A Rosa
do Povo
Carlos Drummond de Andrade
Uma análise do Professor Sergius
Gonzaga [1]
do site Educaterra
Parte V
6 Poesia do Cotidiano
Embora vários textos da
poesia social de Carlos Drummond de Andrade retratem a vida
diária com grande vigor, a inclinação
participante do poeta dá a esses versos uma
dimensão explicitamente engajada. Algo que não
encontramos nos poemas específicos sobre o cotidiano. Neles,
Drummond fixa cenas ou narra histórias — sem a
intervenção do eu — quase como um
repórter de linguagem apurada. Com muita propriedade,
Merquior define estes poemas como “dramas do
cotidiano”. Em regra geral, são os de leitura mais
acessível, o que não lhes retira a beleza e a
complexidade. Todavia, em A rosa do povo só nos deparamos
com dois desses poemas.
A morte do
leiteiro
Inúmeras vezes lembrado em
vestibulares, o texto é uma espécie de crônica
poética de estilo nitidamente coloquial. Através
dessa singela forma lírica, o poeta conta a história
de um leiteiro que, tomado por ladrão, é morto na
madrugada. As primeiras estrofes não se situam entre as
melhores coisas produzidas por Carlos Drummond de Andrade.
Há nelas um certo primarismo como nesta antítese:
“... sai correndo e distribuindo / leite bom para gente
ruim.” Ou como nesta celebração da qualidade do
leite: “... trazer o leite mais frio / e mais alvo da melhor
vaca / para todos criarem força / na luta brava da
cidade.”
Também a cena em que um
morador, por engano, assassina o leiteiro, é apresentada de
maneira frouxa e pouco dramática: “Bala que mata
gatuno / também serve pra furtar / a vida de nosso
irmão.” Contudo, a última estrofe do poema o
reabilita por completo: o sangue do leiteiro mistura-se ao leite no
ladrilho da calçada e dessa junção nasce a
surpreendente imagem da aurora, certamente uma das mais
espetaculares imagens da poesia brasileira em todos os
tempos:
Da garrafa estilhaçada,
no ladrilho já sereno
escorre uma coisa espessa
que é leite, sangue... não sei.
Por entre objetos confusos,
mal redimidos na noite,
duas cores se procuram,
suavemente se tocam,
amorosamente se enlaçam,
formando um terceiro tom
a que chamamos aurora.
Caso do vestido
Composto por setenta e três dísticos de versos regulares, este poema tem uma estrutura dramática (teatral), já que apresenta personagens, diálogos, e progressão de enredo, com clímax e desfecho. A abertura do texto dá-se através de um diálogo entre as filhas curiosas e a mãe:
Nossa mãe, o que é aquele
vestido, naquele prego?
Minhas filhas, é o vestido
de uma dona que passou.
Passou quando, nossa mãe?
Era nossa conhecida?
Minhas filhas, boca presa.
Vosso pai evém chegando.
Em todo o poema há uma atmosfera de expectativa e tensão, seja pela terrível história que a mãe vai relatar, seja pela iminente chegada do pai. Sofridamente, a mulher conta a loucura do marido que se apaixonou por uma “dona de longe”:
E ficou tão transtornado,
se perdeu tanto de nós,
se afastou de toda a vida,
se fechou, se devorou, [...]
A “dona”, no entanto, recusa o assédio. Irado e abatido, o marido pede a sua própria esposa que fosse implorar o amor da estranha. Ao lembrar do ocorrido, no presente, a mãe se emociona e vacila. As filhas lhe oferecem um lenço para que limpe as lágrimas e continue o relato:
Minhas filhas, procurei
aquela mulher do demo.
E lhe roguei que aplacasse
de meu marido a vontade.
A “dona” diz que não ama aquele homem, mas se a mulher insistisse, ficaria com o marido dela.
Olhei para vosso pai,
os olhos dele pediam.
Olhei para a dona ruim,
os olhos dela gozavam. [...]
Eu fiz meu pelo-sinal,
me curvei... disse que sim.
A partir deste momento a mãe aspira à morte, mas não morre. Vende seus objetos de estimação (“... meus anéis se dispersaram, / minha corrente de ouro / pagou conta de farmácia.”); precisa sustentar as filhas (“... costurei, lavei, fiz doce,”); envelhece (“... fiquei de cabeça branca, / perdi meus dentes, meus olhos,”).
Até que um dia a
“dona” reaparece, sozinha e abandonada. Vem pedir
perdão à mulher que ela tanto ferira e deixar-lhe,
como recordação de tamanha perversidade, o
último vestido de luxo que ainda possuía.
Aqui trago minha roupa
que recorda meu malfeito
de ofender dona casada
pisando no seu orgulho.
A mãe olha para esta “dona” destruída em sua beleza, não responde ao seu rogo e pendura o vestido no prego da parede para que ele ficasse ali, como memória dos tormentos. Logo depois, o pai retorna ao lar. E, como se nada tivesse acontecido, pede que a mulher que coloque mais um prato na mesa:
comeu, limpou o suor,
era sempre o mesmo homem,
comia meio de lado
e nem estava mais velho.
O barulho da comida
na boca me acalantava.
O poema fecha-se em círculo, com a volta ao presente ocorrendo simultaneamente à chegada do pai:
Minhas filhas, eis que ouço
vosso pai subindo a escada.
Verdadeira obra-prima, Caso do vestido, além de ser um drama do cotidiano, desvela a brutalidade masculina da sociedade patriarcal, em que o poeta nasceu e passou a sua infância e o início da juventude. Desta maneira, o poema sobre o cotidiano é, igualmente, um poema sobre o passado. A própria linguagem apresenta vários elementos do coloquial arcaico (“dona”, “evém”, “mui”, etc.), sem contar o uso de formas antigas de tratamento (“vosso”, “vossa”). Porém, o esplendor lírico de Caso do vestido decorre de inúmeros outros fatores:
a) da capacidade de resignação feminina e dessa misteriosa força vital que impede a mãe de sucumbir (“Só pensando na morte / mas a morte não chegava.”);
b) da pungente e ilimitada paixão da mulher que a arrasta da suprema humilhação ao supremo perdão;
c) da pequena mas genial vingança que consiste em colocar o vestido da “dona” na parede, onde permanecerá como registro perpétuo da perfídia do marido;
d) da crispada expectação que envolve toda a narrativa da mãe, continuamente ameaçada pela chegada do pai;
e) da estrutura teatral que sedimenta o poema, já referida anteriormente;
f) da formulação do poema em dísticos de versos regulares que emprestam ao mesmo um ritmo recitativo;
g) da utilização da linguagem coloquial, enriquecida por um processo estilístico pleno de sugestões, eufemismos, metáforas, elipses, anáforas, aliterações, antíteses e rimas internas. Assim, a espontaneidade da fala da mãe e dos diálogos com as filhas em nenhum verso cai na banalidade, risco de todo o poema que elege o cotidiano como motivo.

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