Tela do Artista Plástico Eduardo Lima
Belzebú e
a invenção
da Escola

Desenho de Jacob
Ritch
Uma história de
Adolphe Ferrière*

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Desenho de Sandro
Castelli
“Queiram ouvir esta história.
Um belo dia, deu o diabo uma saltada à terra, e verificou, não sem despeito, que ainda cá se encontravam homens que acreditassem no bem. Como não falta a Belzebú um fino espírito de observação, pouco tardou em se aperceber que essas criaturas apresentavam caracteres comuns: eram boas, e por isso acreditavam no bem; eram felizes, e por conseqüências boas; viviam tranqüilas, e por isso eram felizes. O diabo concluiu, do seu ponto de vista, que as coisas não iam bem, e que se tornava necessário modificar isto.
E disse consigo: ‘A infância é o porvir da raça;
comecemos, pois, pela infância.’
E apresentou-se perante os homens como enviado de Deus, como reformador da sociedade. ‘Deus’, disse Belzebú, ‘exige a mortificação da carne, e é mister começar desde criança. A alegria é pecado. Rir é uma blasfemia. As crianças não devem conhecer alegrias nem risos. O amor de mãe é um perigo: afemina a alma dum rapaz; é preciso separar mãe e filho, para que coisa alguma se oponha à sua comunhão com Deus. Torna-se necessário que a juventude saiba que a vida é esforço. Façam-na trabalhar (...); encham-na de aborrecimento. Que seja banido tudo quanto possa despertar-lhe interesse: só é proveitoso o trabalho desinteressado; se nele se mistura prazer, está tudo perdido!’
Eis o que disse o diabo. A multidão, beijando a terra, exclamou:
- Queremos-nos salvar! Que devemos fazer?
- Criem a escola.” (...)

* O pedagogo suíço Adolphe Ferrière (1879-1960), foi um dos nomes mais expressivos do movimento da Educação Nova. Foi fundador do Bureau International d´Éducation Nouvelle (1899) e um dos fundadores, juntamente com Pierre Bovet e Edouard Claparède, do Institut Jean Jacques Rousseau (1912), em Genève. Ajudou a criar, em 1921, durante o I Congrès Internacional de l´Éducation Nouvelle, em Calais, na França, a Ligue Internacional pour l`Éducation Nouvelle. Foi, durante muito tempo, diretor e colaborador da revista da Ligue, Pour l´ere nouvelle. Esteve, também, a frente dos trabalhos do Bureau Internacional d´Éducation (criado em 1925). Ficou conhecido, ainda, por ser o redator dos 30 pontos da Educação Nova, publicado pela primeira vez no livro de Faria Vasconcelos, Une École Nouvelle em Bélgique (1915). Escritor de vários ensaios sobre a Escola Ativa, Ferrière foi, sem dúvida, um sujeito polêmico, crítico da escola de seu tempo e, também, convicto defensor dos princípios da Escola Ativa.

Esse texto foi extraído do trabalho O diabo inventou a escola? A escola ativa na visão de Adolphe Ferrière, de Eliane Teresinha Peres.
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