Olha, pessoal,o resumo e a análise de Dom Casmurro postados neste blog não dispensam a leitura do livro, apenas reforçam o raciocínio sobre ele, sobre o autor e sobre o período literário. Não deixe de ler esse livro que, além de envolvente, é inteligente e gostoso de ler. Dê, a si mesmo, essa oportunidade, pois se trata de uma das nossas melhores obras.
Parte 6
6.3. O Triunfo do Artista
Por sobre a tragédia amorosa quem triunfa é o artista Machado de Assis, que aprimorou, com Dom Casmurro, o romance impressionista. A busca do tempo perdido e a investigação do espírito e da vida interior, trazendo à tona as mínimas oscilações dos impulsos inconscientes, revestem-se de uma linguagem sóbria, contida, conferindo ao romance uma dimensão poética. Cada palavra é escolhida como se fosse completar o sentido ou a métrica de um verso primoroso. O estilo contido, “enxuto”, sóbrio, e os capítulos curtos, dispostos em blocos harmoniosos, integram-se à perfeição na montagem do enredo, exposto de forma invertida, fragmentária. Nada escapa à reflexão do narrador, nem seu próprio relato, flagelado também pelo demônio da análise, pelo “homem do subterrâneo”, a relativizar com ironia e ceticismo qualquer derramamento sentimental.
O ciúme e a tragédia conjugal de Bentinho, a ambigüidade de Capitu e o retrato moral da época revelam o minucioso trabalho de um miniaturista, que observa cada pormenor do cotidiano e, em seguida, o expõe de maneira precisa na urdidura do texto. A desafiadora sedução das personagens e das situações e a permanente impressão de que estamos diante de uma obra-prima resultam da natureza poética do texto, do trabalho seguro do artista que escreve e, a cada instante, se vê escrevendo.
7. DOM CASMURRO - UMA LEITURA
CRÍTICA
Transcrevemos o estudo que o crítico e ensaísta José Guilherme Merquior (1941-1991) faz de Dom Casmurro em De Anchieta a Euclides, Ed. José Olympio, Rio, 1977, pp. 179-182. É uma síntese lúcida e abrangente, que dimensiona com clareza a posição do romance na ficção machadiana.
Em Dom Casmurro (1899), a análise psicológica, mais intimista, prefere voltar ao relato subjetivo, contado na primeira pessoa, por um autor-personagem. Este é o próprio “Dom Casmurro”, cinqüentão solitário e meio urso, que, após ter realizado o capricho de reproduzir tal qual, no Engenho Novo, a casa em que se criara “na antiga Rua de Matacavalos” (hoje Riachuelo), no vão intento de “restaurar na velhice a adolescência”, põe-se a transcrever suas reminiscências, a ver se recuperava deste outro modo o sabor do seu passado. “Dom Casmurro” fora o Bentinho de Matacavalos, que uma promessa da mãe destinara ao sacerdócio, mas que o amor de Capitu, a moreninha de “olhos de ressaca”, desviará do seminário e da batina. As cenas do amor adolescente de Bentinho e sua vizinha Capitu, no Rio do meio do século, figuram entre as delícias absolutas das nossas letras, e sem dúvida foram elas que fizeram do romance o livro mais popular de Machado de Assis. Ladina e cativante, a humilde Capitu, “mulher por todos os lados”, insinua-se vitoriosamente no pequeno mundo matriarcal de D. Glória, a mãe viúva de Bentinho, e vem finalmente a casar com seu companheiro de meninice. O casamento prolonga a felicidade do namoro, mas também os velhos ciúmes de Bentinho. O afogamento do seu grande amigo, Escobar, ex-colega do seminário, perturba intensamente Capitu, despertando as suspeitas do marido. Por fim, a curiosa semelhança do filho com o amigo morto envenena de vez o desconfiado Bentinho, e uma separação amarga termina por desmentir as juras ardentes do idílio de Matacavalos. Entregue à sua desenganada solitude, Bentinho envelhece sabendo, como aquele personagem de Manuel Bandeira,
Que a vida é traição.
Em linhas gerais, o estilo narrativo de Dom Casmurro não discrepados dois romances precedentes. É sempre a técnica dos capítulos curtos, e, dentro deles, a inflexão humorística das apóstrofes ao leitor e das digressões entre graves e faiatas. Como nas Memórias Póstumas e, depois, em Esaú e Jacó, os próprios títulos dos mini capítulos possuem freqüentemente um sentido irônico. O elixir humorístico feito das expressões sentenciosas, citações literárias, alusões mitológicas e linguagem figurada está agora no ponto: do ângulo da homogeneidade de tom, Dom Casmurro é a obra-prima da arte de Machado. Julgue-se por essa diáfana meia página, tão presa ao motivo central do livro:
(…) Donde concluo que um dos ofícios do homem é fechar e apertar muito os olhos, a ver se continua pela noite velha o sonho truncado da noite moça. Tal é a idéia banal e nova que eu não quisera pôr aqui, e só provisoriamente a escrevo.
Antes de concluir este capítulo, fui à janela indagar da noite por que razão os sonhos hão de ser assim tão tênues que se esgarçam ao menor abrir dos olhos ou voltar de corpo, e não continuam mais. A noite não me respondeu logo. Estava deliciosamente bela, os morros palejavam de luar e o espaço morria de silêncio. Como eu insistisse, declarou-me que os sonhos já não pertencem à sua jurisdição. Quando eles moravam na ilha que Luciano lhes deu, onde ela tinha o seu palácio, e donde os fazia sair com as suas caras de vária feição, dar-me-ia explicações possíveis. Mas os tempos mudaram tudo. Os sonhos antigos foram aposentados, e os modernos moram no cérebro da pessoa. Estes, ainda que quisessem imitar os outros, não poderiam fazê-lo; a ilha dos sonhos, como a dos amores, como todas as ilhas de todos os mares, são agora objeto da ambição e da rivalidade da Europa e dos Estados Unidos. (Cap. LXIV, “Uma Idéia e um Escrúpulo”)
Ou então este: Já sabes que a minha alma, por mais lacerada que tenha sido, não ficou aí para um canto como uma flor lívida e solitária. Não lhe dei essa cor ou descor. Vivi o melhor que pude, sem me faltarem amigas que me consolassem da primeira. Caprichos de pouca dura, é verdade. Elas é que me deixavam como pessoas que assistem a uma exposição retrospectiva, e, ou se fartam de vê-la, ou a luz da sala esmorece. (Cap. CX-VII, “A Exposição Retrospectiva”)
Mas basta pensar na imagem recorrente dos “olhos de ressaca”, na vinculação simbólica entre Capitu (entre a mulher) e o mar, para convencer-se de que o recurso ao tropo (como, aliás, ao ornato retórico em geral) é inerente à poética machadiana.
A galeria de caracteres é mais restrita do que nos dois romances anteriores; tanto assim que, no essencial, como exceção de Escobar e Manduca, é apresentada logo no início (caps. V-VII). Nem por isso, contudo, a caracterologia perde o gume: prima Justina, a secarrona malévola sem ser maléfica, é uma esplêndida gravura, e José dias, o agregado servil e formal, fanático pelos superlativos, é um dos maiores tipos de Machado - uma espécie de Conselheiro Acácio brasileiro, apenas mais sutil e humano do que a célebre criação de Eça de Queirós. De resto, a visão moral de Machado, sem deixar o fundo pessimista, já é em Dom Casmurro um pouco menos sombria. Da “errata pensante” — do homem -Machado julga agora que se compõe de “casais” de pecados e virtudes; quanto aos “escárnios” da Natureza, eles já são contemplados pelo seu lado melhor. Manduca, o jovem leproso de Matacavalos, ao polemizar com Bentinho sobre a Guerra da Criméia, espiritualiza a sua putrefação física na flama intelectual. A Vida — a vida histórica, e não só a natureza, o flagelo de Brás Cubas - é agora uma ópera; uma ópera, diz a Bentinho o velho tenor Marcolini, musicada por Satanás, mas cujo libreto é de Deus…
A rigor, todavia, Machado não apresenta os personagens – denuncia os, com bem viu Barreto Filho. Em Dom Casmurro, romance do dissímulo, a sua arte da sugestão chega ao máximo. Aquele sestro metonímico, de que falamos a respeito de Quincas Borba, atua plenamente na caracterização dos personagens, surpreendendo-lhes a alma nas ações secundárias, nos tiques mais obscuros, nos efeitos mínimos de seu temperamento. Naturalmente, essas minúcias desmascaradoras se concentram nos presságios da traição de Capitu e Escobar. Mas o adultério, que fora realidade efetiva nas Memórias Póstumas (Brás Cubas com Virgília) e puro desejo em Quincas Borba (Rubião com Sofia, Sofia com Carlos Maria), mergulha em Dom Casmurro no terreno ambíguo da possibilidade verossímil, porém incomprovada. Terá Capitu realmente traído Bentinho? A pergunta nada tem de ociosa, principalmente quando se leva em conta que tudo é contado do ponto de vista de Bentinho, natureza imaginativa ao extremo, e ciumento impenitente. A dissimulação de Capitu não prova nada, pois ela visa longo tempo, muito femininamente, a conquistar a felicidade com Bentinho. De objetivo, no caso todo, só a presença do filho deles com Escobar; mas até isso permanece duvidoso. Eugênio Gomes observou que a semelhança física do filho resultante da “impregnação” da mãe pelos traços de um homem amado, sem que este gerasse aquele, era um tema em foco na época de Dom Casmurro. Zola já fizera disso o enredo de Madeleine Férat. Poderíamos acrescentar o ilustre precedente d’As Afinidades Eletivas (1809) de Goethe, onde o filhinho de Eduard e Charlotte tem os olhos de Ottilie, por quem Eduard está apaixonado, e as feições do capitão, amado por Charlotte. O tema da “impregnação orgânica” pode ter de fato seduzido Machado, mas a substância moral do seu romance transcende visivelmente o plano fatual do adultério. A corrupção do amor de Bentinho e Capitu é uma fatalidade de valor simbólico; e talvez por isso o próprio Bentinho chega a ter, também ele, veleidades de trair Escobar com a mulher, Sancha. Se “a Capitu da praia da Glória já estava dentro da de Matacavalos”, se o engano e a amargura já medravam, secretos, no paraíso dos amores pueris, é antes de tudo porque “a vida é traição”; e Capitu “é a imagem da vida” (Barreto Filho).
Assim, como o mito de Capitu, atraente e traiçoeira como as ondas, Machado cunha um símbolo schopenhaueriano da aventura existencial. Dom Casmurro reafirma a infidelidade básica da vida a todo projeto de felicidade humana. Para Schopenhauer, o gosto, o prazer da existência não repousa no viver; só se alcançam no contemplar o vivido. Porém, Machado traduz o pensamento de Schopenhauer em sensibilidade impressionista: transforma o ideal contemplativo na experiência emocional da lembrança viva, da saudade do tempo perdido, e da sensação insubstituível do tempo reencontrado. O lembrar de Bentinho é uma forma vivencial, personalizada, da contemplação intelectual e abstrata de Schopenhauer. Aí temos a significação profunda do retorno à voz do narrador, ao relato subjetivo: a voz de “Dom Casmurro” é regida pela consciência do tempo íntimo, e é esse “ritmo interior (…) que dá o ritmo da narrativa” (D. Cortes Riedel). A reconstrução “arqueológica” da casa de Matacavalos não pode satisfazer Bentinho, porque a qualidade da vida depende da ingovernável subjetividade, das contingências fortuitas, como aquele bolinho cujo sabor proporciona ao narrador de A la Recherche du Temps Perdu o sortilégio de reviver o passado.
O Bentinho do Engenho Novo repete o apego da própria mãe às coisas velhas, ao tempo antigo; e o filho de Capitu, apesar de parecido com Escobar, terá por vocação a arqueologia… A obsessão do passado é uma pequena loucura; uma idéia fixa, análoga às de Brás Cubas, Quincas Borba e Rubião (João Ribeiro). Desta vez, porém, Machado zomba da loucura com um humorismo embargado e comovido — pois, como diria Schopenhauer, as paixões de Brás, Borba e Rubião pertencem todas ao reino dos apetites, ao passo que no engano de Bentinho querendo fixar o gosto da existência já transparece um genuíno amor ao olhar liberto da cega vontade de viver. Escrito, como o será o Memorial de Aires, com a tinta da saudade, Dom Casmurro é uma contribuição brasileiríssima ao motivo básico da arte impressionista: a percepção elegíaca do tempo, metáfora da nostalgia de uma civilização.
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SOBRE MACHADO DE ASSIS E DOM CASMURRO -
Análise e questionário
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CASMURRO - QUESTÕES: DA FUVEST 1992
RESUMO - DOM
CASMURRO
DOM CASMURRO: O Otelo de
Machado de Assis
O ALIENISTA DE
MACHADO DE ASSIS: análise
MACHADO DE ASSIS:
romancista, contista, cronista, poeta e
muito
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