ROMANTISMO
Prefácio a Sonhos d'ouro:
"A primitiva, que se pode chamar aborígene, são as lendas e mitos da terra selvagem e conquistada; são as tradições que embalam a infância do povo [...]. Iracema pertence a essa literatura primitiva"
a) Linguagem
Numa carta enviada ao Dr. Jaguaribe, em agosto de 1865, Alencar assim se referiu à obra:
“O conhecimento da língua indígena é o melhor critério para a nacionalidade da literatura. Ele nos dá não só o verdadeiro estilo, como as imagens poéticas dos selvagens, os modos de seu pensamento, as tendências de seu espírito, e até as menores particularidades de sua língua.
É nessa fonte que deve beber o poeta brasileiro; é dela que há de sair o verdadeiro poema nacional como eu o imagino [...]”
Assim, torna-se interessante ilustrar essa preleção do autor com alguns exemplos:
Ceará = cemo (cantar forte) + ara (pequena arara ou periquito)
Tabajaras = taba (aldeia) + jara (senhor)
Pitiguaras= piti (vales) + jara (senhor)
Jurema = ju (espinho) + rema (cheiro desagradável) - árvore meã, de folhagem espessa, de fruto excessivamente amargo, tem um efeito de narcótico.
Jacaúna = jaca (jacarandá) = una (preto)
Coatiabo = coatiá (pintar) + abo (criatura)
Moacir = moaci (dor) + ira (saído de)
Iracema = Na nota nº 2 do autor se encontra, a explicação de que Iracema tem origem no guarani: ira, mel e tembe, lábios, no entanto, trata-se de livre criação.
É de fundamental importância não esquecer com que talento o autor descreve paisagens, personagens, fatos, desnudando diante do leitor uma verdadeira pintura (com palavras) do que transcorre em narrativa. Assim a adjetivação é extremamente forte em seu texto.
b) Personagens
Iracema:
Filha de Araquém (o pajé)
Virgem sagrada
Forte, sedutora, mas submissa
Heroína trágica
Espírito harmoniosos e romântico da floresta virgem americana
“a virgem dos lábios de mel, cabelos negros como a asa da graúna e mais longos que seu talhe de palmeira“. Guardiã do segredo de jurema, a filha do pajé Araquém possui atributos físicos e psíquicos rigorosamente concebidos
De acordo com sua natureza selvagem.
O nome de Iracema seria o anagrama da palavra América.
Martim:
Guerreiro branco: colonizador europeu;
Segundo o autor: "procedente de Marte"
Amigo dos potiguaras;
Nome indígena: Coitiabo, "guerreiro pintado" - "Tinha nas faces o branco das areias, nos olhos o azul triste das águas e os cabelos da cor do sol"
“[...] tem nas faces o branco das areias que bordam o mar, nos olhos o azul triste das águas profundas”. Representa o colonizador europeu, um cavalheiro caracterizado pela atitudes éticas da terra portuguesa de onde provém: a fé, a honra, a lealdade. Esse personagem - Martim Soares Moreno - é real, histórico, responsável pela colonização do Ceará.
Moacir:
Filho do sofrimento da heroína, representa o primeiro brasileiro, fruto da união entre colonizador (o europeu) e colonizado (o índio).
Filho do sofrimento: de Moacy, dor e ira, saído de;
Símbolo e metonímia: cearense; brasileiro
Poti:
Antônio Felipe Camarão, personagem histórico, um índio Pitiguara que simboliza a amizade dedicada aos portugueses.
Herói potiguara;
Irmão de Jacaúna, chefe dos potiguaras
"Irmão" de Martim (o homem branco);
Personagem histórico
Araquém:
Pajé da tribo Tabajara, pai de Iracema, representa a sabedoria da velhice.
Caubi:
Irmão de Iracema, o “senhor dos caminhos”.
Não guardou rancor da irmã, indo visitá-la no exílio
Irapuã:
Irapuã = mel redondo
Inimigo de Martim
Pretendente de Iracema
Chefe dos tabajaras
Ciumento e corajosos
Apaixonado por Iracema
Batuirité:
Avô de Poti que profetiza a destruição dos índios pelos brancos e nomeia Martim - Gavião Branco.
Jacaúna:
irmão de Poti.
ARGUMENTO HISTÓRICO
Em 1603, Pêro Coelho, homem nobre da Paraíba, partiucomo capitão-mor de descoberta, levando uma força de 80 colonos e 800 índios. Chegou à Foz do Jaguaribe e aí fundou o povoado que teve o nome de “Nova Lisboa”.
Foi esse o primeiro estabelecimento colonial do Ceará.
Como Pêro Coelho se visse abandonado dos sócios, mandaram-lhe João Soromenho com socorros. Esse oficial, autorizado a fazer cativos para indenização das despesas, não respeitou os próprios índios do Jaguaribe, amigos dos portugueses. Retiraram-se os colonos pelas hostilidades dos indígenas. Pêro Coelho ficou ao desamparo, obrigado a voltar a Paraíba por terra, com sua mulher e filhos pequenos.
Na primeira expedição foi ao Rio Grande do Norte um moço de nome Martim Soares Moreno, que se ligou de amizade com Jacaúna, chefe dos índios do litoral e seu irmão Poti. Poti recebeu o nome de Antônio Felipe Camarão, e ilustrou a invasão holandesa. Seus serviços foram remunerados com o fôro de fidalgo, a comenda de Cristo e o cargo de capitão-mor dos índios.
Martim chegou a mestre-de-campo e foi um dos excelentes cabos portugueses que libertaram o Brasil da invasão holandesa. O Ceará deve honrar sua memória como o de um varão prestante e seu verdadeiro fundador, pois que o primeiro povoado à foz do Jaguaribe não passou de uma tentativa frustrada.
Este é o argumento histórico da lenda. São de Alencar as seguintes palavras a esse respeito:
“O assunto para a experiência de antemão estava achado. Quando em 1848 revi nossa terra natal, tive a idéia de aproveitar suas lendas e tradições em alguma obra literária. Já em S. Paulo havia começado uma biografia de Camarão. Sua mocidade, a amizade heróica que o ligava a Soares Moreno, a bravura e lealdade de Jacaúna, aliado dos portugueses e suas guerras contra o célebre Mel redondo; aí estava o tema. Faltava-lhe o perfume que derrama sobre as paixões do homem e da mulher.”
De Iracema, dirá Machado de Assis no Diário do Rio de Janeiro:
“Tal é o livro do Sr. José de Alencar, fruto do estudo e da meditação, escrito com sentimento e consciência… Há de viver este livro, tem em si as forças que resistem ao tempo, e dão plena fiança do futuro… Espera-se dele outros poemas em prosa. Poema lhe chamamos a este, sem curar de saber se é antes uma lenda, se um romance: o futuro chamar-lhe-á obra-prima”.
"Na primeira expedição foi um moço de nome Martim Soares Moreno, que se ligou de amizade com Jacaúna, chefe do índios do litoral e seu irmão Poti. Em 1608, por ordem de D. Diogo de Menezes, voltou a dar princípio à regular colonização daquela capitania"
"Jacaúna, que habitava as margens do Acaracu, veio estabelecer-se com sua tribo nas proximidades do recente povoado, para o proteger contra os índios do interior e os franceses que infestavam a costa".
"Este é o argumento histórico da lenda [...] para que não me censurem de infiel à verdade histórica".
Argumento Histórico - Em 1603, Pero Coelho, homem nobre da Paraíba, partiu como capitão-mor de descoberta, levando uma força de 80 colonos e 800 índios. Chegou à foz do Jaguaribe e aí fundou o povoado que teve o nome de Nova Lisboa.
Foi esse o primeiro estabelecimento colonial do Ceará.
Como Pero Coelho se visse abandonado dos sócios, mandaram-lhe João Soromenho com socorros. Esse oficial, autorizado a fazer cativos para indenização das despesas, não respeitou os próprios índios do Jaguaribe, amigos dos portugueses.
Tal foi a causa da ruína do nascente povoado. Retiraram-se os colonos, pelas hostilidades dos indígenas; e Pero Coelho ficou ao desamparo, obrigado a voltar à Paraíba por terra, com sua mulher e filhos pequenos.
Na primeira expedição foi do Rio Grande do Norte um moço de nome Martim Soares Moreno, que se ligou de amizade com Jacaúna, chefe dos índios do litoral, e seu irmão Poti. Em 1608 por ordem de D. Diogo Meneses voltou a dar princípio à regular colonização daquela capitania: o que levou a efeito fundando o presídio de Nossa Senhora do Amparo em 1611.
Jacaúna, que habitava as margens do Acaracu, veio estabelecer-se com sua tribo nas proximidades do recente povoado, para o proteger contra os índios do interior e os franceses que infestavam a costa.
Poti recebeu no batismo o nome de Antônio Felipe Camarão, que ilustrou na guerra holandesa. Seus serviços foram remunerados com o foro de fidalgo, a comenda de Cristo e o cargo de capitão-mor dos índios.
Martim Soares Moreno chegou a mestre-de-campo e foi um dos excelentes cabos portugueses que libertaram o Brasil da invasão holandesa. O Ceará deve honrar sua memória como a de um varão prestante e seu verdadeiro fundador, pois que o primeiro povoado à foz do rio Jaguaribe foi apenas uma tentativa frustrada.
Este é o argumento histórico da lenda; em notas especiais se indicarão alguns outros subsídios recebidos dos cronistas do tempo.
Há uma questão histórica relativa a este assunto; falo da pátria do Camarão, que um escritor pernambucano quis pôr em dúvida, tirando a glória ao Ceará para a dar à sua província.
Este ponto, aliás somente contestado nos tempos modernos pelo Sr. comendador Melo em suas Biografias, me parece suficientemente elucidado já, depois da erudita carta do Sr. Basílio Quaresma Torreão, publicada no Mercantil nº 26 de 26 de janeiro de 1860, 2ª página.
Entretanto farei sempre uma observação.
Em primeiro lugar, a tradição oral é uma fonte importante da História, e às vezes a mais pura e verdadeira. Ora, na província de Ceará, em Sobral, não só referiam-se entre gente do povo notícias do Camarão, como existia uma velha mulher que se dizia dele sobrinha. Essa tradição foi colhida por diversos escritores, entre eles o conspícuo autor da Corografia Brasílica.
O autor do Valeroso Lucideno é dos antigos o único que positivamente afirma ser Camarão filho de Pernambuco; mas além de encontrar essa asserção a versão de outros escritores de nota, acresce que Berredo explica perfeitamente o dito daquele escritor, quando fala da expedição de Pero Coelho de Souza a Jaguaribe, sítio naquele tempo e também no de hoje da jurisdição de Pernambuco.
Outro ponto é necessário esclarecer para que não me censurem de infiel à verdade histórica. É a nação de Jacaúna e Camarão que alguns pretendem ter sido a tabajara.
Há nisso manifesto engano.
Em todas as crônicas se fala das tribos de Jacaúna e Camarão como habitantes do litoral, e tanto que auxiliam a fundação do Ceará, como já haviam auxiliado a da Nova Lisboa em Jaguaribe. Ora, a nação que habitava o litoral entre o Parnaíba e o Jaguaribe ou Rio-Grande era a dos pitiguaras, como atesta Gabriel Soares. Os tabajaras habitavam a serra de Ibiapaba, e portanto o interior.
Como chefes dos tabajaras são mencionados Mel Redondo no Ceará e Grão Deabo em Piauí. Esses chefes foram sempre inimigos irreconciliáveis e rancorosos dos portugueses, e aliados dos franceses do Maranhão que penetraram até Ibiapaba. Jacaúna e Camarão são conhecidos por sua aliança firme com os portugueses.
Mas o que solve a questão é o seguinte texto. Lê-se nas Memórias diárias da guerra brasílica do conde de Pernambuco: - 1634, janeiro, 18: «Pelo bom procedimento com que havia servido A. F. Camarão o fez El-rei capitão-mor de todos os índios não somente de sua nação, que era Pitiguar, nas das outras residentes em várias aldeias.»
Esta autoridade, além de contemporânea, testemunhal, não pode ser recusada, especialmente quando se exprime tão positiva e intencionalmente a respeito do ponto duvidoso.
Fonte: Cervantes Virtual
Argumento histórico X Lenda
Realidade X Imaginação
A trama busca dar credibilidade à lenda
Autocrítica de José de Alencar:
"[...] noto algum excesso de comparações, repetição de certas imagens, desalinho no estilo dos últimos capítulos".
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