A
Rosa
do Povo
Carlos Drummond de Andrade
Uma análise do Professor Sergius Gonzaga [1]
do site Educaterra
Parte III
2.4 A morte
A consciência da progressiva
destruição operada pelo tempo —
núcleo principal de todo o amplo espectro temático de
Carlos Drummond de Andrade — condensa-se na
convicção de que o ser é sempre o
ser-para-a-morte.
A “viagem mortal” do
indivíduo percorre não apenas toda a poesia de
indagação filosófica, mas igualmente a
lírica que expressa o passado, o cotidiano, o compromisso
ético e político e até a que fala do amor. A
tragédia da condição humana é a da
certeza da finitude. Desta expectativa da própria
destruição, Drummond elabora poemas de desconcertante
lucidez.
Morte no
avião
Uma das mais extraordinárias
criações de Carlos Drummond de Andrade, a
começar pela estruturação do poema que
é, ao mesmo tempo:
a) uma crônica (narrada em
tempo presente) do último dia, despreocupado e comum, de um
homem que vai viajar de avião sem saber que a morte o
espera;
b) uma voz narrativa — já
póstuma — do próprio eu, isto é, do
homem condenado pelo desastre do avião. Esta voz anuncia,
estrofe a estrofe, num crescendo terrível, a iminência
do fim.
Assim, o poema intercala a
alienação do indivíduo, preso a seus afazeres
habituais, com esta consciência que relata antecipadamente a
sua morte. O texto começa com a revelação
brutal: “Acordo para a morte”. Em seguida, como
contraponto, evidencia-se a banalidade do cotidiano de um homem
que, nas próximas horas, vai desaparecer:
Barbeio-me, visto-me, calço-me.
É meu último dia: um dia
cortado de nenhum pressentimento.
Tudo funciona como sempre.
Saio para a rua. Vou morrer.
Este processo de intercalação entre a rotina de quem nada teme e a consciência póstuma deflagra uma patética impressão de vacuidade e inutilidade dos gestos humanos:
Visito o banco. Para que
esse dinheiro azul se algumas horas
mais, vem a polícia retirá-lo...?
Almoço. Para quê? Almoço um peixe em ouro e creme. [...]
Passa música no doce, um arrepio
De violino ou vento, não sei. [...]
... Os bondes cheios. O trabalho.
Estou na cidade grande e sou um homem
na engrenagem. Tenho pressa. [...]
Peço passagem aos lentos. [...]
Tenho pressa. Compro um jornal. É pressa,
embora vá morrer.
Comprometo-me ao extremo, combino encontros
a que nunca irei, pronuncio palavras vãs,
minto dizendo: até amanhã. Pois não haverá.
A cada seqüência de ações relevantes para aquele que vai morrer, a voz da consciência póstuma antepõe a realidade final que o espera. Assim, a visão ilusória do ser sobre a “contínua vida irrefreável” é desmentida — num tom seco e quase neutro — pelas referências implacáveis à aproximação do desenlace. Sob esta dualidade, a alienação do indivíduo a respeito da inevitabilidade trágica de seu destino torna-se patética.
Verdadeira metáfora da
existência, a viagem cega e sem pressentimentos rumo à
morte desintegra qualquer significado que a vida possa ter e
instaura um grande vazio na alma humana. Poucas vezes, na
literatura de língua portuguesa, a percepção
da finitude atingiu tamanho nível de dramaticidade. Talvez
só se encontre algo similar em alguns dos sermões do
padre Vieira. Entretanto, no caso do orador barroco, a fragilidade
da existência terrena era compensada pelas chances do homem
ascender ao paraíso. Já em Drummond não
há perspectiva religiosa ou qualquer outro tipo de conforto
místico. O homem é um ser feito para a névoa
do nada:
A morte dispôs poltronas para o conforto
da espera. Aqui se encontram
os que vão morrer e não sabem.
Jornais, café, chicletes, algodão para o ouvido,
pequenos serviços cercam de delicadeza
nossos corpos amarrados.
Vamos morrer, já não é apenas
meu fim particular e limitado,
somos vinte a ser destruídos,
morreremos vinte,
vinte nos espatifaremos, é agora.
3 A poesia sobre a poesia
A reflexão metapoética
(ou metalinguagem) constitui uma das vertentes dominantes da obra
de Carlos Drummond de Andrade. A própria poesia é
tematizada, na forma característica do poema sobre o poema,
e discute-se o ofício de escrever, a
construção do texto, o âmago da linguagem
lírica etc.
3. 1 A
poética
Consideração do poema
e Procura da poesia abrem A rosa do povo. Isso já revela a
importância que Drummond confere ao problema do fazer
literário, porque em ambos estabelece-se a tentativa de
fixação de uma poética, isto é, de um
processo de enumeração — direto ou
metafórico — dos princípios
técnicos e semânticos e dos valores filosóficos
que regem a escrita do autor.
Consideração do poema
Observe-se a primeira estrofe do poema:
Não rimarei a palavra sono
com a incorrespondente palavra outono.
Rimarei com a palavra carne
ou qualquer outra, que todas me convêm.
As palavras não nascem amarradas,
elas saltam, se beijam, se dissolvem,
no céu livre por vezes um desenho,
são puras, largas, autênticas, indevassáveis.
É visível, nesses versos, a ruptura do escritor com a poética tradicional, a começar pela destruição do convencionalismo das velhas rimas, que sustentavam a melodia lírica do passado.
“Sono” não
rimará com “outono” e sim com
“carne” [10]. Também não há mais
palavras interditas, sujas, feias. Todas podem servir a seu desejo
de expressão. E é uma expressão nova e
original que o poeta almeja, recusando-se às palavras
“amarradas”, quer dizer, às
formulações verbais prontas e desgastadas pelo uso,
aos lugares-comuns poéticos. O seu projeto insere-se, pois,
nas coordenadas de uma modernidade radical.
Em seguida, Carlos Drummond de
Andrade celebra os poetas contemporâneos que admira. Com uma
única exceção (Murilo Mendes), são
poetas engajados — se não politicamente, pelo
menos com o canto da vida cotidiana — Vinícius de
Moraes, Pablo Neruda, Apollinaire, Maiakovski. “São
todos meus irmãos” — grita, lançando
duas metáforas inesperadas para defini-los: “...
não são jornais / nem deslizar de lancha entre
camélias”. Provavelmente aluda ao fato de que estes
autores não expressam apenas a superficialidade do dia
(“jornais”) e tampouco uma delicada e romântica
trajetória por entre flores, mas assumam — a
exemplo do próprio Drummond — uma poética
do risco, do compromisso com os homens (“É qualquer
homem / ao meio-dia em qualquer praça.”)
No início da quarta estrofe,
o autor mineiro faz uma profissão de fé que
cristaliza toda a sua poesia social:
Poeta do finito e da matéria
cantor sem piedade, sim, sem frágeis lágrimas,
boca tão seca, mas ardor tão casto.
Essa declaração de comprometimento com o “finito” e com a “matéria” (a realidade comum dos seres humanos) é reforçada pela imagem grandiloqüente dos últimos dois versos do poema:
(...) Tal uma lâmina
o povo, meu poema, te atravessa.
Procura da poesia
Este poema começa com uma
série de interdições a respeito do fazer
poético:
Não faças versos sobre acontecimentos.
Não há criação nem morte perante a poesia. (...)
As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam.
Não faças poesia com o corpo,
esse excelente, completo e confortável corpo, tão infenso à efusão lírica. (...)
Nem me reveles teus sentimentos,
que se prevalecem do equívoco e tentam a longa viagem. [11]
O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.
Não cantes tua cidade, deixe-a em paz. (...)
O canto não é a natureza
nem os homens em sociedade.
Para ele, chuva e noite, fadiga e esperança nada significam.
A poesia (não tires poesia das coisas)
elide sujeito e objeto. [12] (...)Só então, após listar tudo aquilo que não é poesia (acontecimentos, corpo, cidade, natureza, emoções, infância, memória, subjetividade e objetividade), Drummond apresenta a sua poética:
Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos. (...)
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.
Convive com teus poemas, antes de escrevê-los. (...)
... Aceita-o
como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada
no espaço.
Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível, que lhe deres:
Trouxeste a chave? (...)
Nesse reino de difícil acesso, vivem as palavras em “estado de dicionário”, com “mil faces secretas”, cabendo ao poeta o terrível esforço de selecionar o(s) sentido(s) de cada uma delas, para depois ordená-las de maneira “definitiva e concentrada”. Com isto se forja uma composição de máxima síntese em que cada termo é tão essencial que não pode ser substituído por qualquer outro.
Procura da poesia assinala a recusa
de Drummond em aceitar uma poética da espontaneidade
(inspiração, vislumbres, impressões,
epifanias, etc.) ou uma poética conteudística,
situada na expressão direta dos inúmeros aspectos da
realidade. Para ele, poesia é pesquisa, luta, busca do
mistério das palavras. Poesia, nesta óptica,
não é um instrumento verbal para comunicar algo;
antes, é um objeto válido em si mesmo, cuja
força e autenticidade derivam da plenitude e da opacidade de
sua linguagem.
3. 2 Uma poética
controversa
Os críticos se dividiram a
respeito do significado dos dois principais poemas de metalinguagem
de Carlos Drummond de Andrade. Alguns interpretaram os textos como
contraditórios porque afirmariam realidades
antagônicas: um, o domínio do compromisso social;
outro, o império da linguagem. Representariam, portanto, a
condensação das tendências opositivas de A rosa
do povo, obra dilacerada entre a esperança no futuro
socialista e a amargura filosófica.
Já outros críticos
especulam que Consideração do poema corresponde ao
projeto ideológico do autor, enquanto Procura da poesia
traduz o seu projeto estético, não havendo
diferenças estruturais entre ambos, e sim uma
variação de enfoque determinada pela especificidade
de cada projeto.
No entanto, para José
Guilherme Merquior — o mais importante entre os
estudiosos da obra drummondiana — os dois poemas formam
um conjunto coerente, porque estão alicerçados sobre
uma concepção dialética do gênero
lírico, o qual se comporia de duas camadas
interligadas:
a)A natureza preponderantemente
verbal da poesia. Ou seja, poesia, em primeiro lugar, é
seleção e ordenação de palavras;
b)As palavras — captadas em seu mistério e em
algumas de suas “mil faces” — não
são vazias de conteúdo. Ora, se o discurso
poético não é um zero semântico, suas
referências obrigatoriamente designam elementos do
real.
Em suma, a pesquisa e a
invenção de linguagem constituem o cerne da poesia,
mas as palavras trazem consigo uma constelação de
significados que o poeta escolhe. Não se trata —
como já frisamos — de privilegiar a mensagem,
exprimindo-a diretamente. Isso não é poesia. Apenas
através da penetração no “reino das
palavras”, o autor lírico poderá dar um sentido
a seu canto. Ou seja, aquilo que o poeta diz é também
a forma como ele o diz.
[10] “Sono” e “outono” trazem também uma carga conceitual passadista, representando, respectivamente, um estado de inconsciência e uma estação do ano associada à melancolia e/ou ao devaneio, realidades postas em questão pelo caráter de vigília e de comprometimento que impera em A rosa do povo. Da mesma forma, carne parece aludir à existência concreta, à vida material dos homens.
[11] Referência crítica de Carlos
Drummond de Andrade à concepção tradicional da
poesia como expressão dos sentimentos. A “longa
viagem” indica a transição da linguagem comum
à verdadeira linguagem poética.
[12] A poesia suprime a subjetividade e o mundo objetivo, independe
deles
Repare que as proibições anteriores têm a
função de preparar a afirmação
incisiva — feita nas últimas
estrofes — do primado da linguagem sobre o assunto. Para
Carlos Drummond de Andrade, não é com temas que se
faz a grande poesia e sim com palavras. Ou, dizendo de outra
maneira: o que importa não é a natureza da mensagem,
mas a qualidade de sua realização literária. E
esta só acontece quando o escritor descobre a chave que lhe
permite entrar no reino da linguagem.
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