Olha, pessoal, o resumo e a análise de Dom Casmurro postados neste blog não dispensam a leitura do livro, apenas reforçam o raciocínio sobre ele, sobre o autor e sobre o período literário. Não deixe de ler esse livro que, além de envolvente, é inteligente e gostoso de ler. Dê, a si mesmo, essa oportunidade, pois se trata de uma das nossas melhores obras.
Parte 8
9. QUESTÕES:- FUVEST - 92
LXXII
UMA REFORMA DRAMÁTICA
Nem eu, nem tu, nem ela, nem qualquer outra pessoa desta história poderia responder mais, tão certo é que o destino, como todos os dramaturgos, não anuncia as peripécias nem o desfecho. Eles chegam a seu tempo, até que o pano cai, apagam-se as luzes, e os espectadores vão dormir. Nesse gênero há por ventura alguma cousa que reformar, e eu própria, como ensaio, que as peças começassem pelo fim. Otelo mataria a si e a Desdêmona no primeiro ato, os três seguintes seriam dados à ação lenta e decrescente do ciúme, e o último ficaria só com as cenas inicia da ameaça dos turcos, as explicações de Otelo e Desdêmona, e o bom conselho do fino Iago: “Mete dinheiro na bolsa. ”Desta maneira, o espectador, por um lado, acharia no teatro a charada habitual que os periódicos lhe dão, porque os últimos atos explicariam o desfecho do primeiro, espécie de conceito, e, por outro lado, ia para a cama com uma boa impressão de ternura e de amor:
CXXXV
OTELO
Jantei fora. De
noite fui ao teatro. Representava-se justamente Otelo, que eu não
vira nem lera nunca; sabia apenas o assunto, e estimei a
coincidência. Vi as grandes raivas do mouro, por causa de um lenço,
— um simples lenço! — e aqui dou matéria à meditação
dos psicólogos deste e de outros continentes, pois não me pude
furtar à observação de que um lenço bastou a acender os ciúmes de
Otelo e compor a mais sublime tragédia deste mundo. Os lenços
perderam-se, hoje são precisos os próprios lençóis; alguma vez nem
lençóis há, e valem só as camisas. Tais eram as idéias que me iam
passando pela cabeça, vagas e turvas, à medida que o mouro rolava
convulso, e Iago destilava a sua calúnia. Nos intervalos não me
levantava da cadeira; não queria expor-me a encontrar algum
conhecido. As senhoras ficavam quase todas nos camarotes, enquanto
os homens iam fumar. Então eu perguntava a mim mesmo se alguma
daquelas não teria amado alguém que jazesse agora no cemitério, e
vinham outras incoerências, até que o pano subia e continuava a
peça. O último ato mostrou-me que não eu, mas Capitu devia morrer.
Ouvi as súplicas de Desdêmona, as suas palavras amorosas e puras, e
a fúria do mouro, e a morte que este lhe deu entre aplausos
frenéticos do público. (Machado de Assis, Dom Casmurro).
1. O narrador afirma, no capítulo
CXXXV, que “não vira nem lera nunca Otelo” e que
estimou a coincidência, ao chegar ao
teatro.
- a) A que coincidência está se referindo?
- b) Ele já tornara a peça assunto do capítulo LXXII e, apenas agora, tem ocasião de vê-la. Do ponto de vista da estrutura do romance, isso implicaria alguma contradição?
Justificar, se for o
caso.
2.
- a) “Um lenço bastou a acender os ciúmes de Otelo e compor a mais sublime tragédia deste mundo.” E para fazer de Bentinho o Dom Casmurro o que foi suficiente?
- b) Os lenços perderam-se, hoje são precisos os próprios lençóis, algumas vezes nem lençóis há , e valem só as camisas.” Por que o narrador contrapõe lençóis e camisas, do seu tempo, a lenços, do tempo da tragédia.?
3.
- a) Como bom espectador, o narrador sabia que Desdêmona era inocente. Porque ele não se compadece da morte dela?
- b) “Ouvi as súplicas de Desdêmona, as suas palavras amorosas e puras, e a fúria do mouro, e a morte que este lhe deu entre aplausos frenéticos do público.”
- O que revela o modo como o narrador vê a reação do público?
4. Quando o narrador propõe a reforma dramática no capítulo LXXII, ele compara o destino aos dramaturgos.
- a) O que seria de uma tragédia, caso o dramaturgo lhe invertesse a trama?
- b) Na verdade, o que Bentinho buscaria reformar?
Textos para os exercícios de 5 a 8
Texto A
No momento em que eu terminava o meu movimento de rotação, concluía Lobo Neves o seu movimento de translação. Morria com o pé na escada ministerial. Correu, ao mesmo durante algumas semanas, que ele ia ser ministro; e que pois o boato me encheu de muita irritação e inveja, não é impossível que a notícia da morte me deixasse alguma tranqüilidade, alívio, e um ou dois minutos de prazer. Prazer é muito, mas é verdade; juro aos séculos que é a pura verdade.
Fui ao enterro. Na
sala mortuária achei Virgília, ao pé do féretro a soluçar. Quando
levantou a cabeça, vi que chorava deveras. Ao sair o enterro,
abraçou-se ao caixão, aflita; vieram tirá-la e levá-la para dentro.
Digo-vos que as lágrimas eram verdadeiras. Eu fui ao cemitério; e,
para dizer tudo, não tinha muita vontade de falar; levava uma pedra
na garganta ou na consciência. No cemitério, principalmente quando
deixei cair a pá de cal sobre o caixão, no fundo da cova, o baque
surdo da cal deu-me um um estremecimento passageiro, é certo, mas
desagradável; e depois a tarde tinha o peso e a cor do chumbo; o
cemitério, as roupas pretas...
Texto B
Enfim, chegou a hora da encomendação e da partida. Sancha quis despedir-se do marido, e o desespero daquele lance consternou a todos. Muitos homens choravam também, as mulheres todas. Só Capitu, amparando a viúva, parecia vencer-se a si mesma. Consolava a outra, queria arrancá-la dali. A confusão era geral. No meio dela, Capitu olhou alguns instantes para o cadáver tão fixa, tão apaixonadamente fixa, que não admira-lhe saltassem algumas lágrimas poucas e caladas.
As minhas cessaram
logo. Fiquei a ver as dela; Capitu enxugou-as, olhando a furto para
a gente que estava na sala. Redobrou de carícias para a amiga, e
quis levá-la; mas o cadáver parece que a tinha também. Momento
houve em que os olhos de Capitu fitaram o defunto, quais os da
viúva, sem o pranto nem palavras desta, mas grandes e abertos, como
a vaga do mar lá fora, como se quisesse tragar também o nadador da
manhã.
5. Quanto à trama narrativa que
envolve os dois trechos, podemos afirmar
que:
- a) as lágrimas de Virgília e de Capitu são provocadas pelo mesmo motivo familiar.
- b) Virgília e Capitu se encontram em idêntica condição de viuvez.
- c) os dois trechos são mórbidos porque o desespero de Capitu é igual ao de Virgília.
- d) os narradores têm a mesma relação conjugal em ambas as narrativas.
- e) o choro de Virgília causa certeza, o de Capitu, uma suspeita.
6. No confronto ainda dos dois trechos, podemos afirmar que a criação da atmosfera emotiva diante do morto é:
- a) mais dramática no trecho A e a narrativa é mais diluída.
- b) menos intensa no trecho B onde a narrativa é mais densa.
- c) igual em ambos os trechos, visto que as emoções humanas são iguais.
- d) moderada no trecho A e intensificada no trecho B.
- e) igualmente insignificante porque o autor dos trechos é o mesmo.
7. O narrador do trecho B é:
- a) Dom Casmurro e se marca pelo ponto de vista de terceira pessoa.
- b) Brás Cubas e se caracteriza pela onisciência.
- c) o mesmo do trecho A e controla a impressão do leitor sobre o todo da obra.
- d) Bentinho e se marca pelo ponto de vista de primeira pessoa.
- e) Machado de Assis e delineia seu mundo com a pena da galhofa e a tinta da melancolia.
8. A referência aos olhos de Capitu, “grandes e abertos, como a vaga do mar lá fora, como se quisesse tragar também o nadador da manhã”, permite afirmar que eram:
- a) olhos de primavera.
- b) olhos de espanto.
- c) olhos de desespero.
- d) olhos de contemplação.
- e) olhos de ressaca.
9. (ITA) — As afirmações abaixo referem-se à obra Dom Casmurro. Apenas uma delas é incorreta. Assinale-a:
- a) Quanto ao foco narrativo, o “eu” do narrador se identifica com a personagem central do romance, transformando-se numa espécie de diário íntimo da personagem Bentinho.
- b) Bentinho constitui a personagem que primordialmente realiza a função emotiva ou expressiva, pois o foco narrativo vem de Bentinho e dele derivam os sentimentos, as idéias e as sensações com relação às personagens que com ele entram diretamente em contato: Capitu, Dona Glória, José Dias, Escobar, Ezequiel.
- c) Machado de Assis, deslocando o foco narrativo para o narradorprotagonista, adota uma atitude que, aparentemente, retira do autor do romance a responsabilidade pelo que está sendo relatado. Ele como que se isenta da culpa do que ali vai sendo narrado, pois é a personagem Bentinho quem fala diretamente ao leitor.
- d) A ação é essencialmente psicológica e limita-se ao processo da conquista realizada por Capitu e à conseqüente queda e destruição interior de Bentinho.
- e) A ação desenvolve-se em torno das tentativas de uma explicação do adultério cometido por Capitu, e esta dúvida é dirimida ao leitor no final do romance.
10. (PUCCAMP) Identifique o trecho em que o narrador de Dom Casmurro introduz o romance e considera seu sentido profundo.
- a) “Horas inteiras eu fico a pintar o retrato dessa mão angélica, com as cores que tiro da imaginação, e vejo-a assim, ainda tomando conta de mim, dando-me banhos e me vestindo. A minha memória ainda guarda detalhes bem vivos que o tempo não conseguiu destruir.”
- b) “O meu fim evidente era atar as duas pontas da vida, e restaurar na velhice adolescência. Pois, senhor, não consegui recompor o que foi nem o que fui. Em tudo, se o rosto é igual, a fisionomia é diferente. É o que vais entender, lendo.”
- c) “Faz dois anos que Madalena morreu, dois anos difíceis. E quando os amigos deixaram de vir discutir política, isto se tornou insuportável. Foi aí que me surgiu a idéia esquisita de, com o auxílio de pessoas mais entendidas que eu, compor esta história.”
- d) “Suposto o uso vulgar seja começar pelo nascimento, duas considerações me levaram a adotar diferente método: a primeira é que não sou propriamente um autor defundo, mas um defunto autor; a segunda é que o escrito ficaria assim mais galante e mais novo.”
- e) “Sua história tem pouca coisa de notável. Fora Leonardo algibebe em Lisboa, sua pátria; aborrecera-se porém do negócio, e viera ao Brasil. Aqui chegando, não se sabe por proteção de quem, alcançou o emprego de que o vemos empossado.”
11. (UNIV.FED. DO PARÁ) — Os enredos dos romances Dom Casmurro e Senhora, do ponto de vista do leitor, remetem a:
- a) ratificação do papel submisso da mulher no século XIX, através das protagonistas.
- b) crítica da escravidão.
- c) uma visão da mulher que, conscientemente, quer ser agente do seu destino — é o caso de Capitu, em Dom Casmurro, e Aurélia, em Senhora.
- d) supervalorização do sentimento amoroso das protagonistas.
- e) construção de caricaturas femininas do século XIX, por isso Capitu, em Dom Casmurro, e Aurélia, em Senhora, aparecem transformadas e deformadas.
- a) O narrador refere-se à coincidência entre as suas preocupações interiores, o ciúme que se agravava em seu espírito e o tema da tragédia de Shakespeare, exatamente o ciúme que levou Otelo a matar Desdemona.
- b) Não há contradição. Há dois tempos que se entrelaçam no romance: o presente, tempo da escritura da Obra, e o passado, tempo da ação vivida pelos personagens. Assim, o capítulo LXXII é uma digressão que o narrador faz, no momento mesmo da escritura de suas memórias, acerca da hipotética reforma da estrutura dramática. Já o capítulo CXXXV, é a narrativa pretérita das reações do narrador diante da peça de Shakespeare.
2.
- a) Entre outros indícios e suspeitas, a semelhança física entre seu filho Ezequiel e Escobar, suposto amante de Capitu.
- b) O narrador ironiza a liberalidade dos costumes de seus contemporâneos, que para acatarem a evidência de um adultério, necessitam mais do que um simples lenço, são necessárias provas mais contundentes, como as peças íntimas dos amantes.
3.
- a) Porque identificado como drama do marido que se supõe traído, projeta em Desdemona a imagem de Capitu, por quem se considera traído também.
- b) O narrador revela a facciosidade de seu ponto de vista, pois interpreta os aplausos da platéia à encenação teatral, e ao desempenho dos atores, como aplausos à atitude do marido, que exerce sua vingança assassinando a esposa infiel.
4.
- a) Fazendo com que a tragédia tivesse invertido o seu curso habitual, seria possível convertê-la num folhetim romanesco, de complicação sentimental, com o inevitável happy end. É a hipótese aventada na digressão do narrador.
- b) Se a arte imita a vida, especula o narrador a possibilidade de inverter o curso da vida reformando a estrutura de uma de suas representações artísticas: o teatro. Já conhecedor de sua tragédia amorosa, especula sobre a possibilidade de revertê-la.
5. E6. D 7. D 8. E
9. E 10. B 11. C
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CONTINUA
SOBRE MACHADO DE ASSIS E DOM CASMURRO -
Análise e questionário
SOBRE MACHADO DE ASSIS E DOM
CASMURRO 2
SOBRE MACHADO DE ASSIS E DOM
CASMURRO 3
SOBRE MACHADO DE ASSIS E DOM
CASMURRO 4
SOBRE MACHADO DE ASSIS E DOM
CASMURRO 5
SOBRE MACHADO DE ASSIS E DOM
CASMURRO 6
SOBRE MACHADO DE ASSIS E DOM
CASMURRO 7
SOBRE MACHADO DE ASSIS E DOM
CASMURRO - QUESTÕES: DA FUVEST 1992
RESUMO - DOM
CASMURRO
DOM CASMURRO: O Otelo de
Machado de Assis
O ALIENISTA DE
MACHADO DE ASSIS: análise
MACHADO DE ASSIS:
romancista, contista, cronista, poeta e
muito
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