de como estudar e os temas que podem cair nas provas. Ele participou, nesta quarta-feira (17) do chat do G1.
        
Confira a íntegra do chat

Scalzaretto afirma que é importante cultivar o hábito de ler jornal e que não adianta ler só uma semana antes da prova. “O professor que escreve a prova se baseia muitas vezes em algum arquivo de jornal, de meses antes”, diz. Além disso, segundo ele, a questão contextualizada dá mais informações para serem resolvidas. “Muitas vezes estas questões são as que costumam ser mais fáceis”, afirma.

Mas, mesmo que a geografia seja cada vez mais cobrada junto de conhecimentos do mundo de hoje, isso não significa que o estudante possa dispensar os tradicionais mapas. “Você tem que estar com eles na sua cabeça. Muitas vezes este conhecimento também serve para se resolver questões de atualidades”, diz o professor.

Veja as dicas para alguns temas em destaque no mundo atual:

Chavismo                            

Pode ser uma questão da prova e já foi de vestibulares passados. Dois aspectos podem ser explorados: o político e o econômico. Pode-se relacionar o chavismo ao socialismo na América Latina e com Cuba no ponto de vista político. E sob o ponto de vista econômico, a questão do petróleo da Venezuela merece destaque.

           Conheça Hugo Chávez


Crise política

Questões políticas do dia-a-dia não costumam aparecer no vestibular. Há raras exceções. Por exemplo, se você for fazer vestibular no IBMEC/SP pode encontrá-las. Mas é raro. Em geral o que podemos dizer que é as questões partem da notícia de jornal para avaliar se o aluno tem um conhecimento mais profundo do tema.

Oriente médio

Cai bastante na prova. A melhor forma de estudar é pegar um resumo das coisas mais importantes que aconteceram nos últimos tempos.


Entenda o conflito Israel x Palestina 

Entenda o conflito entre Hamas e Fatah

              

Mudanças climáticas

Vestibulares devem abordar o assunto, porque são questões interdisciplinares, com exploração de física, química, matemática, geografia e história numa mesma pergunta.

                         

Entenda causas e conseqüências do aquecimento global

"Brasileiros têm de agir sobre aquecimento"

Aquecimento global: da ciência ao juízo final


Biodiesel

É uma novidade extremamente importante para o Brasil. Atualmente procuram-se em todo o mundo novas formas de geração de energia e o Brasil inventou a biomassa, que é retirar energia de material orgânico.
        

China

Todo ano cai. Dinâmica populacional e industrialização são os principais temas de questões à respeito da China.

                

China manda recados para Taiwan e EUA 

                

11 de setembro

O assunto já parece um pouco esgotado.

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PARIS 1948: Crise social e Manifesto Comunista  (HIST. CONTEMPORANEA) escrito em terça 30 outubro 2007 12:25

Blog de pre-vestibular :SÓ PARA AJUDAR O PESSOAL DO PRÉ-VESTIBULAR, PARIS 1948: Crise social e Manifesto Comunista

Vincent van Gogh, Os comedores de batatas, 1885, óleo em tela, 82 × 114 cm
Museu van Gogh, Amsterdã

 

 Contexto

O que levou a Associação Internacional
de Operários a encomendar, em 1947,
o manifesto a Marx e Engels?

Em 1840, estava consolidado o capitalismo inglês e a industrialização agravara as desigualdades sociais. A tônica do reinado de Luís Felipe — apelidado de "rei burguês" ou "rei dos banqueiros" —, é expressada satiricamente na idéia "enriquecei-vos", uma resposta dada por um dos seus ministros quando interpelado sobre o voto universal.

Na França, a revolução industrial decolou na década de 1830. Nesse momento, o voto era determinado pela renda dos indivíduos (voto censitário). Portanto, só uma elite composta pelos antigos aristocratas e uma parcela da burguesia tinha direito ao voto. Na bolsa de valores a especulação era desenfreada; muitas fortunas surgiam da noite para o dia e os novos milionários eram agraciados pelo rei com títulos de nobreza.

Blog de turma : imagens nossas, PARIS 1948: Crise social e Manifesto Comunista (HIST. CONTEMPORANEA)2
Pierre-Auguste Renoir, 1879-80, Oil on canvas, 21 1/2 x 26" (55.1 x 65.9 cm)
The Art Institute of Chicago

Assim o monarca satisfazia a ambição da burguesia em assemelhar-se à nobreza que antes combatera. Por sua vez, a nobreza hereditária anterior à Revolução Francesa (1789) começava a entender que a alta burguesia era sua aliada e que o maior inimigo das duas era o povo.

A alta burguesia copiava da nobreza o modelo da educação, colocava seus filhos nas mesmas escolas e frequentava os mesmos ambientes, quer fossem festas, exposições de arte, teatros de ópera ou palacetes do prazer. A diferença fundamental entre a nobreza tradicional e alta burguesia nesse momento é que a burguesia defende o progresso econômico, dirige os seus negócios industriais, comerciais ou financeiros e dedica menos tempo ao ócio. A ética burguesa é baseada no lucro, na vida familiar, nos hábitos severos, na dignidade do trabalho e do esforço. Enquanto isso, a miséria da população operária e artesã era cada vez mais crítica em  Paris.

 Por ocasião do Congresso da Liga Comunista, realizado em Londres, em 1847, foi encomendado a Karl Marx e a Friedrich Engels um documento para servir de programa teórico e prático de um partido político, em face do caos social instalado com a conhecida revolução industrial. O trabalho foi entregue no ano seguinte (1848), escrito em alemão, sob o título Manifesto Comunista. O sucesso foi imediato e transformou-se no documento político mais importante do mundo. 

Blog de turma : imagens nossas, PARIS 1948: Crise social e Manifesto Comunista (HIST. CONTEMPORANEA)3
O martelo de vapor de Nasmyth de 1848

 

MANIFESTO COMUNISTA

PUBLICADO PELO INSTITUTO JOSÉ LUIS E ROSA SUNDERMANN

PREFÁCIO À EDIÇÃO ALEMÃ DE 1872

A LIGA COMUNISTA, associação internacional de operários que, nas condições atuais, só poderia ser secreta, incumbiu os abaixo-assinados, por ocasião do Congresso realizado em Londres, em novembro de 1847, de escrever para fins de publicação um programa detalhado, teórico e prático do partido. Foi esta a origem do seguinte Manifesto, cujo manuscrito foi enviado a Londres, sendo impresso poucas semanas antes da Revolução de Fevereiro. Primeiramente publicado em alemão, teve pelo menos umas doze edições diferentes nessa língua, na Alemanha, Inglaterra e América do Norte. Foi publicado em inglês pela primeira vez, em 1850, no Red Republican, em tradução da Srta. Helen MacFarlane, e teve em 1871 pelo menos três traduções diferentes na América do Norte. A versão francesa apareceu pela primeira vez em Paris pouco antes da insurreição de junho de 1848 e, recentemente, no Le Socialiste de Nova York. Há atualmente, uma nova tradução em preparo. Uma versão polonesa apareceu em Londres pouco após a sua primeira edição alemã. Uma tradução russa foi publicada em Genebra na década de 60. Também em dinamarquês apareceu pouco depois de sua primeira publicação.

Por mais que tenham mudado as condições nos últimos vinte e cinco anos, os princípios gerais expressados nesse Manifesto conservam, em geral, toda a sua exatidão. Em algumas partes certos detalhes devem ser melhorados. Segundo o próprio Manifesto, a aplicação prática dos princípios dependerá, em todos os lugares e em todas as épocas, das condições históricas vigentes e por isso não se deve atribuir importância demasiada às medidas revolucionárias propostas no final da seção II. Hoje em dia, esse trecho seria redigido de maneira diferente em alguns aspectos.

Em certos pormenores, esse programa está antiquado, levando-se em conta o desenvolvimento colossal da indústria moderna desde 1848, os progressos correspondentes da organização da classe operária e a experiência prática adquirida, primeiramente, na Revolução de Fevereiro e, mais ainda, na Comuna de Paris, onde coube ao proletariado, pela primeira vez, a posse do poder político, durante quase dois meses.

A Comuna de Paris demonstrou especialmente que “não basta que a classe trabalhadora se apodere da máquina estatal para fazê-la servir a seus próprios fins” (ver A Guerra Civil na França; Manifesto do Conselho Geral da Associação Internacional de Trabalhadores, de 1871, onde essa idéia é mais desenvolvida). Além do mais, é evidente que a crítica da literatura socialista mostra-se deficiente em relação ao presente, porque se detém em 1847; as observações sobre as relações dos comunistas com diferentes partidos de oposição (seção IV), embora em princípio corretas, na prática estão desatualizadas, pois a situação política modificou-se totalmente e o desenvolvimento histórico fez desaparecer a maior parte dos partidos aí enumerados.

Porém, o Manifesto tornou-se um documento histórico que nos cabe mais alterar. Uma edição futura talvez apareça com uma introdução que preencha a lacuna entre 1847 e os nossos dias; a atual edição foi inesperada demais para que tivéssemos tempo de fazê-lo.

Karl Marx e Friedrich Engels
Londres, 24 de junho de 1872.

 MANIFESTO COMUNISTA

UM ESPECTRO RONDA A EUROPA — o espectro do comunismo. Todas as potências da velha Europa uniram-se numa Santa Aliança para exorcismá-lo: o papa e o czar, Metternich e Guizot, os radicais franceses e os espiões da polícia alemã. Qual o partido de oposição que não foi acusado de comunista por seus adversários no poder? Qual o partido de oposição que também não lançou contra seus adversários progressistas ou reacionários o estigma do comunismo? Daí decorrem duas conclusões:

I - O comunismo já é considerado uma força por todas as potências da Europa.
II - Já é tempo dos comunistas publicarem abertamente, diante de todo o mundo, suas idéias, seus fins, suas tendências, opondo à lenda do comunismo um manifesto do próprio partido.

Para isso, comunistas de várias nacionalidades reuniram-se em Londres e redigiram o manifesto seguinte, a ser publicado em inglês, francês, italiano, flamengo e dinamarquês.

I. BURGUESES E PROLETÁRIOS [1]

A HISTÓRIA DE TODA SOCIEDADE [2] existente até hoje tem sido a história das lutas de classes. Homem livre e escravo, patrício e plebeu, senhor e servo, mestre de corporação3 e companheiro, numa palavra, o opressor e o oprimido permaneceram em constante oposição um ao outro, levada a efeito numa guerra ininterrupta, ora disfarçada, ora aberta, que terminou, cada vez, ou pela reconstituição revolucionária de toda a sociedade ou pela destruição das classes em conflito.

Desde as épocas mais remotas da história, encontramos, em praticamente toda parte, uma complexa divisão da sociedade em classes diferentes, uma gradação múltipla das condições sociais. Na Roma Antiga, temos os patrícios, os guerreiros, os plebeus, os escravos; na Idade Média, os senhores, os vassalos, os mestres, os companheiros, os aprendizes, os servos; e, em quase todas essas classes, outras camadas subordinadas.

A sociedade moderna burguesa, surgida das ruínas da sociedade feudal, não aboliu os antagonismos de classes. Apenas estabeleceu novas classes, novas condições de opressão, novas formas de luta em lugar das velhas. No entanto, a nossa época, a época da burguesia, possui uma característica: simplificou os antagonismos de classes. A sociedade global divide-se cada vez mais em dois campos hostis, em duas grandes classes que se defrontam — a burguesia e o proletariado.

Dos servos da Idade Média originaram-se os burgueses privilegiados das cidades antigas. Desses burgueses, surgiram os primeiros elementos da burguesia atual. A descoberta da América, o contorno do Cabo abriram novo campo para a burguesia emergente. Os mercados da Índia oriental e da China, a colonização da América, o comércio com as colônias, o aumento dos meios de troca e das mercadorias em geral, deram ao comércio, à navegação, à indústria, um impulso jamais conhecido antes e, conseqüentemente, ao elemento revolucionário da sociedade feudal instável, um rápido desenvolvimento.

O sistema feudal da indústria, no qual a produção industrial era monopolizada pelas guildas fechadas, agora não mais atendia às crescentes necessidades dos novos mercados. O sistema manufatureiro tomou o seu lugar. Os mestres das guildas foram postos de lado pela classe média manufatureira; a divisão do trabalho entre as diferentes guildas corporativas desapareceu em face da divisão do trabalho em cada oficina.

Entrementes, os mercados continuaram sempre a crescer, a procura sempre a subir. Mesmo a manufatura não mais atendia ao necessário. Em conseqüência, o vapor e as máquinas revolucionaram a produção industrial. O lugar da manufatura foi ocupado pela gigantesca indústria moderna, o lugar da classe média industrial pelos milionários industriais, os líderes de completos exércitos industriais, a burguesia moderna.

A indústria moderna estabeleceu o mercado mundial, para o qual a descoberta da América preparou terreno. Esse mercado deu um imenso desenvolvimento ao comércio, à navegação e à comunicação por terra. Esse desenvolvimento, por sua vez, reagiu à extensão da indústria; e na proporção que a indústria, o comércio, a navegação e as estradas de ferro se estendiam, na mesma proporção a burguesia se desenvolvia, aumentava seu capital e punha em plano secundário toda classe legada pela Idade Média. Vemos, portanto, como a própria burguesia moderna é produto de um longo curso de desenvolvimento, de uma série de revoluções nos modos de produção e de troca.

Cada etapa no desenvolvimento da burguesia acompanha-se de um progresso político correspondente. Classe oprimida pela nobreza feudal, associação armada administrando-se a si própria na comuna [4]; aqui república urbana independente (como na Itália e na Alemanha), ali terceiro Estado, tributário da monarquia (como na França); depois, no período manufatureiro, servindo a monarquia semi-feudal ou absoluta como contrapeso da nobreza, de fato pedra angular das grandes monarquias em geral — a burguesia, desde o estabelecimento da indústria moderna e do mercado mundial, conquistou finalmente a soberania política no Estado representativo moderno. O Governo do Estado moderno é apenas um comitê para gerir os negócios comuns de toda a burguesia.

Historicamente, a burguesia desempenhou um papel revolucionário. Onde quer que tenha assumido o poder, a burguesia pôs fim a todas as relações feudais, patriarcais e idílicas. Destruiu impiedosamente os vários laços feudais que ligavam o homem e seus “superiores naturais”, deixando como única forma de relação de homem a homem o laço do frio interesse, o insensível “pagamento à vista”. Afogou os êxtases sagrados do fervor religioso, do entusiasmo cavalheiresco, do sentimentalismo pequeno-burguês nas águas gélidas do cálculo egoísta. Fez da dignidade pessoal um simples valor de troca e em nome das numerosas liberdades conquistadas estabeleceu a implacável liberdade de comércio. Em suma, substitui a exploração, encoberta pelas ilusões religiosas e políticas, pela exploração aberta, única, direta e brutal.

A burguesia despojou de sua auréola toda a ocupação até então considerada honrada e encarada com respeito. Converteu o médico, o jurista, o padre, o poeta, o homem da ciência em trabalhadores assalariados. A burguesia rasgou o véu sentimental da família, reduzindo as relações familiares a meras relações monetárias.

A burguesia não pode existir sem revolucionar constantemente os meios de produção e, por conseguinte, as relações de produção e, com elas, todas as relações sociais. Ao contrário, a conservação do antigo modo de produção constituía a primeira condição de existência de todas as classes industriais anteriores. A revolução contínua da produção, o abalo constante de todas as condições sociais, a eterna agitação e certeza distinguem a época burguesa de todas as precedentes. Suprimem-se todas as relações fixas, cristalizadas, com seu cortejo de preconceitos e idéias antigas e veneradas; todas as novas relações se tornam antiquadas, antes mesmo de se consolidar. Tudo o que era sólido se evapora no ar, tudo o que era sagrado é profanado, e por fim o homem é obrigado a encarar com serenidade suas verdadeiras condições de vida e suas relações com a espécie.

A necessidade de um mercado constantemente em expansão impele a burguesia a invadir todo o globo. Necessita estabelecer-se em toda parte, explorar em toda parte, criar vínculos em toda parte. Por meio de sua exploração do mercado mundial, a burguesia deu um caráter cosmopolita à produção e ao consumo em todos os países. Para desespero dos reacionários, retirou da indústria sua base nacional. As velhas indústrias nacionais foram destruídas ou estão-se destruindo dia a dia.

São suplantadas por novas indústrias, cuja introdução se torna uma questão de vida e morte para todas as nações civilizadas, por indústrias que não empregam matérias-primas autóctones, mas matérias-primas vindas das zonas mais remotas; indústrias cujos produtos se consomem não somente no próprio país, mas em todas as partes do globo. Em lugar das antigas necessidades, satisfeitas pela produção nacional, encontramos novas necessidades que requerem para sua satisfação os produtos das regiões mais longínquas e dos climas mais diversos.

Em lugar do antigo isolamento local e da auto-suficiência das nações, desenvolvem-se, em todas as direções, um intercâmbio e uma interdependência universais. E isso tanto na produção material quanto na intelectual. As criações intelectuais de uma nação tornam-se propriedade comum de todas. A estreiteza e o exclusivismo nacionais tornam-se cada vez mais impossíveis e das numerosas literaturas nacionais e locais surge a literatura universal.

Com o rápido aprimoramento de todos os meios de produção, com as imensas facilidades dos meios de comunicação, a burguesia arrasta todas as nações, mesmo as mais bárbaras, para a civilização. Os baixos preços de suas mercadorias formam a artilharia pesada com que destrói todas as muralhas da China, com que obriga à capitulação os bárbaros mais hostis aos estrangeiros. Força todas as nações, sob pena de extinção, a adotarem o modo burguês de produção; força-as a adotarem o que ela chama de civilização, isto é, a se tornarem burguesas. Em uma palavra, cria um mundo à sua imagem.

A burguesia submeteu o campo à cidade. Criou cidades enormes, aumentou tremendamente a população urbana em relação à rural, arrancando assim contingentes consideráveis da população do embrutecimento da vida rural. Assim como subordinou o campo à cidade, os países bárbaros e semibárbaros aos civilizados, subordinou os povos camponeses aos povos burgueses, o Oriente ao Ocidente. A burguesia suprime cada vez mais a dispersão da população, dos meios da produção e da propriedade. Aglomerou a população, centralizou os meios de produção e concentrou a propriedade em poucas mãos. A conseqüência necessária disso foi a centralização política. Províncias independentes, ligadas apenas por laços federativos, com interesses, leis, Governos e tarifas diferentes, foram reunidas em uma só nação, com um só Governo, um só código de leis, um só interesse internacional de classe, uma só barreira alfandegária.

A burguesia durante seu domínio, apenas secular, criou forças produtivas mais poderosas e colossais do que todas as gerações em conjunto. A subordinação das forças da natureza ao homem, a maquinaria, a aplicação da química na indústria e na agricultura, a navegação a vapor, as vias férreas, os telégrafos elétricos, a exploração de continentes inteiros para fins de cultivo, a canalização de rios, populações inteiras brotadas da terra como por encanto — que século anterior poderia prever que essas forças produtivas estivessem adormecidas no seio do trabalho social?

Vemos então que os meios de produção e de troca sobre cuja base se ergue a burguesia eram originários da sociedade feudal. Numa dada etapa do desenvolvimento dos meios de produção e troca, as condições sob as quais a sociedade feudal produzia e trocava, a organização feudal da agricultura e da indústria manufatureira, em suma, as relações feudais da propriedade mostraram-se incompatíveis com as forças produtivas em pleno desenvolvimento. Transformaram-se em outros tantos entraves a serem despedaçados; foram despedaçados. Em seu ligar implantou-se a livre concorrência, com uma constituição social e política própria, com a supremacia econômica e política da classe burguesa.

Ocorre ante os nossos olhos um movimento semelhante. A moderna sociedade burguesa, com suas relações de produção, de troca e de propriedade, sociedade que conjurou gigantescos meios de produção e troca, assemelha-se ao feiticeiro que perdeu o controle dos poderes infernais que pôs em movimento com suas palavras mágicas. Há mais de uma década a história da indústria e do comércio é, simples-mente, a história da revolta das forças produtivas modernas contra as condições modernas de produção, contra as relações de propriedade que condicionam a existência da burguesia e seu domínio.

Basta lembrar as crises comerciais que, repetindo-se periodicamente, ameaçam cada vez mais a sociedade burguesa. Nessas crises destrói-se uma grande parte dos produtos existentes e das forças produtivas desenvolvidas. Irrompe uma epidemia que, em épocas precedentes, parecia um absurdo — a epidemia da superprodução. Repentinamente, a sociedade vê-se de volta a um estado momentâneo de barbarismo; é como se a fome ou uma guerra universal de devastação houvesse suprimido todos os meios de subsistência; o comércio e a indústria parecem aniquilados.

E por quê? Porque há demasiada civilização, demasiados meios de subsistência, demasiada indústria, demasiado comércio. As forças produtivas disponíveis já não mais favorecem as condições da propriedade burguesa; ao contrário, tornaram-se poderosas demais para essas condições que as entravam; e, quando superam esses entraves, desorganizam toda a sociedade, ameaçando a existência da propriedade burguesa. A sociedade burguesa é muito estreita para conter as suas próprias riquezas. E como a burguesia vence essas crises? De um lado, pela destruição violenta de grande quantidade das forças produtivas; do outro, pela conquista de novos mercados e pela intensa exploração dos antigos. Portanto, prepara crises mais extensas e mais destrutivas, diminuindo os meios de evitá-las.

As armas com que a burguesia abateu o feudalismo voltam-se agora contra ela mesma. A burguesia, porém, não forjou apenas as armas que representam sua morte; produziu também os homens que manejarão essas armas — o operariado moderno — os proletários. Na mesma proporção em que a burguesia, ou seja, o capital, se desenvolve, desenvolve-se também o proletariado, a classe dos trabalhadores modernos, que só podem viver se encontrarem trabalho, e só encontram trabalho na medida em que este aumenta o capital. Esses trabalhadores que são obrigados a vender-se diariamente são uma mercadoria, um artigo de comércio, sujeitos, portanto, às vicissitudes da concorrência, às flutuações do mercado.

Devido ao uso intensivo da máquina e à divisão do trabalho, o trabalho proletário perdeu seu caráter individual e, por conseguinte, todo o seu atrativo. O produtor tornou-se um apêndice da máquina, e só requer dele a operação mais simples, mais monótona e mais fácil de aprender. Desse modo, o custo da produção de um operário se reduz, quase completamente, aos meios de subsistência que ele necessita para viver e para perpetuar a raça. Mas o preço de uma mercadoria e, portanto, o do trabalho, equivale ao seu custo de produção. Logo, à medida que aumenta o caráter enfadonho do trabalho, o salário diminui. Ainda mais, à medida que se desenvolve o maquinismo e a divisão do trabalho, cresce a quantidade de trabalho, seja pela prolongação das horas de labor, seja pelo incremento do trabalho exigido em um certo tempo, seja pela aceleração do movimento das máquinas etc.

A indústria moderna transformou a pequena oficina do antigo mestre de corporação na grande fábrica do capitalista industrial. Massas de operários, aglomerados nas fábricas, são organizados como soldados. Como membros do exército industrial estão subordinados à perfeita hierarquia de oficiais e suboficiais. Não são escravos exclusivos da classe e do Estado burgueses, mas diariamente e a cada hora são escravos da máquina, do contramestre e, sobretudo, do próprio dono da fábrica. Esse despotismo é tanto mais mesquinho, mais odioso e mais exasperador quanto maior é a franqueza com que proclame ter no lucro seu objetivo e seu fim.

O trabalho dos homens é tanto mais suplantado pelo das mulheres quanto menores são a habilidade e a força exigidas pelo trabalho manual, ou, em outras palavras, quanto mais se desenvolve a indústria moderna. As diferenças de idade e de sexo não têm importância social para a classe operária. Todos são instrumentos de trabalho, cujo preço varia segundo a idade e o sexo. Depois de sofrer a exploração do fabricante e de receber o seu salário, o trabalhador torna-se presa fácil de outros membros da burguesia, do proprietário, do varejista, do usuário etc.

As camadas inferiores da classe média — os pequenos industriais, pequenos comerciantes e pessoas que possuem rendas, artesãos e camponeses — caem, pouco a pouco, no proletariado, em parte devido ao seu capital diminuto que não está à altura da indústria moderna, sucumbindo na concorrência, em parte porque sua habilidade profissional é desvalorizada pelos novos métodos de produção. Assim, o proletariado é recrutado em todas as classes da população.

O proletariado passa por diferentes estágios de desenvolvimento. A partir de seu nascimento começa a luta com a burguesia. No princípio a luta é assumida por trabalhadores individuais, depois pelos operários de uma mesma fábrica, a seguir pelos operários de um mesmo ramo da indústria, numa dada localidade, contra o burguês que os explora diretamente. Atacam não os condicionamentos burgueses da produção, mas os próprios meios de produção; destroem as mercadorias estrangeiras que lhes fazem concorrência, quebram as máquinas, queimam as fábricas e procuram reconquistar a posição perdida do artesão da Idade Média.

Nessa fase, os trabalhadores constituem ainda uma massa incoerente disseminada por todo o país, dispersa pela concorrência mútua. Se se unem, às vezes, em massas compactas, isso ainda não é o resultado de uma união ativa, mas da união de burgueses que, para alcançar seus objetivos políticos, movimenta todo o proletariado, o que ainda pode fazer provisoriamente. Nessa fase, portanto, os proletários não combatem os seus inimigos, mas os inimigos dos seus inimigos, os restos da monarquia absoluta, os proprietários territoriais, os burgueses não-industriais, a pequena burguesia. Assim, todo o movimento histórico concentra-se nas mãos da burguesia; toda vitória obtida é uma vitória da burguesia.

Com o desenvolvimento industrial, no entanto, o proletariado não cresce unicamente em número; concentra-se em massas cada vez maiores, fortalece-se e toma consciência disso. Os vários interesses e as condições de existência dos proletários se igualam, à medida que a máquina aniquila todas as distinções de trabalho, reduzindo todos os salários a um único nível igualmente baixo. A concorrência crescente dos burgueses e as conseqüentes crises comerciais tornam os salários ainda mais instáveis. O aprimoramento contínuo e o rápido desenvolvimento das máquinas tornam a condição de vida do trabalhador cada vez mais precária; os conflitos individuais entre o trabalhador e o burguês assumem cada vez mais o caráter de conflito entre suas classes. A partir daí os trabalhadores começam a formar uniões (sindicatos) contra os burgueses; atuam em conjunto na defesa dos salários; fundam associações permanentes que os preparam para esses choques eventuais. Aqui e ali a luta se transforma em motim.

Os trabalhadores triunfam ocasionalmente, mas por pouco tempo. O verdadeiro resultado de suas lutas não é o êxito imediato, mas a reunião cada vez mais ampla dos trabalhadores. Essa união é facilitada pelo desenvolvimento dos meios de comunicação criados pela indústria moderna, possibilitando o contato dos operários de localidades diferentes. Era esse contato que estava faltando para centralizar as várias lutas locais, todas do mesmo caráter em uma luta de classes de âmbito nacional.

E a união que os habitantes das cidades da Idade Média levavam séculos para alcançar, com seus caminhos miseráveis, os modernos proletários realizam em poucos anos, graças as vias férreas.

Essa organização dos proletários em classe e, portanto, em partido político é incessantemente abalada pela competição entre os próprios trabalhadores. Mas sempre se ergue mais forte, mais firme, mais poderosa. Aproveitando-se das divisões internas da própria burguesia, força o reconhecimento legal de certos interesses particulares dos trabalhadores, como a lei da jornada de dez horas de trabalho, na Inglaterra.

Em geral, os choques entre as classes da velha sociedade favorecem de diversas maneiras o desenvolvimento do proletariado. A burguesia vive em guerra perpétua: primeiramente com a aristocracia; mais tarde com os setores da própria burguesia cujos interesses entraram em conflito com os progressos da indústria; em todas as épocas, com a burguesia dos países estrangeiros. Nessas lutas vê-se obrigada a apelar para o proletariado, em busca de auxílio, arrastando-o para a arena política. A própria burguesia, portanto, fornece ao proletariado os elementos de sua politização, em outras palavras, as armas contra ela própria.

Ademais, como já vimos, setores inteiros das classes dirigentes são, devido ao progresso industrial, lançados no proletariado, ou pelo menos ameaçados em suas condições de existência. Também eles fornecem ao proletariado elementos valiosos de esclarecimento e progresso.

Finalmente, nos períodos em que a luta de classes se aproxima da hora decisiva, o processo de dissolução da classe dominante e, de fato, de toda a velha sociedade, adquire um caráter tão violento que uma certa parte dessa classe se desliga, juntando-se à classe revolucionária, aquela que tem o futuro em suas mãos. Portanto, assim como outrora uma parte da nobreza juntou-se à burguesia, hoje uma parte desta passa-se para o proletariado, principalmente o setor dos ideólogos burgueses que chegaram a compreender teoricamente o movimento histórico em geral.

De todas as classes que hoje se defrontam com a burguesia, apenas o proletariado é uma classe realmente revolucionária. As outras classes decaem e por fim desaparecem com o desenvolvimento da indústria moderna, mas o proletariado é seu produto mais autêntico.

As classes médias inferiores, os pequenos industriais, os pequenos fabricantes, os artesãos, os camponeses, todos lutam contra a burguesia, para garantir sua existência como parte da classe média. Portanto, não são revolucionárias, mas conservadoras e, mais ainda reacionárias, pois procuram fazer retroceder a roda da História. Se por acaso tornam-se revolucionárias é em conseqüência de sua iminente transferência para o proletariado; não defendem, pois, os seus interesses atuais, mas os futuros, abandonando seu próprio ponto de vista pelo do proletariado.

A “classe perigosa”, a escória da sociedade, esse produto passivo das camadas mais baixas da velha sociedade, pode, às vezes, ser arrastado ao movimento por uma revolução proletária; no entanto, suas próprias condições de existência a dispõem mais a vender-se à reação.

Nas condições de existência do proletariado já estão destruídas as condições da antiga sociedade. O proletário não tem propriedade; suas relações com sua mulher e seus filhos não tem nada em comum com a família burguesa; o trabalho industrial moderno, a sujeição ao capital, tanto na Inglaterra quanto na França, tanto na América quanto na Alemanha, despojaram-no de todos os traços de caráter nacional. A lei, a moral, a religião são para ele preconceitos burgueses, atrás dos quais se ocultam outros tantos interesses burgueses.

Todas as classes que anteriormente conquistaram o poder procuraram fortalecer o seu status subordinado toda a sociedade às suas condições de apropriação. Os proletários não podem apoderar-se das forças produtivas sem abolir a forma de apropriação que lhes era própria e, portanto, toda e qualquer forma de apropriação. Nada tem de seu a salvaguardar; sua missão é destruir todas as garantias e seguranças da propriedade individual.

Todos os movimentos históricos precedentes foram movimentos minoritários, ou em proveito de minorias. O movimento proletário é o movimento consciente e independente da imensa maioria, em proveito da imensa maioria. O proletariado, a camada inferior da nossa sociedade, não pode erguer-se, pôr-se de pé, sem fazer saltar todos os estratos superpostos que constituem a sociedade oficial.

No princípio a luta do proletariado com a burguesia tem o caráter de uma luta nacional, não em sua essência, mas em sua forma. É claro que o proletariado de cada país deve primeiramente ajustar as contas com sua própria burguesia. Esboçando em linhas gerais as fases do desenvolvimento do proletariado, descrevemos a guerra civil mais ou menos oculta, existente na sociedade atual, até a hora em que essa guerra explode numa revolução aberta e a derrubada violenta da burguesia estabelece a dominação do proletariado.

Até agora todas as sociedades se basearam, como vimos, no antagonismo entre as classes opressoras e as oprimidas. Mas para oprimir uma classe é preciso que lhe sejam asseguradas ao menos condições tais que lhe permitam uma existência de escravo. O servo, durante a servidão, conseguia tornar-se membro da comuna, assim como o pequeno burguês, sob o jugo do absolutismo feudal, conseguiu elevar-se à categoria de burguês.

O operário moderno, ao contrário, em vez de elevar sua posição com o progresso da indústria, desce cada vez mais abaixo das condições de existência de sua própria classe. Cai no pauperismo que cresce ainda mais rapidamente do que a população e a riqueza. Torna-se, então, evidente que a burguesia é incapaz de continuar sendo a classe dominante da sociedade, impondo como lei suprema suas próprias condições de existência.

É incapaz de exercer seu domínio porque não pode mais assegurar a existência de seu escravo em sua escravidão, porque é obrigada a deixá-lo cair num estado tal que deve nutri-lo em lugar de se fazer nutrir por ele. A sociedade não pode mais existir sob o domínio da burguesia, em outras palavras, a sua existência doravante é incompatível com a sociedade.

A condição essencial para a existência e o domínio da classe burguesa é a formação e o crescimento do capital; a condição de existência do capital é o trabalho assalariado. Este baseia-se exclusivamente na concorrência entre os trabalhadores. O progresso da indústria, cujo agente involuntário é a própria burguesia, substitui o isolamento dos operários, resultante de sua associação. O desenvolvimento da indústria moderna, portanto, abala a própria base sobre a qual a burguesia assentou seu regime de produção e de apropriação. O que a burguesia produz principalmente são seus próprios coveiros. Sua queda e a vitória do proletariado são igualmente inevitáveis.

II. PROLETÁRIOS E COMUNISTAS

QUAL A POSIÇÃO DOS COMUNISTAS em relação aos proletários em geral?

Os comunistas não formam um partido à parte, oposto aos outros partidos operários. Não têm interesses diferentes daqueles do proletariado em geral. Não formulam quaisquer princípios particulares a fim de modelar o movimento proletário. Os únicos pontos que distinguem os comunistas dos outros partidos operários são os seguintes:

1) nas lutas nacionais dos proletários dos diversos países, destacam e fazem prevalecer os interesses comuns a todo o proletariado, independente da nacionalidade;
2) nos vários estágios de desenvolvimento da luta da classe operária contra a burguesia, representam, sempre e em toda parte, os interesses do movimento em geral.

De um lado, portanto, os comunistas constituem, praticamente, a fração mais resoluta e mais avançada dos partidos operários de cada país, a fração que impulsiona as demais; do outro, têm, teoricamente, sobre o proletariado a vantagem de uma compreensão nítida das condições, da marcha e dos fins gerais do movimento proletário.

O fim imediato dos comunistas é o mesmo que o de todos os partidos proletários: constituição dos proletários em classe, derrubada da supremacia burguesa, conquista do poder político pelo proletariado. As conclusões teóricas dos comunistas não se baseiam, de forma alguma, em idéias ou princípios inventados ou descobertos por este ou aquele pretenso reformador do mundo.

São apenas a expressão geral das condições reais de uma luta de classes existentes, de um movimento histórico que se desenvolve diante de nossos olhos. A abolição das relações de propriedade existentes não constitui uma característica particular do comunismo. Todas as relações de propriedade têm passado por várias mudanças devido às modificações das condições históricas.

A Revolução Francesa, por exemplo, aboliu a propriedade feudal substituindo-a pela propriedade burguesa. A característica particular do comunismo não é a abolição da propriedade em geral, mas a abolição da propriedade burguesa. Mas a propriedade privada atual, a propriedade burguesa, é a expressão final do sistema de produção e apropriação que é baseado em antagonismos de classes, na exploração de muitos por poucos.

Nesse sentido, a teoria dos comunistas pode ser resumida nessa frase: abolição da propriedade privada. Censuram-nos a nós comunistas o querer abolir o direito à propriedade pessoalmente adquirida como fruto do trabalho do indivíduo, propriedade que é considerada a base de toda a liberdade pessoal, de toda a atividade e independência.

A propriedade pessoal, fruto do trabalho e do mérito! Refere-se à propriedade do pequeno artesão e do camponês, forma de propriedade que antecedeu a propriedade burguesa? Não há necessidade de aboli-la; o desenvolvimento da indústria já a destruiu, em grande parte, e continua a destruí-la diariamente. Ou refere-se à propriedade privada atual, a propriedade burguesa?

Mas o trabalho assalariado cria propriedade para o trabalhador? De modo algum. Cria capital, ou seja, aquele tipo de propriedade que explora o trabalho assalariado e que só pode aumentar sob a condição de produzir novo trabalho assalariado, a fim de explorá-lo novamente. A propriedade em sua forma atual baseia-se no antagonismo entre o capital e o trabalho assalariado. Examinemos os dois termos desse antagonismo.

Ser capitalista significa ocupar não somente uma posição pessoal na produção, mas também uma posição social. O capital é um produto coletivo e só pode ser posto em movimento pelos esforços combinados de muitos membros da sociedade ou, em última instância, pelos esforços combinados de todos os seus membros. O capital é, portanto, uma força social e não pessoal. Portanto, quando se converte o capital em propriedade comum, em propriedade de todos os membros da sociedade, não é a propriedade pessoal que se transforma em social. Muda-se apenas o caráter social da propriedade, que perde a sua vinculação de classe. Passemos ao trabalho assalariado.

O preço médio do trabalho assalariado é o salário mínimo, ou seja, a soma dos meios de subsistência necessários para que o operário viva como operário. Portanto, o que o operário obtém com o seu trabalho é apenas suficiente para conservar e reproduzir a sua vida. De modo algum pretendemos abolir essa apropriação pessoal dos produtos do trabalho, indispensável à manutenção e reprodução da vida humana, pois essa apropriação não deixa nenhum lucro líquido que confira poder sobre o trabalho alheio. O que queremos suprimir é o caráter miserável dessa apropriação que faz que o operário viva unicamente para aumentar o capital e na medida em que o exijam os interesses da classe dominante.

Na sociedade burguesa, o trabalho vivo é apenas um meio de aumentar o trabalho acumulado. Na sociedade comunista, o trabalho acumulado é apenas um meio de ampliar, de enriquecer, de promover a existência do trabalhador. Por conseguinte, na sociedade burguesa o passado domina o presente; na sociedade comunista, o presente domina o passado. Na sociedade burguesa o capital é independente e tem individualidade, enquanto a pessoa é dependente e não tem individualidade própria.

E o burguês equipara a abolição de semelhante estado de coisas à abolição da individualidade e da liberdade! De fato, é a abolição da individualidade burguesa, da independência burguesa e da liberdade burguesa. Nas atuais condições da produção burguesa, entende-se por liberdade de comércio, a liberdade de comprar e de vender.

Mas, se o tráfico desaparece, a liberdade de comprar e de vender também desaparece. Essa fraseologia a respeito de liberdade de comércio, assim como todas as digressões de nossa burguesia sobre a liberdade em geral só têm sentido quando se referem ao comércio tolhido e aos burgueses da Idade Média; não têm sentido algum quando se trata da abolição comunista do tráfico, das relações burguesas de produção e da própria burguesia.

Horrorizai-vos porque queremos abolir a propriedade privada. Mas, em nossa sociedade, a propriedade privada já foi abolida para nove décimos da população; se ela existe para alguns poucos é precisamente porque não existe para esses nove décimos. Acusai-nos, portanto, de procurar destruir uma forma de propriedade cuja condição de existência é a abolição de qualquer propriedade para a imensa maioria da sociedade.

Em resumo, acusai-nos de querer abolir vossa propriedade. De fato, é isso que queremos. Desde o momento em que o trabalho não mais pode ser convertido em capital, em dinheiro; em renda da terra, numa palavra, em poder social capaz de ser monopolizado, isto é, desde o momento em que a propriedade individual não possa mais converter-se em propriedade burguesa, declarais quê a individualidade está suprimida.

Confessais, pois, que quando falais do indivíduo, quereis referir-vos unicamente ao burguês, ao proprietário burguês. E este indivíduo, sem dúvida, deve ser suprimido. O comunismo não retira a ninguém o poder de apropriar-se de sua parte dos produtos sociais, apenas suprime o poder de escravizar o trabalho de outro por meio dessa apropriação.

Alega-se ainda que, com a abolição da propriedade privada, toda a atividade cessaria, uma inércia geral apoderar-se-ia do mundo. Se isso fosse verdade, há muito que a sociedade burguesa teria sucumbido à ociosidade, pois que os que no regime burguês trabalham não lucram e os que lucram não trabalham. Toda a objeção se reduz a essa tautologia: não haverá mais o trabalho assalariado quando não mais existir capital.

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PARIS 1948: Crise social e Manifesto Comunista - Parte II  (HIST. CONTEMPORANEA) escrito em terça 30 outubro 2007 12:34

Blog de pre-vestibular :SÓ PARA AJUDAR O PESSOAL DO PRÉ-VESTIBULAR, PARIS 1948: Crise social e Manifesto Comunista - Parte II

Vincent Van Gogh, The Drinkers, Oil on canvas, Saint-Remy, 1890 
The Art Institute of Chicago

 

MANIFESTO COMUNISTA

PUBLICADO PELO INSTITUTO JOSÉ LUIS E ROSA SUNDERMANN

CONTINUAÇÃO

As objeções feitas contra o modo comunista de produção e de apropriação dos produtos materiais foram feitas da mesma maneira contra a produção e a apropriação das criações intelectuais. Assim como, para o burguês, o desaparecimento da propriedade de classe é o desaparecimento da produção propriamente dita, o desaparecimento da cultura de classe é o desaparecimento de toda a cultura. Essa cultura, cuja perda ele tanto lamenta, é, para a imensa maioria, apenas um adestramento que a transforma em máquinas.

Mas, não discutais conosco, enquanto aplicardes à abolição da propriedade burguesa as vossas noções burguesas de liberdade, cultura, direito etc. Vossas próprias idéias são apenas uma decorrência do regime burguês de produção e de propriedade, assim como vosso direito é apenas a vontade de vossa classe erigida em lei, vontade cujo conteúdo é determinado pelas condições de existência de vossa classe.

A falsa concepção interesseira que vos leva a transformar em leis eternas da natureza e da razão as relações sociais oriundas da vossa forma atual de produção e de propriedade — relações históricas que surgem e desaparecem no curso da produção — a compartilhais com todas as classes dominantes que vos precederam. O que admitis claramente no caso da propriedade antiga, o que admitis claramente no caso da propriedade feudal, não podeis, é claro, admitir no caso de vossa forma burguesa de propriedade.

Abolição da família! Até os mais radicais ficam indignados ante essa proposta infame dos comunistas. Quais são as bases da família atual, da família burguesa? O capital, o ganho individual. Em sua plenitude, a família só existe para a burguesia, mas encontra seu complemento na supressão forçada da família entre os proletários e a prostituição pública.

A família burguesa desvanece-se totalmente com o desvanecer de seus complementos, e uma e outra com o desvanecer do capital. Acusai-nos de querer acabar com a exploração de crianças por seus próprios pais? Confessamos esse crime. Mas, direis, destruímos a mais sublime das relações ao substituir a educação doméstica pela educação social.

E a vossa educação não é também social e determinada pelas condições sociais sob as quais educais vossos filhos, pela intervenção direta ou indireta da sociedade, por meio de escolas etc.? Os comunistas não inventaram a intervenção da sociedade na educação; procuram apenas transformar o tipo dessa intervenção, arrancando-a à influência da classe dominante.

As declamações burguesas sobre família e educação, sobre os vínculos sublimes entre pais e filhos, tornam-se cada vez mais repugnantes pela ação da indústria moderna: os laços familiares dos proletários são destruídos e as crianças são trans-formadas em meros artigos de comércio e instrumentos de trabalho.

“Mas, vós comunistas quereis introduzir a comunidade de mulheres”, grita toda a burguesia em coro.

O burguês encara a sua mulher como um simples instrumento de produção. Ouve dizer que os instrumentos de produção serão explorados em comum e, naturalmente, chega à conclusão de que haverá também uma comunidade de mulheres.

Não suspeita que o objetivo real é arrancar a mulher de sua posição de instrumento de produção.

De resto, não há nada mais ridículo que a virtuosa indignação de nossos burgueses a respeito da comunidade de mulheres que julgam ser fundada pelos comunistas. Os comunistas não têm necessidade de introduzir a comunidade de mulheres: ela existe praticamente desde tempos imemoriais.

Nossos burgueses, não contentes em dispor das mulheres e filhas dos proletários, sem falar das prostitutas, têm o maior prazer em seduzir as esposas uns dos outros.

O casamento burguês, é, de fato, uma comunidade de mulheres casadas e, portanto, o máximo que se poderia criticar nos comunistas é pretenderem substituir uma comunidade de mulheres hipócrita e disfarçada por uma que seria franca e oficial. Quanto ao resto, é evidente que a abolição do atual sistema de produção causará o desaparecimento da comunidade de mulheres a ele inerente, ou seja, a prostituição pública e particular.

Ademais, os comunistas são acusados de querer abolir a pátria e a nacionalidade.

Os trabalhadores não têm pátria. Não podemos tomar deles aquilo que não possuem. Como o proletariado pretende adquirir a supremacia política, tornar-se a classe dirigente da nação, tornar-se a própria nação, é nesse sentido, ele mesmo nacional, embora não no sentido burguês da palavra.

As diferenciações e os antagonismos entre os povos desaparecem dia a dia, devido ao desenvolvimento da burguesia, à liberdade de comércio, ao mercado mundial, à uniformidade na forma de produção e às condições de existência correspondente.

A supremacia do proletariado os fará desaparecer ainda mais rápido. A ação comum nos países civilizados é uma das principais condições de emancipação do proletariado.

À medida em que se suprime a exploração do homem pelo homem, suprime-se também a exploração de uma nação pela outra. A utilidade entre as nações desaparecerá à proporção que desaparecer o antagonismo entre as classes no interior dessas nações.

As acusações feitas ao comunismo de um ponto de vista religioso, filosófico e, em geral, ideológico não merecem um exame aprofundado.

Será preciso grande perspicácia para compreender que as idéias dos homens, suas noções e concepções, numa palavra, que a consciência do homem se modifica com cada mudança nas condições de sua existência material, em suas relações sociais, em sua vida social?

O que demonstra a história das idéias senão que a produção intelectual se modifica à proporção que se modifica a produção material? As idéias dominantes de uma época são sempre as idéias da classe dominante.

Quando se fala de idéias que revolucionam a sociedade, isso quer dizer que dentro da velha sociedade surgem elementos de uma nova sociedade, e que a dissolução das antigas idéias acompanham a dissolução das antigas condições de vida.

Quando o mundo antigo declinava, as religiões foram substituídas pelo cristianismo; quando, no século XVIII, as idéias cristãs cederam lugar ao racionalismo, a sociedade feudal travava sua batalha fatal com a burguesia, então revolucionária. As idéias de liberdade religiosa e de liberdade de consciência foram apenas a expressão do império da livre concorrência no domínio do conhecimento.

“Sem duvida”, dir-se-á, “as concepções religiosas, morais, filosóficas e jurídicas modificaram-se durante o desenvolvimento histórico. Mas a religião, a moral, a filosofia, a ciência política e o direito mantiveram-se sempre atrás dessa mudança.

“Ademais, há verdades eternas, como a liberdade, a justiça etc., que são comuns a todos os regimes sociais. O comunismo, porém, abole as verdades eternas, abole a religião e a moral, ao invés de constituí-las sobre uma nova base, o que contradiz toda a experiência histórica anterior.”

A que se reduz essa acusação? A história da sociedade constituiu no desenvolvimento de antagonismos de classe que assumiram formas diferentes nas diversas épocas.

Mas, fosse qual fosse a forma que esses antagonismos tomaram, um fato é comum a todas as épocas, isto é, a exploração de uma parte da sociedade por outra. Portanto, não é espantoso que a consciência social de todos os séculos, a despeito de sua multiplicidade e variedade, se tenha movido sempre dentro de certas formas comuns, ou idéias gerais, que só podem desaparecer com o desaparecimento dos antagonismos de classes.

A revolução comunista é a ruptura mais radical com as relações tradicionais; não é de se estranhar, portanto, que seu desenvolvimento acarrete o rompimento mais radical com as idéias tradicionais.

Mas deixemos de lado as objeções burguesas ao comunismo. Vimos acima que a primeira etapa da revolução operária é erguer o proletariado à posição de classe dominante, à conquista da democracia.

O proletariado utilizará sua supremacia para arrancar, pouco a pouco, todo o capital à burguesia, centralizando os instrumentos de produção nas mãos do Estado, ou seja, do proletariado organizado em classe dominante, e para aumentar o mais rápido possível o total das forças produtivas.

Naturalmente, no princípio isso só poderá realizar-se por uma violação despótica dos direitos de propriedade e das relações burguesas de produção, isto é, por medidas que, do ponto de vista econômico, parecerão insuficientes e insustentáveis, mas que no desenrolar do movimento ultrapassarão a si mesmas, acarretarão novas modificações na antiga ordem social e serão indispensáveis para transformar radicalmente o modo de produção.

É claro que tais medidas assumirão formas diferentes nos diversos países. Nos países mais adiantados, no entanto, as seguintes medidas poderão ser postas em prática.

1) Expropriação da propriedade territorial e emprego da renda e proveito do Estado.
2) Imposto fortemente progressivo.
3) Abolição do direito de herança.
4) Confisco da propriedade de todos os emigrantes e sediciosos.
5) Centralização do crédito nas mãos do Estado, por meio de um banco nacional com capital do Estado e com o monopólio exclusivo.
6) Centralização dos meios de comunicação e transporte nas mãos do Estado.
7) Multiplicação das fábricas e meios de produção possuídos pelo Estado; o cultivo das terras improdutivas e o aprimoramento do solo em geral, segundo um plano.
8) Trabalho obrigatório para todos; estabelecimento de exércitos industriais, especialmente para a agricultura.
9) Combinação da agricultura com as industrias manufatureiras e abolição gradual da distinção entre a cidade e o campo, por meio de uma distribuição mais igualitária da população pelo país.
10) Educação gratuita para todas as crianças, em escolas públicas, abolição do trabalho infantil nas fábricas, tal como é feito atualmente. Combinação da educação com a produção industrial etc.

Quando, no curso do desenvolvimento, desaparecerem todas as distinções de classes e toda a produção concentrar-se nas mãos da associação de toda a nação, o poder público perderá seu caráter político. O poder político propriamente dito é o poder organizado de uma classe para oprimir a outra. Se o proletariado em sua luta contra a burguesia é forçado pelas circunstâncias a organizar-se em classe; se se torna, mediante uma revolução, classe dominante, destruindo violentamente as antigas relações de produção, destrói com essa relações as condições dos antagonismos de classes em geral e, com isso, extingue sua própria dominação como classe.

Em lugar da antiga sociedade burguesa, com suas classes e antagonismos de classes, haverá uma associação na qual o livre desenvolvimento de cada um é a condição do livre desenvolvimento de todos.

III. LITERATURA SOCIALISTA E COMUNISTA

 1. O SOCIALISMO REACIONÁRIO

A) O SOCIALISMO FEUDAL

DEVIDO À SUA POSIÇÃO HISTÓRICA, as aristocracias da França e da Inglaterra tenderam a escrever libelos contra a moderna sociedade burguesa. Na Revolução Francesa de julho de 1830 e no movimento reformador inglês, essas aristocracias sucumbiram mais uma vez diante dessa arrivista odiosa. A partir daí, uma luta política séria era inconcebível. Somente uma contenda literária era possível. Mas, mesmo no domínio da literatura, as antigas exigências da restauração [5] tornaram-se impossíveis.

Para criar simpatias, a aristocracia viu-se obrigada a deixar de lado, aparentemente, seus próprios interesses e a formular uma acusação contra a burguesia, aparentando defender unicamente os interesses da classe trabalhadora. Assim, a aristocracia vingou-se cantando sátiras sobre os novos senhores, murmurando-lhes aos ouvidos profecias sinistras sobre a catástrofe inevitável.

Dessa maneira, surgiu o socialismo feudal: metade lamentações, metade libelos, ecos do passado e ameaças sobre o futuro, às vezes ferindo a burguesia no coração com sua crítica amarga, mordaz e espirituosa, porém obtendo sempre um efeito cômico, devido à sua impotência absoluta de compreender a marcha da História moderna.

Para atrair o povo, a aristocracia arvorou, à guisa de bandeira, a sacola do mendigo. Mas, assim que ocorreu, o povo percebeu que suas costas estavam ornadas com velhos brasões feudais e dispersou-se às gargalhadas.

Uma fração dos legitimistas franceses e a “jovem Inglaterra” deram um espetáculo desse tipo.

Ao afirmar que seu modo de exploração diferia dos da burguesia, os campeões do feudalismo esquecem-se que o feudalismo explorava em condições e circunstâncias bem diferentes e hoje em dia antiquadas. Ao ressaltarem que, sob o seu domínio não existia o proletariado, esquecem-se que a moderna burguesia é um fruto necessário de seu regime social.

Além disso, disfarçam tão mal o caráter reacionário de sua crítica que a principal acusação que fazem contra a burguesia consiste em que sob o regime burguês se desenvolve uma classe que fará ir pelos ares toda a antiga ordem social.

O que mais reprova à burguesia não é o fato de ter criado um proletariado, mas de ter criado um proletariado revolucionário.

Portanto, na prática política colaboram com todas as medidas repressivas contra a classe trabalhadora; e na vida diária, a despeito de sua pomposa fraseologia, conformam-se em colher os frutos de ouro da árvore da indústria e trocar a verdade, o amor e a honra pelo comércio de lã, de açúcar de beterraba e de aguardente. [6]

Assim como o pároco sempre caminhou de mãos dadas com o senhor feudal, o socialismo clerical caminha lado a lado com o socialismo feudal.

Não há nada mais fácil do que dar um verniz socialista ao ascetismo cristão. O cristianismo não se manifestou contra a propriedade privada, contra o matrimônio e o Estado? Em lugar deles, não pregou a caridade e a nobreza, o celibato e mortificação da carne, a vida monástica e a Igreja? O socialismo cristão é a água benta com que o padre consagra o despeito da aristocracia.

B) O SOCIALISMO PEQUENO-BURGUÊS

A aristocracia feudal não foi a única classe que a burguesia arruinou, a única cujas condições de existência se enfraquecem e perecem na sociedade burguesa. Os pequenos burgueses e os pequenos camponeses da Idade Média foram os precursores da burguesia moderna. Nos países de baixo nível de desenvolvimento industrial e comercial, essas classes ainda vegetam lado a lado com a burguesia em ascensão.

Nos países nos quais a civilização moderna se desenvolveu completamente, formou-se uma classe de pequenos burgueses, que oscila entre o proletariado e a burguesia, renovando-se sempre como fração suplementar da burguesia. Os membros desta classe, no entanto, se vêem constantemente precipitados no proletariado devido à competição, e à medida que a indústria moderna se desenvolve vêem-se na iminência de desaparecerem como um setor independente da sociedade moderna, sendo substituídos na manufatura, na agricultura, no comércio, por supervisores, capatazes e empregados.

Nos países como a França, onde os camponeses constituem mais da metade da população, é natural que os escritores que apoiavam o proletariado contra a burguesia usassem, em sua crítica à sociedade burguesa, camponeses e pequenos burgueses, defendendo a classe operaria segundo este ponto de vista. Assim surgiu o socialismo pequeno-burguês. Sismondi é o chefe dessa escola, não somente na França, mas também na Inglaterra.

Esse socialismo analisou objetivamente as contradições das relações modernas de produção. Pôs a nu as apologias hipócritas dos economistas. Mostrou, sem duvida, os efeitos desastrosos da maquina e da divisão de trabalho; a concentração do capital e da terra nas mãos de alguns poucos; a super produção e as crises; ressaltou a ruína inevitável do pequeno burguês e do camponês, a miséria do proletariado, a anarquia na produção, a acintosa desproporção na distribuição das riquezas, a guerra industrial de extermínio entre as nações, a dissolução dos antigos costumes, das antigas relações familiares, das antigas nacionalidades.

Entretanto a finalidade real dessa forma de socialismo é ou restabelecer os antigos meios de produção e troca, e com eles as antigas relações de propriedade e a antiga sociedade, ou tentar fazer entrar à força os meios modernos de produção e troca no quadro das antigas relações de propriedade que foram, necessariamente destruídas, por eles. Em qualquer dos dois casos, é reacionário e utópico.

Suas últimas palavras são guildas corporativas para a manufatura; relações patriarcais na agricultura. Por fim, quando os obstinados fatos históricos fizeram passar completamente o efeito de embriaguez, essa forma de socialismo caiu numa verdadeira prostração de espírito.

C) O SOCIALISMO ALEMÃO OU O “VERDADEIRO” SOCIALISMO

A literatura socialista e comunista da França, nascida sobre a pressão da burguesia no poder, expressão da luta contra esse poder, foi introduzida na Alemanha numa época em que a burguesia apenas começara na luta com o absolutismo feudal.

Os filósofos alemães, semi-filósofos e homens de letras lançaram-se avidamente sobre essa literatura, esquecendo-se apenas do fato de que as condições sociais da França não emigraram para a Alemanha com a importação da literatura francesa. Nas condições sociais alemã, tal literatura perdeu sua importância prática, assumindo um aspecto puramente literário. Portanto, para os filósofos alemães do século XVIII as reivindicações da Revolução Francesa não eram mais do que as reivindicações da “razão prática” em geral e a manifestação da vontade da burguesia revolucionária francesa expressava apenas as leis da pura vontade da burguesia revolucionária francesa, da vontade tal como deve ser, da verdade humana em geral.

O trabalho dos literati alemães consistiu unicamente em conciliar as idéias francesas com sua velha consciência filosófica, ou melhor, de incorporar as idéias francesas sem abandonar seu próprio ponto de vista filosófico.

Incorporam-nas da mesma maneira como se assimila uma língua estrangeira, isto é, pela tradução.

Sabe-se que os monges recobriam os manuscritos da obras clássicas da antigüidade pagã com lendas absurdas sobre santos católicos. Os literati alemães agiram em sentido inverso a respeito da literatura francesa profana. Escreveram suas insanidades filosóficas sob o original francês. Por exemplo, sob a crítica francesa às funções econômicas do dinheiro escreveram “alienação humana”, e sob a crítica francesa ao estado burguês escreveram “eliminação do poder da categoria do universal”, e assim por diante.

À introdução dessa fraseologia filosófica nas críticas históricas francesas deram o nome de “filosofia da ação”, “verdadeiro socialismo”, “fundamentos filosóficos do socialismo” etc.

Assim, enfraqueceram completamente a literatura socialista e comunista francesa. E, como nas mãos dos alemães ela deixou de ser expressão da luta de uma classe com outra, eles se felicitaram por terem superado a “estreiteza francesa” e por representarem, não verdadeiras necessidades, mas as necessidades da verdade; não os interesses do proletariado, mas os interesses da natureza humana, do homem em geral, que nada tem de real e existe apenas no céu brumoso da fantasia filosófica.

Esse socialismo alemão que levava tanto a sério as suas tarefas escolares e que a apregoava tão charlatanescamente, começou pouco a pouco a perder sua inocência pretensiosa.

A luta da burguesia alemã, e principalmente da prussiana, contra a aristocracia feudal e a monarquia absoluta, ou, em outras palavras, o movimento liberal, tornou-se mais enérgica.

Desse modo, apresentou-se ao “verdadeiro” socialismo a tão esperada oportunidade de confrontar o movimento político com as reivindicações socialistas, de lançar os anátemas tradicionais contra o liberalismo, contra o governo representativo, contra a concorrência burguesa, a liberdade burguesa de imprensa, a legislação burguesa, a igualdade e liberdade burguesa; pôde pregar às massas que nada tinham a ganhar, mas muito a perder com esse movimento burguês. O socialismo alemão esqueceu, muito a propósito, que a crítica francesa, da qual era um mero eco, pressupunha a existência da moderna sociedade burguesa, com suas correspondentes condições econômicas de existência e a sua constituição política própria, precisamente aquilo que era ainda o objetivo da luta na Alemanha.

Para os governos absolutos, com seu séquito de padres professores, fidalgos rurais e burocratas, esse socialismo converteu-se em espantalho para a burguesia ameaçadora.

Servia de fecho de ouro aos tiros e às chicotadas com que esses mesmos governos respondiam aos levantes da classe operária alemã.

Ao mesmo tempo em que o “verdadeiro” socialismo foi, para os governos, uma arma contra a burguesia alemã, representou também um interesse reacionário, o interesse dos filisteus alemães. Na Alemanha, a classe pequeno-burguesa, legada pelo século XVI e desde então renascendo sem cessar sob formas diversas, é a verdadeira base social do estado de coisas vigente.

Preservar essa classe é preservar o estado de coisa existente na Alemanha. A supremacia industrial e política da burguesia ameaçam a pequena burguesia de destruição — de um lado, pela concentração de capital; do outro, por um levante do proletariado revolucionário. O “verdadeiro” socialismo aparecia como uma arma capaz de liquidar os dois perigos de uma só vez. Propagou-se como uma epidemia.

A roupagem tecida com os fios imateriais da especulação, bordada com as flores da retórica e banhada de orvalho sentimental, essa roupagem, na qual os socialistas alemães envolveram as suas lamentáveis e decadentes “verdades eternas”, aumentou maravilhosamente a venda de sua mercadoria entre tal público. Por sua vez, o socialismo alemão aceitou cada vez mais a sua vocação de representante grandiloqüente da filistéia pequeno-burguesa.

Proclamou que a nação alemã era a nação-modelo, e que o pequeno burguês alemão era o homem típico. A todas as mesquinharias desse homem-modelo atribuiu um sentido oculto, elevado, socialista, exatamente o contrário do seu caráter real. Chegou ao extremo de opor-se à tendência “brutalmente destruidora” do comunismo, proclamado o seu desprezo imparcial às lutas de classes. Com muito poucas exceções, todas as pretensas publicações socialistas e comunistas que circulam agora (1847) na Alemanha pertencem ao domínio dessa literatura imunda e enervante. [7]

 2. O SOCIALISMO CONSERVADOR OU BURGUÊS

Uma parte da burguesia deseja remediar os custos sociais para garantir a continuidade da sociedade burguesa.

A esse setor pertencem economistas, filantropos, humanitários, os que procuram melhorar as condições da classe operária, os organizadores de beneficências, os membros de sociedades protetoras de animais, os fanáticos das sociedades de temperança, enfim, os reformadores de gabinete de toda categoria. Essa escola socialista, além disso, organizou-se em sistemas completos.

Como exemplo, podemos citar Philosophie de La misère (A filosofia da miséria), de Proudhon.

Os socialistas burgueses querem todas as vantagens das condições sociais modernas sem as suas lutas e perigos. Querem o estado atual da sociedade sem os elementos que a revolucionam e a destroem. Desejam a burguesia sem o proletariado. Naturalmente, a burguesia concebe o mundo em que domina como o melhor dos mundos possíveis; o socialismo burguês desenvolve essa concepção consoladora em vários sistemas mais ou menos completos. Quando convida o proletariado a empreender tal sistema e dirigir-se completamente a uma nova Jerusalém social, de fato o convida a permanecer na sociedade atual, eliminando, porém, seu ódio contra a burguesia.

Uma segunda forma, mais prática e menos sistemática, desse tipo de socialismo procurou depreciar perante a classe trabalhadora todo movimento revolucionário, declarando que não será uma simples reforma política, mas a mudança nas condições materiais de existência, nas relações econômicas, que lhe será proveitosa. Por mudanças nas condições materiais de existência, no entanto, essa escola socialista não tem em mente a abolição das relações burguesas de produção, que só pode ser realizada pela revolução, mas reformas administrativas, fundamentadas na existência dessas relações; tais reformas, portanto, não afetam as relações entre o capital e o trabalho, mas, na melhor das hipóteses, diminuem os custos da burguesia, simplificando o trabalho administrativo do Estado.

O socialismo burguês só atinge uma expressão adequada quando se torna uma simples figura retórica.

Livre-câmbio: no interesse da classe operária. Tarifas protetoras: no interesse da classe operária. Reforma penitenciária: no interesse da classe operária. Eis sua última palavra, a única pronunciada seriamente pelo socialismo burguês. Reduz-se à seguinte: os burgueses são burgueses — no interesse da classe trabalhadora.

3. O SOCIALISMO E O COMUNISMO CRÍTICO-UTÓPICOS

Não se trata aqui da literatura que, em toda grande revolução moderna, foi o porta-voz das reivindicações do proletariado, como as obras de Babeuf e outros.

As primeiras tentativas do proletariado para alcançar seus objetivos, realizadas em épocas de efervescência geral, no período de destruição da sociedade feudal, falharam, devido ao estado precário do proletariado e à ausência de condições econômicas para sua emancipação, condições que só poderiam ser provocadas pela época burguesa. A literatura revolucionária que acompanhara esses primeiros movimentos do proletariado possuía, necessariamente, um caráter reacionário, inculcando o asceticismo universal e um grosseiro igualitarismo.

Os sistemas socialistas e comunistas, propriamente ditos, os de Saint-Simon, Fourier, Owen e outros, surgem no início do período acima descrito da luta entre o proletariado e a burguesia (ver a seção 1, Burgueses e proletários).

Os fundadores desses sistemas reconhecem os antagonismo de classe e a ação dos elementos destruidores na própria sociedade dominante. Mas o proletariado ainda em formação lhes parece uma classe sem qualquer iniciativa histórica ou qualquer movimento político independente.

Como o desenvolvimento dos antagonismos de classes acompanha o da indústria, a situação econômica, no seu entender, não oferece as condições materiais necessárias à emancipação do proletariado. Por isso, procuram uma nova ciência social, novas leis sociais, que criem tais condições.

À atividade histórica substituem sua própria imaginação pessoal; às condições históricas da emancipação, condições fantásticas, e à organização espontânea e gradativa do proletariado em classes em organização social pré-fabricada por eles. Em sua opinião, a história do futuro resume-se na propaganda e na realização prática de seus planos de organização social.

Na formação desses planos, compenetram-se que estão cuidando, sobretudo, dos interesses da classe operária, a classe mais sofredora. Para eles, o proletariado só existe sob o prisma de classe mais sofredora.

O estado rudimentar da luta de classes e sua própria posição social levam os socialistas dessa categoria a considerar-se superiores a todos os antagonismos de classe. Querem melhorar a condição de todos os membros da sociedade, mesmo os mais favorecidos. Portanto, em geral, apelam indistintamente para todas as classes da sociedade e, preferentemente, para a classe dominante. Pois, como poderiam as pessoas deixar de reconhecer nesse sistema, o melhor plano possível para a melhor das sociedades possíveis?

Por conseguinte, rejeitam toda ação política e, principalmente, toda ação revolucionária; procuram atingir seus objetivos por meios pacíficos e tentam abrir caminho ao novo evangelho social por experiências em pequena escala, necessariamente destinadas ao fracasso, e pela força do exemplo.

A descrição fantástica da sociedade futura, feita numa época em que o proletariado ainda se encontra num estado rudimentar e tem apenas uma concepção fantasista de sua própria posição, corresponde às primeiras aspirações instintivas dessa classe a uma transformação geral da sociedade.

Todavia, essas obras socialistas e comunistas também contêm um elemento crítico. Atacam todos os princípios da sociedade vigente. Portanto, fornecem valioso material para o esclarecimento da classe operária. As medidas práticas que propõem — tais como a supressão da distinção entre a cidade e o campo, a abolição da família, das indústrias nas mãos de particulares, do sistema de salários, a proclamação da harmonia social, a transformação do Estado em mero administrador da produção — anunciam o desaparecimento dos antagonismos de classes que mal começam e que são encarados por tais obras de maneira indefinida e imprecisa. Por conseguinte, essas medidas possuem um caráter simplesmente utópico.

A importância do socialismo e do comunismo crítico-utópicos está na razão inversa do desenvolvimento histórico. À medida que se forma e se desenvolve a moderna luta de classes, o fantástico afã de abstrair-se dela, os ataques que lhe são feitos, perdem todo o valor prático e toda a justificação teórica. Por isso, embora os fundadores desses sistemas fossem revolucionários em certos aspectos, seus discípulos formaram meras seitas reacionárias, pois se prendem às concepções de seus mestres, apesar do desenvolvimento histórico do proletariado. Procuram consistente-mente atenuar a luta de classes, conciliando os antagonismos. Sonham com a realização experimental de suas utopias sociais, com phalanstères isolados, com a criação de colônias internas, ou com o estabelecimento da Pequena Icária [8] — edições de bolso da Nova Jerusalém — para realizar tais castelos no ar, vêem-se obrigados a apelar para os sentimentos e os cofres dos burgueses. Pouco a pouco, caem na categoria dos socialistas conservadores ou reacionários, acima descrita, deles diferindo apenas por um pedantismo mais sistemático e uma fé fanática e supersticiosa nos efeitos miraculosos de sua ciência social.

Portanto, opõem-se a qualquer ação política da parte da classe operária; tal ação, segundo eles, só poderia provir de uma cega falta de fé no novo evangelho.

Os owenistas, na Inglaterra, e os fourieristas, na França, opõem-se aos cartistas e aos “réformistes” [9], respectivamente.

IV. A POSIÇÃO DOS COMUNISTAS EM RELAÇÃO AOS VÁRIOS PARTIDOS DE OPOSIÇÃO

A SEÇÃO II SERVIU PARA ESCLARECER as relações dos comunistas com os partidos operários existentes, como os cartistas, na Inglaterra, e os reformadores agrários, na América do Norte.

Os comunistas combatem pelos interesses e objetivos imediatos da classe operária; mas, no movimento do presente, também representam e se encarregam de seu futuro. Na França, os comunistas aliam-se com os sociais-democratas [10] contra a burguesia conservadora e radical, reservando-se o direito de assumir uma posição crítica em relação aos chavões e às falsas concepções legados pela Grande Revolução.

Na Suíça, apóiam os radicais, sem perder de vista o fato de que esse partido é formado por elementos antagônicos, parte democratas-socialistas, no sentido francês da palavra, parte burgueses radicais.

Na Polônia, apóiam o partido que defende uma revolução agrária como primeira condição para a emancipação nacional, o partido que fomentou a insurreição de Cracóvia, em 1846.

Na Alemanha, lutam de acordo com a burguesia, sempre que esta age revolucionariamente contra a monarquia absoluta, a hierarquia feudal e a pequena burguesia.

Mas o Partido Comunista nunca se esquece de despertar nos operários uma consciência nítida do antagonismo hostil entre a burguesia e o proletariado, para que os trabalhadores alemães usem adequadamente, como armas contra a burguesia, as condições sociais necessariamente criadas pelo regime burguês, a fim de que, uma vez destruídas as classes reacionárias na Alemanha, possa ser travada a luta contra a própria burguesia.

Os comunistas concentram suas atenções na Alemanha porque este país se encontra às vésperas de uma revolução burguesa, a concretizar-se nas condições mais avançadas da civilização européia, com um proletariado mais desenvolvido do que o da Inglaterra, no século XVII e o da França, no século XVIII, e porque a revolução burguesa na Alemanha será o prelúdio imediato de uma revolução proletária.

Em suma, em toda parte os comunistas apoiam todo o movimento revolucionário contra a ordem social e política vigente. Em todos esses movimentos põem em primeiro lugar, como questão fundamental, a questão da propriedade, não obstante o grau de desenvolvimento alcançado na época.

Finalmente, em toda parte os comunistas trabalham pela união e entendimento dos partidos democratas de todos os países.

Os comunistas não se rebaixam em dissimular suas idéias e seus objetivos. Declaram abertamente que seus fins só poderão ser alcançados pela derrubada violenta das condições sociais existentes. Que as classes dominantes tremam diante da revolução comunista! Os proletários nada têm a perder senão os seus grilhões. Têm um mundo a ganhar.

Proletários de todos os países, uni-vos!

Notas:

[1] Por burguesia entende-se a classe dos capitalistas modernos, proprietários dos meios de produção social que empregam o trabalho assalariado. Por proletariado, a classe de assalariados modernos que, não tendo meios próprios de produção, são obrigados a vender sua força de trabalho para sobreviverem. (Nota de F. Engels à edição inglesa de 1888.)
[2] Isto é, toda história escrita. A pré-história, a organização social anterior à história escrita, era desconhecida em 1847. Mais tarde, Haxthausen (August von, 1792-1866) descobriu a propriedade comum da terra na Rússia, Maurer (Georg Ludwig von) mostrou ter sido essa a base social da qual as tribos teutônicas derivaram historicamente, pouco a pouco, verificou-se que a comunidade rural era a forma primitiva da sociedade, desde a Índia até a Irlanda. A organização interna dessa sociedade comunista primitiva foi desvendada, em sua forma típica, pela descoberta de Morgan (Lewis Henry, 1818-81) da verdadeira natureza da gens e de sua relação com a tribo. Após a dissolução dessas comunidades primitivas, a sociedade na obra Der Ursprung der Familie, des Privatergenthums und des Staats (A origem da família, da propriedade privada e do Estado), 2ª ed., Stuttgart 1866. (Nota de F. Engels à edição inglesa de 1888.)
[3] O mestre de corporação é um membro da guilda, o patrão interno, não um chefe da guilda. (Nota de F. Engels à edição inglesa de 1888).
[4] Os habitantes das cidades da Itália e da França assim chamavam as suas comunidades urbanas, depois de haverem comprado ou conquistado aos senhores feudais seus primeiros direitos a um Governo autônomo. (Nota de F. Engels à edição alemã de 1890).
“Comuna” era o nome que se dava na França às cidades nascentes, mesmo antes de terem conquistado a autonomia local e os direitos políticos de Terceiro Estado. Em geral, a Inglaterra é o exemplo típico do desenvolvimento econômico da burguesia, enquanto a França o de seu desenvolvimento político. (Nota de F. Engels à edição inglesa de 1888).
[5] Não se trata da restauração inglesa de 1660 a 1689, mas da restauração francesa, de 1814-1830. (Nota de F. Engels à edição inglesa de 1888).
[6] Isto se refere, sobretudo, à Alemanha, onde os latifundiários aristocratas cultivam, por conta própria, grande parte de suas terras, com a ajuda de administradores e são, além disso, produtores de açúcar de beterraba e destiladores de aguardente. Os mais prósperos aristocratas britânicos não chegaram ainda a tanto; porém, também sabem como compensar a diminuição de suas rendas, emprestando seus nomes aos fundadores de toda classe de sociedades anônimas. de reputação mais ou menos duvidosa (Nota de Engels à edição inglesa de 1888).
[7] A tormenta revolucionária de 1848 varreu toda essa lastimável escola e tirou a seus partidários qualquer vontade de continuar brincando de socialismo. O principal representante e o tipo clássico desta escola é o Sr. Karl Grun. [Nota de Engels A edição alemã de 1890).
[8] Phalanstères eram chamadas as colônias socialistas projetadas por Charles Fourier. Icária era o nome dado por Cabet a seu país utópico e, mais tarde, à sua colônia comunista na América. (Nota de F, Engels à edição inglesa de 1888). Owen chamou suas sociedades comunistas modelares de home-colonies (colônias no interior). Falanstério era o nome dos palácios sociais imaginados por Fourier. Chama-se Icária o pais fantástico cujas instituições comunistas Cabet descreve. (Nota de F. Engels à edição alemã de 1888).
[9} Refere-se aos partidários do jornal Le Réforme, que se editava em Paris entre os anos 1843-1850.
[10] Este partido era representado: no Parlamento, por Ledru-Rollin, na literatura por Luís Blanc, na imprensa diária por Le Réforme. O nome, democrata-socialista, significava, nos lábios de seus inventores, a parte do partido democrático ou republicano que tinha uma colorarão mais ou menos socialista. (Nota de F. Engels A edição inglesa de 1388). O que então se chamava, na Franca, Partido Democrata-Socialista era representado na política por Ledru-Rollin e na literatura por Luís Blanc; estava, pois, a cem mil léguas de social-democracia alemã atual. (Nota de F. Engels à edição alemã de 1890)

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BOLÍVIA  (ATUALIDADES) escrito em terça 30 outubro 2007 20:02

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 Fonte: FOLHA.COM

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