de: William Medeiros
em: <www.germinaliteratura.com.br>
A Rosa do Povo
Carlos Drummond de Andrade
Uma análise do Professor Sergius Gonzaga [1]
do site Educaterra
Contexto histórico-cultural
Os poemas de A rosa do povo foram escritos entre 1943 e 1945, quando os horrores da II Guerra Mundial angustiavam a humanidade e o exército nazista recuava, especialmente na extinta União Soviética. Graças à obstinação heróica do povo russo e sua imensa capacidade de sacrifício, as melhores divisões alemãs tinham sido desbaratadas no leste europeu, prenunciando a capitulação do III Reich.
À angústia da época somava-se, pois, uma reverência comovida da civilização ocidental aos soviéticos. O confronto capitalismo x comunismo, que se desenhara desde 1917, estava momentaneamente eclipsado na união de esforços contra o nazismo. Stálin não era mais o ditador monstruoso da década de 1930, mas um dos líderes da luta contra a barbárie. Havia, portanto, nos meios intelectuais e artísticos não-comunistas, uma empatia não apenas com o povo russo, mas com o regime que mobilizara a sua enorme população para uma guerra justa.
Simultaneamente, no Brasil, o Estado Novo — autoritário, policialesco, ainda que economicamente modernizador e socialmente avançado (sob o comando de Getúlio Vargas) — perdia o apoio entre as classes médias e as elites intelectuais [2] que aspiravam a um regime democrático. Neste caldeirão de conflitos e circunstâncias dramáticas, o foco poético de Carlos Drummond de Andrade — até então centrado mais na subjetividade e no individualismo do eu-lírico — deslocou-se para uma ênfase no histórico-social.
Anos depois, o autor explicou esta tendência de A rosa do povo como uma tradução daquela época sombria:
“... obra que, de certa
maneira, reflete um “tempo”, não só
individual mas coletivo no país e no
mundo.
(...) Algumas ilusões feneceram, mas o sentimento moral é o mesmo — e está dito o necessário.” [3]
Uma obra inovadora
Em seu conjunto, A rosa do povo traz importantes novidades:
a) É a mais extensa de todas as obras
de Carlos Drummond de Andrade, composta por 55 poemas. Embora em
seu próprio título haja uma simbologia
revolucionária, sem contar o número expressivo de
poemas socialmente engajados, A rosa do povo apresenta
grande variedade temática e
técnica;
b) Quase todos os poemas têm uma dimensão metafórica, apesar da linguagem aparentemente clara. Com freqüência, também nos surpreendemos com inesperadas associações de palavras, elipses, imagens surrealistas. Trata-se de poemas refinados, complexos e acessíveis somente a leitores com significativa informação poética. Paradoxalmente — como notou Álvaro Lins — a obra em que Carlos Drummond de Andrade mais se aproxima de uma ideologia popular é, na verdade, dirigida apenas a uma aristocracia intelectual.
c) A rosa do povo representa, na poesia de Drummond, uma tensão entre a participação política e adesão às utopias esquerdistas, de um lado, e a visão cética e desencantada, de outro lado. Não devemos entender esta duplicidade (esperança versus pessimismo) como contraditória. Toda a obra do autor (incluindo-se aí a amplitude de assuntos da mesma) é marcada por uma visão caleidoscópica, polissêmica.
A realidade, para ele, tem várias faces. Faces descontínuas, irregulares, opositivas. Tentar captar a essência humana é registrar ambivalências, ângulos variados. Nunca há em Drummond uma palavra definitiva, uma visão final. O fluxo desordenado da vida não permite uma única certeza, uma única convicção. Perceber a poesia de Carlos Drummond de Andrade como reflexo desta rica e quase caótica diversidade é o começo de seu entendimento.
d) O poeta vale-se tanto do “estilo sublime” (padrão elevado da língua culta) quanto do “estilo mesclado” (linguagem elevada e linguagem coloquial).
e) Os versos, geralmente curtos das obras inaugurais, tornam-se mais longos. Há um predomínio do verso livre (métrica irregular) e do verso branco (sem rimas).
f) Ainda em relação às obras anteriores, o humor quase desaparece, o coloquial é atenuado e um tom grave e solene passa a impregnar os versos.
g) As inquietações sociais anunciadas em livros anteriores como José e Sentimento do mundo — ainda vagas e mais ou menos abstratas — ganham, em A rosa do povo, plena historicidade, referindo-se várias vezes ao cotidiano, quando não a acontecimentos concretos da década de 1940.
Temas básicos
Valendo-nos de óbvia simplificação didática, podemos dividir os poemas de A rosa do povo em sete áreas temáticas [3]. É claro que, dada à complexidade dos versos drummondianos, muitos desses poemas podem ser enquadrados em mais de um núcleo de assunto. No entanto, a divisão abaixo corresponde a um esquema estabelecido pelo próprio escritor em sua Antologia poética:
i. a poesia social;
ii. a reflexão existencial (o eu e o mundo);
iii. a poesia sobre a própria poesia;
iv. o passado;
v. o amor;
vi. o cotidiano;
vii. a celebração dos amigos;
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[1] Sergius Gonzaga é professor no curso de Letras da UFRGS e autor de livros didáticos como Manual de Literatura Brasileira.
[2] Elites estas muitas vezes identificadas com o próprio regime através de altos cargos burocráticos exercidos por escritores, jornalistas e pensadores. Getúlio Vargas atraiu para o seu projeto centenas de intelectuais. O próprio Carlos Drummond de Andrade foi secretário de Gustavo Capanema, Ministro de Educação e Cultura. Talvez isso em parte explique uma subjetiva sensação de culpa que percorre vários poemas participantes do autor.
[3] Nos anos subseqüentes à publicação de A rosa do povo, Drummond desilude-se completamente com o regime soviético e abandona suas posições esquerdistas.
[4] Além deste espectro de motivos, pode-se assinalar a existência de um texto paródico: Nova canção do exílio.
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