Drummond e a pedra no caminho, caricatura de Alvarus (1941), em: <http://www.algumapoesia.com.br/>
A Rosa do Povo
Carlos Drummond
de Andrade
Uma análise do Professor Sergius Gonzaga [1]
do site Educaterra
Parte II
1 A poesia social
Pelo menos duas dezenas dos cinqüenta e cinco poemas de A rosa do povo podem ser enquadrados nesta tendência na qual a angústia subjetiva do poeta transforma-se em engajamento e compromisso com a humanidade.
De certa forma, é possível distinguir neles uma espécie de seqüência lógica que revela as mudanças de percepção do poeta face ao fenômeno social. Este processo temática não é unívoco, sendo composto por mais ou menos quatro movimentos muito próximos e que, na sua totalidade, formam a mais elevada manifestação de poesia comprometida na história da literatura brasileira. Vamos encontrar então:
- a culpa e a responsabilidade moral;
- o registro puro e simples de uma ordem política injusta;
- a passagem da náusea à perspectiva de uma nova sociedade (em termos concretos e em termos abstratos);
- a celebração da nova ordem.
1. 1 A culpa e a responsabilidade moral
A repulsa ao egocentrismo e a abertura em direção à solidariedade estão representadas por dois poemas totalmente simbólicos e despidos de referências à historicidade e ao cotidiano: Carrego comigo e Movimento da espada.
Carrego comigo
Neste texto, — composto por vinte e três quartetos com versos metrificados de cinco sílabas (redondilha menor) — o poeta começa aludindo a um misterioso embrulho que porta consigo, sem, no entanto, identificar o seu conteúdo:
Carrego comigo
há dezenas de anos
há centenas de anos
o pequeno embrulho.
(...)
Não
ouso entreabri-lo.
Que
coisa contém,
ou se
algo contém,
nunca
saberei.
A única decifração do embrulho reside no fato de que o poeta ao invés de carregá-lo parece carregado por ele e de que perdê-lo significaria “perder-me a mim próprio”. No desfecho do poema há a revelação de que o embrulho destrói a solidão e confere um sentido à liberdade de quem o carrega, porém o seu conteúdo não é explicitamente referido. Cabe ao leitor resolver o enigma, mas não é muito difícil supor que o embrulho é o peso da consciência moral do poeta.
1. 2 O registro da ordem política injusta
Ainda que toda a sua poesia social submeta a ordem vigente a um inquérito implacável, há sempre nestes poemas a indicação do novo, ou pelo menos das lutas que indivíduos, classes e povos travam para impugnar a injustiça do planeta. No caso de O medo, entretanto, a esperança ou o enfrentamento não se delineiam e o resultado é um dos textos mais opressivos de toda a obra de Carlos Drummond de Andrade.
Os versos irregulares, (embora um bom número deles tenha sete sílabas) não impedem a criação uma cadência grave e soturna, nascida da repetição exaustiva da palavra medo. No desenrolar das quinze estrofes do poema, essa palavra e aquilo que ela traduz no contexto da época (ditadura, prisão, tortura, guerra, massacres, etc.) vão tecendo uma rede de tentáculos sobre os seres, impedindo-os de pensar, protestar e agir. A primeira estrofe já é elucidativa desta impotência [5]:
Em verdade temos medo.
Nascemos escuro.
As
existências são poucas:
Carteiro, ditador, soldado.
Nosso destino, incompleto.
Na sétima estrofe, insinua-se a possibilidade da rebelião:
Porém esta ânsia libertária não se torna consistente, esmagada pelo terror frio e insidioso que se introjecta nas almas das pessoas, a tal ponto que até mesmo os filhos herdarão a falta de coragem de seus pais e nada restará à humanidade senão o “baile do medo.”
Nossos filhos tão
felizes...
Fiéis herdeiros do medo,
eles povoam a
cidade.
Depois da cidade, o mundo
Depois do mundo, as estrelas
dançando o baile do medo.
Neste bloco, encontramos um significativo número de poemas. Eles refletem a transição de um clima acabrunhante — no qual um indivíduo em crise e um sistema desolador se identificam — para uma atmosfera radiosa de esperança e afirmativa do novo.
Dentro desta ótica são escritos dois dos mais importantes poemas de A rosa do povo: A flor e a náusea (ver análise específica no fim deste trabalho) e Nosso tempo. São também os mais concretos pois aludem diretamente ou indiretamente à realidade objetiva. Neles, o sentimento de culpa é substituído pela noção de náusea: a náusea existencialista, à maneira de Sartre, que, mais do que uma sensação física de enjôo, é uma situação de absoluta liberdade de quem a vivencia. Liberdade no sentido da destruição de todos os valores tradicionais, da morte de todos os deuses e crenças. A náusea decorre desta liberdade aterradora, próxima do absurdo. O homem, despojado de suas antigas certezas, vaga num universo de destroços, porém, ao mesmo tempo que o tédio e o desespero o ameaçam, este mesmo homem pode, na grande solidão em que se converteu sua vida, encontrar uma alternativa válida de existência individual e coletiva.
Nosso tempo
Nos oito
pequenos cantos que o compõem, nos versos irregulares, nos símbolos
intrincados, nas imagens surrealistas (“Tempo de divisas,
/ tempo de gente cortada / e mãos viajando sem braços, / obscenos
gestos avulsos.”) e nos instantâneos
realistas — quase cinematográficos — da vida
coisificada das massas urbanas, Carlos Drummond de Andrade elabora
em Nosso tempo um “admirável afresco da
alienação contemporânea”, no dizer do crítico
José Guilherme Merquior.
Há uma visível ambivalência no dístico que abre o
poema:
Este é tempo de partido,
tempo de homens partidos.
Por um lado, partido conecta-se com política, com opção ideológica da qual ninguém poderia se furtar no contexto radicalizado dos anos de 1940; por outro, significa o homem mutilado, danificado tanto pela guerra como pela cidade opressora que esmaga corpos e consciências.
Na segunda estrofe, surge o poeta (expressando o coletivo), seguro da inutilidade de seus livros, viagens e visões falsas: “Em vão percorremos volumes, / viajamos e nos colorimos”. Surge também a rua, cheia de tensão pela perspectiva da hora da mudança e pelos sonhos de sobrevivência dos homens comuns. A ordem burguesa está em crise: “Meu nome é tumulto”, grita o poeta, que, simultaneamente, na voragem de sua liberdade absurda, procura uma alternativa: “Onde te ocultas, precária síntese?”.
As palavras do homem revoltado querem explodir para impugnar este “tempo de muletas”, tempo de aleijões morais. Muitas pessoas, também elas vítimas do processo de mutilamento, guardam segredos que serviriam para consolidar uma revolta comum e estabelecer laços de companheirismo neste universo de solidão e egoísmo. O poeta — numa vertiginosa enumeração caótica — pede que elas se abram e contem o que sabem, invocando inclusive a fala de insetos e objetos:
Ó conta, velha preta, ó jornalista, poeta, pequeno
historiador urbano,
ó surdo mudo, depositário de meus desfalecimentos, abre-te e
conta
moça presa na
memória, velho aleijado, baratas dos arquivos, portas rangentes,
solidão e asco
pessoas e
coisas enigmáticas, contai, (...)
Tudo tão difícil depois que vos calastes...
E muitos de vós nunca se abriram.
Se até então as imagens do texto parecem vir da interioridade do poeta em sua relação agoniada com o mundo, a partir do canto IV elas adquirem autonomia e se independem do eu-lírico. São imagens que surpreendem o vazio e a coisificação da vida citadina, em quadros realistas e surrealistas de impressionante vigor poético. Homens escravizados pela rotina, massacrados pela mediocridade de seus empregos burocráticos, indiferentes aos horrores da sociedade industrial/capitalista, multidão de zumbis cujos corpos pouco a pouco viram coisas na repetição exaustiva e alienada dos mesmos gestos:
Come, braço mecânico, alimenta-te, mão de papel, é
tempo de comida,
mais
tarde será o de amor.
Nas estrofes VI e VII, as imagens voltam a expressar a náusea e a revolta no poeta, ainda que de forma elíptica e metafórica, porém, na estrofe VIII todas as insinuações vagas e retorcidas contra a ordem vigente são substituídas por uma declaração intensamente panfletária que fecha o poema [6]:
O Poeta
declina de toda responsabilidade
na marcha do mundo capitalista
e com suas palavras, intuições, símbolos e outras armas
promete ajudar
a destruí-lo
Poesia social (simbólica/abstrata)
Vários outros poemas inscrevem-se no motivo da transição da náusea e da alienação à consciência e à esperança. Porém, diferentemente dos anteriores, tanto a concretude do cotidiano quanto das alusões históricas objetivas diluem-se em inusitadas metáforas e símbolos. Constitui-se então uma espécie de poesia social de linguagem abstrata.
Áporo*
Observemos este estranho soneto de versos curtos e regulares (cinco sílabas):
Um inseto cava
cava sem alarme
perfurando a terra
sem achar escape.
Que fazer, exausto,
em país bloqueado,
enlace de noite
raiz e minério?
Eis que o labirinto
(oh razão, mistério)
presto* se desata:
em verde, sozinha
antieuclidiana*
uma
orquídea forma-se.
Áporo, muito exigido em vestibulares, apresenta em seus dois quartetos um inseto que cava inutilmente a terra em busca de uma saída. A situação asfixiante é reforçada pela metáfora que estabelece a noite, a raiz e o minério como os elementos constitutivos da realidade subterrânea, sugerindo escuridão, emaranhado, dureza e improbabilidade de escape.
Nos dois tercetos, o labirinto em que se encontra o inseto é dissolvido pelo nascimento de uma orquídea antieuclidiana*. A formação da orquídea não é apenas desconcertante: ela estabelece uma rica possibilidade de significados para um texto verbalmente tão despojado. Há pelo menos três interpretações, igualmente válidas para o mesmo:
a) Trata-se de uma
metáfora da situação histórica /política dos anos 40 (Estado Novo,
censura, espionagem etc.), confirmada pelo segundo verso do segundo
quarteto: “em país bloqueado”, sendo a
orquídea uma imagem de esperança pelas transformações que
já se anunciavam.
b) O inseto é o poeta (o eu ou o ser
humano) que, sufocado — seja pela culpa, pela
náusea ou pelo horror —, encontra na orquídea o novo, como
aquele encontro com a rosa, em A flor e a náusea.
c) O inseto é a palavra poética, presa no
subterrâneo sombrio da interioridade, e que, por fim, liberta-se,
concretiza-se na página, efetivando-se como
escrita.
Como diz o crítico Francisco Achcar, Áporo é um “ponto de cruzamento de três temáticas centrais de A rosa do povo: a sociedade, a existência e a própria poesia.”
*
Áporo: inseto, algo sem passagem, situação sem saída,
problema difícil, orquídea.
* Presto: rápido.
* Antieuclidiana: destruidora da geometria
convencional, fenômeno que quebra a lógica.
Outros poemas
Três outros poemas (Passagem da noite — Uma hora e mais outra — Noite na repartição) também lidam com a idéia de passagem de um estado de infelicidade, náusea e alienação para um estado de crença em um futuro melhor. Nestes três poemas, como notou José Guilherme Merquior, há uma superação do desespero rumo ao gosto prazeroso de viver. Neles não aparecem as indicações realistas — verdadeiros instantâneos da grande metrópole — de Nosso tempo e A flor e a náusea. Tampouco chegam a ser explicitadas as circunstâncias históricas opressivas. São poemas de intenção simbólica, mas que se encaixam na categoria da poesia social por anunciarem um porvir para o ser humano e não somente para o eu-lírico.
Notícias
Uma das expressões mais acabadas das relações entre a subjetividade culpada do poeta e a realidade exterior, Notícias cristaliza-se nos telegramas que chegam, vindos de além-mar:
Entre mim e os mortos há o mar
e os telegramas.
O
despojamento do egoísmo burguês e a superação da situação de náusea
induziram Carlos Drummond de Andrade a vários compromissos:
primeiro, o moral; segundo, o humanista; terceiro, o ideológico.
Imerso numa era onde a barbárie ameaçava a civilização, o poeta
entende que a mera solidariedade ou apenas a argüição áspera da
sociedade injusta não bastariam. Seria necessário que o indivíduo
sujeitasse seu egocentrismo a um sistema de idéias em que a
organização e os interesses coletivos prevalecessem.
O marxismo — na sua formulação soviética —
surge, então, como a possibilidade redentora do homem. O heroísmo
da URSS, na II Guerra, é o combustível desta expansão ideológica.
Há, em todo o Ocidente, uma expressiva fraternidade em relação ao
povo russo e ao seu regime. Como centena de intelectuais, Drummond
não escapa da sedução comunista. Alguns poemas vão traduzir esta
adesão. Com raras exceções, eles constituem a parte mais perecível
de A rosa do povo
Carta a Stalingrado
A resistência sobre-humana da cidade de Stalingrado às hordas nazistas é o motivo do mais denso e vibrante poema da tendência que canta o socialismo. Os versos irregulares e longos quase escorregam no prosaísmo, mas acabam mantendo, à beira do abismo, a sua condição poética. A primeira estrofe tem um uma espécie de sopro épico:
Stalingrado...
Depois de Madri e de Londres, ainda há grandes
cidades!
O mundo não
acabou, pois que entre as ruínas
outros homens surgem, a face negra de pó e de
pólvora,
e o hálito
selvagem da liberdade
dilata os seus peitos, Stalingrado,
seus peitos que estalam e
caem
enquanto outros,
vingadores, se elevam.
Depois de associar os telegramas que chegam da Rússia aos poemas homéricos, Drummond ultrapassa a exaltação dos feitos militares da cidade russa, vislumbrando na indômita resistência [8] os sinais de uma nova ordem histórica:
(...) Os telegramas cantam um mundo
novo
que nós, na
escuridão, ignorávamos.
A mesma dicotomia entre a cidade condenada e a cidade do futuro, entre as sombras de um mundo morto e as luzes da nova sociedade aparece em Com o russo em Berlim, Visão 1944 , Cidade prevista, Mas viveremos e Telegrama de Moscou. Todos poemas de constrangedora banalidade. Versos frouxos, idéias simplórias, revestidas de imagens aparentemente extraídas de material de propaganda do realismo socialista. Estamos longe da invenção verbal e da profundidade de pensamento que caracteriza a maior parte dos poemas de A rosa do povo.
2 Poesia de reflexão existêncial
Entre os múltiplos temas de Carlos Drummond de Andrade, o único presente em todas as suas obras, de Alguma poesia a Farewel, com maior ou menor insistência, é o do questionamento do sentido da vida. Mesmo num livro em que o engajamento social e político exerce forte hegemonia, como é o caso de A rosa do povo, sobressaem-se inúmeros poemas de interrogação existencial, alguns situados entre os momentos culminantes do lirismo de Drummond.
Principais motivos
2.1 Solidão, angústia e incomunicabilidade
Mais centrada na esfera da subjetividade do poeta, esta tendência desvela a impotência do eu-lírico para estabelecer vias comunicantes com os demais seres humanos. Trata-se de uma solidão terrível, pois ela ocorre na grande cidade, cidade antropofágica e impassível, onde o indivíduo caminha desorientado em meio a uma multidão indiferente e sem rosto.
Anoitecer
Trata-se de um dos poemas-chave para a compreensão da intrincada visão drummondiana da existência. Na hora do crepúsculo (o entardecer em Carlos Drummond de Andrade muitas vezes é metáfora do fim da vida), o poeta experimenta um medo que parece se aproximar do pânico. Em quatro estrofes de sete versos irregulares estabelece-se um fascinante jogo de antíteses. Observe que o primeiro verso das três primeiras estrofes e mais o primeiro e segundo verso da última estrofe afirmam um mundo de códigos reconhecidos, permanentes e confiáveis:
Estrofe I
– “É a hora em que o sino toca...”
Estrofe II – “É a hora em que o pássaro
volta...”
Estrofe III – “É a hora do
descanso...”
Estrofe IV – “Hora de delicadeza / gasalho,*
sombra, silêncio.”
Provavelmente estes versos indiquem o pequeno mundo provinciano — senão o próprio interior rural — de onde o poeta procede e onde a ampla maioria do povo brasileiro ainda vivia nos idos de 1940. É um mundo suspenso no tempo, patriarcal, letárgico, atrasado, mas que oferece segurança e tranqüilidade aos sujeitos que o habitam. Esta realidade feita de certezas desintegra-se, no entanto, a partir do segundo verso das estrofes I, II e III e do terceiro verso da estrofe IV, formando as antíteses que estruturam o poema:
É a hora em que o sino toca,
mas aqui não há sinos;
há somente buzinas,
sirenes roucas, apitos
aflitos, pungentes,
trágicos,
uivando
escuro segredo;
desta
hora tenho medo.
A mesma estrutura ressurge na segunda estrofe, na qual a imagem do pássaro que volta a seu ninho reforça a possibilidade destas referências — contidas no primeiro verso de cada estrofe — serem as de um mundo rural/provinciano. Ao vôo solitário da ave (com sua sugestão de beleza e bucolismo) opõe-se a multidão compacta e cansada nas ruas:
É a hora em que o pássaro volta,
mas de há muito não há
pássaros;
só multidões
compactas
escorrendo
exaustas
como espesso
óleo
que impregna o
lajedo;
desta hora
tenho medo.
mas o descanso vem tarde,
o corpo não pede sono,
depois de tanto rodar;
pede paz — morte — mergulhono
poço mais ermo e quedo;*
desta hora tenho medo.
2.2 O fluir do tempo
Um dos temas nucleares da obra drummondiana,
a percepção da passagem do tempo se estabelece através de
interrogações diretas sobre o sentido deste fluxo que degrada os
corpos, a beleza, as coisas e também as ilusões, os amores e as
crenças dos indivíduos. Affonso Romano de
Sant’Anna, em ótima análise estilística, mostra a
predominância em A rosa do povo de vocábulos que indicam
mudança e viagem. A vida “flui e reflui, corre, passa,
escorre, espalha-se, desliza, dissipa-se”, num desfile
ininterrupto e cujo destino final é a morte.
Desfile
O tempo, ele próprio como motivo, aparece neste soberbo texto (redondilha maior), iniciado com um aparente paradoxo, pois o poeta escuta algo que flui silenciosamente:
O rosto no travesseiro,
escuto o tempo fluindo
no mais completo silêncio.
Após outras tantas lembranças, o poeta dá-se conta que está de novo no presente: (“E tenho mãos experientes. / Tenho calças experientes. / Tenho sinais combinados.”) Sabe que o tempo prosseguirá em sua marcha corrosiva, não aos solavancos, mas quase imperceptivelmente (“Como planta que se alonga / enquanto estamos dormindo.”) Sabe também que este fluxo o arrastará para o fim. Por isso quer dormir, o sono como ensaio para a morte: (“O rosto no travesseiro, / fecho os olhos, para ensaio.”)
2.3 Balanços da existência
Também como resultado da percepção da passagem do tempo, Carlos Drummond de Andrade submete a existência do eu e dos demais seres a um balanço permanente. Perdas e ganhos alternam-se nesta investigação que poderia ser resumida numa pergunta essencial: Há algum tipo de lógica na vida humana ou ela é gratuita e vazia?
Como já frisamos, não existe na obra drummondiana conclusões definitivas. Todas elas são movediças e inconstantes. O único procedimento uniforme do poeta é a interrogação. Nesta vertente da poesia sobre a existência, há três poemas em que se processa a aceitação do primado da vida, mas de uma vida fria e indiferente ao drama subjetivo, obrigando o poeta a assumi-la estoicamente.* (Passagem do ano e Versos à boca da noite), ou quase vegetativamente (Vida menor). Já em Resíduo, aspectos positivos e absurdos da existência mantêm um confronto de resultado ambíguo. Porém, no magnífico Consolo na praia o princípio da corrosão impõe-se sobre os valores que resistem à morte e ao nada.
Passagem do ano
Outro texto clássico da poesia drummondiana e que assinala a adesão (circunstancial) do poeta a uma postura mais resignada face às correntes disparatadas da existência:
O último dia do ano
não é o último dia do tempo.
Outros dias virão
e novas coxas e ventres te comunicarão o calor da
vida.
Em seguida, o poeta enumera todas as ocupações com que o homem tenta apagar a consciência de seu destino, nivelando o irrisório e o importante, dupla face do mesmo e inútil enfrentamento do indivíduo contra a sua irremediável solidão:
Beijarás bocas, rasgarás papéis,
farás viagens e tantas
celebrações
de
aniversário, formatura, promoção, glória, doce morte com sinfonia e
coral,
que o tempo
ficará repleto e não ouvirás o clamor,
os irreparáveis uivos
do lobo na solidão.
[7] Na época, todo o noticiário do exterior e especificamente, os fatos da II Guerra chegavam por boletins de algumas rádios européias e norte-americanas, mas, principalmente, por telegramas. Daí a recorrência desta palavra em vários poemas de A rosa do povo.
[8] A resistência de Stalingrado (hoje
Volgogrado) deu-se entre agosto de 1942 a janeiro de 1943. Os
nazistas entraram na cidade e tiveram de lutar prédio por prédio.
Mesmo assim não conseguiram conquistá-la. Em hábil manobra o
exército soviético cercou-os por fora do perímetro urbano,
obrigando-os à rendição. Os alemães tiveram mais de 100.000 baixas,
outros 100.000 se renderam. Entre os russos, houve centenas de
milhares de mortos e feridos. Começava ali a derrocada do
“Reich de mil anos”.
[9] Referência a Paris que caiu nas mãos dos
nazistas sem luta.

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