SOBRE MACHADO DE ASSIS E DOM CASMURRO 5  (LITERATURA) escrito em domingo 12 agosto 2007 18:31

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Olha, pessoal, o resumo e a análise de Dom Casmurro postados neste blog não dispensam a leitura do livro, apenas reforçam o raciocínio sobre ele, sobre o autor e sobre o período literário. Não deixe de ler esse livro que, além de envolvente, é inteligente e gostoso de ler. Dê, a si mesmo, essa oportunidade, pois se trata de uma das nossas melhores obras.

Parte 5

6.    DOM CASMURRO - OS DESVÃOS DA MEMÓRIA - ANÁLISE DO ENREDO

 

Na tentativa de “atar as duas pontas da vida, e restaurar na velhice a adolescência”, a releitura que o memorialista do Engenho Novo faz do menino e do jovem da Rua de Matacavalos, revela a estrutura unitária, perfeita e completa de um quadro psicopatológico, de um delírio de ciúmes, cuja trama era tecida por fios inconscientes, com raízes profundas.

“O resto é saber se a Capitu da praia da Glória já estava dentro da de Matacavalos”, conclui D. Casmurro no último capítulo. Invertendo o raciocínio do memorialista, o que nos interessa é saber se o Bentinho da casa de D. Glória já continha dentro de si o esquisitão do Engenho Novo, a quem os companheiros do trem da Central davam apelidos depreciativos.

Em várias passagens de seus contos e romances Machado revela o entendimento, endossado pela moderna psicologia, de que a criança é já um projeto acabado e a vida apenas o modela, cortando ou desenvolvendo alguns de seus aspectos. As forças psíquicas fundamentais, o amor e o ódio, a gratidão e a inveja, os impulsos de vida e os de destruição, eros e tânatos, têm suas raízes nas disposições genéticas. As condições do mundo exterior anulam, inibem favorecem ou tornam manifesta a matéria prima humana. Com certeza, a mão do velho que redige as suas memórias já estava na do menino que armava e desarmava os seus brinquedos. “O menino é pai do homem”, diria o defunto-autor Brás Cubas.

6.1. A infância em Matacavalos

A criação de Bentinho fez-se, a partir dos três anos, em um lar precocemente alterado pela viuvez. Filho único, conseguido depois da decepção de uma gravidez desfeita, o menino torna-se motivo de temores e desejos já antes de nascer. Sem a presença e a rivalidade do pai, é objeto exclusivo de todo o amor materno. a situação edipiniana está aí claramente configurada.

Os homens da casa de Matacavalos — tio Cosme, José Dias e Padre Cabral — não se prestam a desempenhar o papel de substitutos do pai ausente. Como pano de fundo, no quadro doméstico, há uma numerosa criadagem escrava, gravitando em torno do mimado futuro senhor Dr. Bento de Albuquerque Santiago.

D. Glória, viúva desde os trinta e um anos, viveu reclusa na viuvez, vestida sempre de preto. Era uma personalidade insegura, com traços de neurose. A fobia de perder mais um filho, na segunda gestação, levou-a a destinar o nascituro à vida religiosa, caso nascesse um varão. “Talvez esperasse uma menina”, cogita D. Casmurro. A expectativa de uma menina deve ter-se refletido na atitude materna para com o filho. Destinado à vida eclesiástica, Bentinho já nasceu sob o estigma da ansiedade, agravada pela insegurança da mãe e dos que a cercavam. Ninguém sabia ao certo como encaminhar a educação do menino.

As maneiras da viúva Santiago são descritas pelo memorialista como adoráveis; sua bondade e recato fazem-no vê-la como uma santa. Isso, contudo, não impediu Bentinho de armar arranjos e fantasias as mais astutas contra sua mãe, para desvencilhar-se da imposta carreira religiosa, em conflito com os impulsos amorosos da adolescência.

Já o velho, o narrador procura desculpar a posição de D. Glória. Diz que a promessa fora “guardada por ela, com alegria, no mais íntimo do coração”, mas, quando D. Glória tem de enfrentar a realidade da falta de vocação sacerdotal do filho, aceita, com alegria redobrada, que outro substitua Bentinho na vida religiosa, quebrando sua promessa.

“Penso que lhe senti o sabor da felicidade no leite que me deu a mamar”, evoca a pena de D. Casmurro, numa frase que parece recortada dos manuais psicanalíticos, na alusão à fase oral, à relação boca — seio, numa premonição freudiana.

Menino sozinho entre adultos na casa grande de Matacavalos, Bentinho tornou-se um introvertido, um sonhador acordado, cujos devaneios substituíam parte da realidade. “Os sonhos do acordado são como os outros sonhos, tecem-se pelos desenhos das nossas inclinações e das nossas recordações.” Machado, antes de A Interpretação dos Sonhos, de Freud, já concebia a unidade da vida psicológica no sonho e na vigília. Não é por acaso que se refere tantas vezes à atividade onírica em seus livros.

Uma clara presença do mecanismo da evasão é o episódio (cap. XXIX) em que Bentinho, ao voltar de um passeio com José Dias, encontra o Imperador que vinha da Escola de Medicina, e coloca imediatamente Sua Majestade a serviço dos seus desejos, e o faz, no seu devaneio, interceder em favor do cancelamento de sua matrícula no seminário, como eram os planos do agregado.

Além dessa tendência constante à fuga da realidade e do cotidiano, a afetividade de Bentinho oscila, sem motivação exterior suficiente, entre os pólos da tristeza e da alegria, o que faz seus devaneios darem freqüentes reviravoltas. Na cena do acompanhamento ao viático (Cap. XXX, “O Santíssimo”), passa por esses extremos, a ponto de ser advertido: “Não chore assim” e “Não ria assim”.

Vários incidentes permitem concluir que a personalidade de Bentinho estava fixada na infância e que o despertar de sua sexualidade foi lento e relativamente tardio: Bentinho sente-se menos homem do que Capitu mulher, e a descoberta de seus sentimentos amorosos faz-se pelos comentários das pessoas da casa, ou por avanços da companheira de brinquedos, bem mais ousada que ele. No cap. XL, quando julga imagens sexuais (“a égua ibera”) impróprias aos seus quinze anos, proclama, com certa vaidade: “Eu era puro, e puro fiquei, e puro entrei na aula de S. José”.

A importância da imaginação na personalidade de Bentinho faz-se sentir por toda a vida. Na puberdade chega quase à obsessão sexual, quando começa a ver pernas e ligas caírem, e depois transforma as batinas dos colegas e dos padres em saias.

Quando os primeiros ciúmes abrem em sua alma as primeiras feridas, no episódio do dandy em particular, sua reação emocional é excessiva, quase histérica. Não ousa pôr as coisas em pratos limpos. Refugia-se no quarto. D. Casmurro recorda:

“(…) Corri ao meu quarto, e entrei atrás de mim. Eu falava-me, eu perseguia-me, eu atirava-me à cama, e rolava comigo, e chorava, e abafava os soluços com ponto do lençol.” (Cap. LXXV, “O Desespero”)

A fantasia dispara e já se vê padre:

(…) Via-me já ordenado, diante dela, que choraria de arrependimento e me pediria perdão, mas eu, frio e sereno, não teria mais que desprezo; voltava-lhe as costas. Chamava-lhe perversa. Duas vezes dei por mim mordendo os dentes, como se a tivesse entre eles. (Cap. LXXV, “O Desespero”)

Os traços agressivos de sua personalidade, que tornarão a se exibir, já estão aí bem nítidos.

O psiquiatra Dr. José Leme Lopes encerra seu diagnóstico sobre a infância de Bentinho, lembrando as relações entre inibições de desenvolvimento, atraso no desenvolvimento afetivo e neurose. O Bentinho que D. Casmurro evoca tem esses dois sinais: sexualidade tardia e predomínio da fantasia sobre a realidade, com angústia. A presença dessa neurose, agravada por outros conflitos, foi o terreno onde medraram as flores doentias do ciúme.
6.2. O ciúme

A primeira ponta de ciúme surgiu, como a primeira revelação de seu amor, através de José Dias. No cap. LXII, sob o sugestivo título “Uma Ponta de Iago” (anunciando um paralelo com o Otelo, de Shakespeare, que se desdobrará por todo o romance), Bentinho pergunta à queima-roupa, ao agregado, que fora visitá-lo no seminário: “Capitu como vai?”. A resposta malévola atingiu fundo: “Tem andado alegre, como sempre; é uma tontinha. Aquilo enquanto não pegar um peralta da vizinhança que se case com ela…”.

Observe-se a reação de Bentinho e a intervenção do memorialista: “A minha memória ouve ainda agora as pancadas do coração naquele instante”.

“Estou que empalideci; pelo menos, senti correr um frio pelo corpo todo. A notícia de que ela vivia alegre, quando eu chorava todas as noites, produziu-me aquele efeito, acompanhado de um bater de coração, tão violento, que ainda agora cuido ouvi-lo.” (Cap. LXII, “Uma Ponta de Iago”)

Bentinho, fisgado nas “entranhas de puro ciúme”, sequer procurou esclarecer a dúvida pela frase maldosa de José Dias. À luz do ciúme, repassa os peraltas da vizinhança que, se na verdade olhavam para ela, não lhe pareciam perigosos, “tão senhor se sentia dela”. A imaginação continua a correr e com ela corre o ciumento: imagina-a já trocando beijos com o peralta, e imagina-se intimando Capitu a confessar o número de beijos trocados com o suposto rival.

“Os sonhos perseguiam-me acordado”, conta-nos D. Casmurro. O de certa noite é registrado e vale reproduzi-lo:

(…) Como estivesse a espiar os peraltas da vizinhança, vi um deles que conversava com a minha amiga ao pé da janela. Corria ao lugar, ele fugiu; avancei para Capitu, mas não estava só, tinha o pai ao pé de si, enxugando os olhos e mirando um triste bilhete de loteria. (…) O peralta fora levar-lhe a lista dos prêmios da loteria, e o bilhete saíra branco. Tinha o número 4004. (Cap. LXIII, “Metades de um Sonho”)

Pádua, que adivinhara um significado nesse número, desaparece. Ao mesmo tempo, Capitu dava ao sonhador “com os olhos todas as sortes grandes e pequenas”, “a maior destas devia ser dada com a boca”. Afastado o pai, a heroína se inclina para fora, a rua é deserta, mas o sonhador se limita a pegar-lhes as mãos e, resmungando, acorda. Ressalte-se aqui o sentimento que dá início à fantasia onírica — a desconfiança (“espionar os possíveis rivais”) —, seguido da frustração de Pádua e do próprio sonhador, premiado apenas com um aperto de mãos.

No cap. LXXII, retoma-se a tragédia de Shakespeare, Otelo, para a proposição de uma reforma dramática. Assim, no primeiro ato, haveria o assassinato de Desdêmona e o suicídio de Otelo, para, num decrescendo de ciúme, chegar-se ao amor do início da peça. Na reconstrução de seu drama pessoal (ou tragédia), o memorialista preferiu, porém, o caminho tradicional, sem qualquer reforma.

Essas reflexões precedem a segunda pedra no mosaico do ciúme de Bentinho: o episódio do dandy a cavalo. “Tal foi o segundo dente de ciúme que me mordeu”, reconhece o narrador. Ansioso, refugia-se na sala de visitas, planeja interrogar José Dias e confrontar o peralta e o dandy, mas falta-lhe coragem. A só, no quarto, a ansiedade chega ao paroxismo de uma crise de nervos, com impulsos agressivos contra Capitu. Deixa de alimentar-se, sofre de insônia e simula uma cefaléia para não voltar ao seminário e poder explicar-se com a namorada. Tenta acalmar sua angústia com promessas de orações nunca rezadas.

(…) A vontade que me dava era cravar-lhe as unhas no pescoço, enterrá-las bem, até ver-lhe sair a vida com o sangue… (Cap. LXXV, “O Desespero”)

Tudo termina com um novo juramento, o de romperem o namoro caso houvesse uma nova suspeita. Bentinho julgava então que fosse a primeira e a última suspeita. Era, no entanto, apenas o elo de uma cadeia que irá se desenrolar, mantendo-se sempre presente à memória.

O terceiro dente de ciúme colocou-o a prima Justina ao insinuar que a demora de Capitu em casa de Sancha fosse devida, talvez, a que ficassem namorando… Repontam novamente sentimentos agressivos. Após a visita à casa do Gurgel, tudo parece esclarecido e os zelos excessivos do ciumento ficam adormecidos até o início da vida conjugal.

Após o casamento, houve dois bailes de que o casal participou. Bentinho mordeu-se de ciúme ao ver Capitu dançando com outros homens. Revela verdadeira fixação pelos braços da esposa, e vê-los enlaçados às casacas dos pares eventuais suscita sentimentos desagradáveis no jovem marido. O terceiro baile não houve.

Bentinho exige da esposa devoção absoluta e atenção exclusiva. Tem ciúme do mar, quando Capitu distrai-se das lições de astronomia do marido e fica a contemplar as vagas. São ciúmes ainda difusos, atenuados pelas alegrias do nascimento do primeiro filho, pelas delícias da vida conjugal e pelo êxito profissional; mas continuam latentes:

(…) o menor gesto me afligia, a mais ínfima palavra, uma insistência qualquer; muita vez só a indiferença bastava. Cheguei a ter ciúmes de tudo e de todos. Um vizinho, um par de valsa, qualquer homem, moço ou maduro, me enchia de terror ou desconfiança. (Cap. CXIII, “Embargos de Terceiro”)

Mas não há, ainda, qualquer suspeita sobre o amigo Escobar. O fato de o amigo ter servido de corretor para a compra de dez libras esterlinas, que Capitu economizara da mesada que recebia do marido, e de tem-se encontrado, a sós, não espicaça, de imediato, o fundo ciumento do narrador, que prefere ressaltar a nova qualidade descoberta na esposa economia.

Em “Embargos de Terceiro”, cap. CXIII, o narrador começa a direcionar suas suspeitas. Capitu, pretextando um mal-estar, não foi ao teatro, mas insistiu para que o marido não perdesse a representação. Bentinho vai só, mas volta ao fim do primeiro ato. Encontra Escobar no corredor de sua casa. O amigo fora discutir com Bento um “embargo de terceiro” (termo jurídico que, por ambigüidade, sugere a figura de Escobar como o terceiro). O episódio é narrado com fina ironia, aguçando no leitor as ilações sugeridas pela coincidência entre o mal-estar, exagerado para faltar ao espetáculo, e a visita não anunciada do amigo Escobar.

Bentinho começa a suspeitar que Capitu tenha mudado, por ela não se lembrar de um pregão de rua, da fase do namoro em Matacavalos. Um preto anunciava cocadas a cantar:

Chora, menina, chora,

Chora, porque não tem Vintém

(Cap. XVIII, “Um Plano”)

Os namorados haviam prometido, num instante de ternura, conservar na memória o pregão. Bentinho, uns dias antes, pedira que Capitu tocasse ao piano a toada do preto. A esposa esquecera a letra e a música. Bentinho também. Mas, para manter formalmente o prometido, mantinha escrito o pregão e a toada, conservados ao alcance da mão. Capitu foi recriminada por seu esquecimento, como se tivesse banido da lembrança também a adolescência e seus amores.

É notório que Capitu, menina pobre, não teria porque guardar a toada do pregoeiro, em que deveria chorar, chorar por não ter vintém. Esse lapso de memória é bastante compreensível para a menininha que não tinha vintém para as cocadas.

“Dúvidas sobre Dúvidas” (cap. CXV) é o saldo da visita noturna e inesperada de Escobar para discutir questões processuais. Na conversa conjugal que se segue o assunto é dúvidas. Recorda D. Casmurro:

(…) Eu era então um poço delas; coaxavam dentro de mim, como verdadeiras rãs, a ponto de me tirarem o sono algumas vezes. (Cap. CXV. “Dúvidas sobre Dúvidas”)

A necessidade já do delírio, associada à perturbação do sono, configura a fase que os psiquiatras chamam de apofenia. Nela, toda a vida psíquica passa a girar em torno do eu hipertrofiado e de suas idéias prevalentes, com relacionamento forçado dos acontecimentos do mundo exterior e das vivências pessoais sob a tensão do afeto dominante.

Na expansão de seu núcleo de idéias prevalentes (o ciúme) e na imposição de uma ligação significativa de todos os fatos exteriores, Bentinho inclui a própria mãe: D. Glória é sentida “um tanto fria e arredia” com Capitu e mais ainda “fria também com Ezequiel”. Uma visita à casa materna não dissipa essas apreensões, que perduram, apesar da ternura e dos cuidados de Capitu, que tudo faz para poupar o marido abandona a espera à janela “para não despertar-me os ciúmes”, relata o memorialista.

A maneira pela qual José Dias trata Ezequiel - “filho do homem” vem a agastar Capitu, e D. Casmurro, sibilinamente, abre um capítulo, o CXVI, com este título, onde engloba também a preocupação da esposa em corrigir o modo de andar do filho, que imitava o andar de José Dias, e os meneios de olhos e de cabeça, que Ezequiel imitava Escobar. Bentinho alimenta suspeitas de que a semelhança não seria decorrente da convivência, mas prova de uma mesma paternidade.

A vida dos dois casais, depois da mudança de Escobar e Sancha para o Flamengo, corre, na superfície, como um mar de rosas, e planejam, para celebrar tamanha felicidade, um passeio pela Europa, numa viagem apoteótica.

Os planos de viagem são tragicamente interrompidos pela morte de Escobar que, sugestivamente, é tragado por uma ressaca. A intermitência de amor e ódio, de ternuras e dúvidas, é substituída pelo delírio de ciúmes, que se instaura para sempre no coração de Bentinho.

A cena culminante do velório de Escobar (Cap. CXXIII, “Olhos de Ressaca”) é precedida da fantasia da conquista de Sancha e do convite a apalpar os braços do amigo (cap. CXVIII). Bentinho, ao sentir-se atraído por Sancha, projeta em Capitu os seus sentimentos e passa a julgá-la apaixonada por Escobar. Entre as formas de ciúme mórbido está arrolada a resultante do mecanismo de projeção no cônjuge das pretendidas ou das reais infidelidades, não aceitas pelo superego.

O fato fundamental surgiu nos momentos que precederam o enterro. Na hora da despedida, após a encomendação do corpo de Escobar, a viúva aproxima-se, amparada por Capitu.

(…) Muitos homens choravam também, as mulheres todas. Só Capitu, amparando a viúva, parecia vencer-se a si mesma. Consolava a outra, queria arrancá-la dali. A confusão era geral. No meio dela, Capitu olhou alguns instantes para o cadáver tão fixa, tão apaixonadamente fixa, que não admira lhe saltassem algumas lágrimas poucas e caladas… (Cap. CXXIII, “Olhos de Ressaca”)

Ao observar a cena, D. Casmurro transforma-se. Seus olhos secam e passam a espreitar os de Capitu, que, enxutos, olhavam furtivamente os circunstantes. Capitu pretende, com carícias, retirar dali a amiga, “mas o cadáver parece que a retinha também”. E nota zelosamente o narrador:

(…) Momento houve em que os olhos de Capitu fitaram o defunto, quais os da viúva, sem o pranto nem palavras desta, mas grandes e abertos, como a vaga do mar lá fora, como se quisesse tragar também o nadador da manhã. (Cap. CXXIII, “Olhos de Ressaca”)

Neste olhar devorador, assim como nos olhos fixos, tão apaixonadamente fixos, D. Casmurro vê e percebe a prova segura, infalível, da infidelidade da esposa.

Objetivamente, o percebido é pouco: um olhar fixo e um olhar de olhos grandes e abertos; o significado é maior: apaixonadamente fixo e devorador. A interpretação é exorbitante, patológica. Um olhar fixo poderia gerar suspeitas de intenções, mas nunca ser tomado como prova, documento de convicção, atestado de adultério. O caráter mórbido da interpretação fundamenta a convicção inabalável da traição e se implanta no centro da vida psíquica, deformando todas as reminiscências e atraindo todas as experiências posteriores. A transformação profunda da personalidade que se segue à percepção delirante é mais um elemento demonstrativo da sua natureza patológica.

O mundo interior de D. Casmurro, antes vacilante de dúvidas, torna-se firme com a nova certeza e alimenta já a sede de vingança. Ao pegar a argola do ataúde e ao chegar ao exterior da casa, Bentinho tem o impulso “de atirar à rua caixão, defunto e tudo”. Toda a sua vida, a partir daí, decorre sob um novo signo.

No cortejo fúnebre, impõe silêncio a José Dias. Na leitura do necrológio, a voz parecia entrar em vez de sair, as mãos tremiam ao segurar o papel, cujo conteúdo parecia-lhe traduzir a ambigüidade de seus sentimentos, de modo a fazer adivinhar por todos a verdade, que se esforçava por encobrir.

Na volta do cemitério, D. Casmurro sente necessidade de estar só e de “tomar uma resolução que fosse adequada para o momento”. Ao andar pelo Catete, adquire a convicção de que “a viúva era realmente amantíssima”, e, depois, ao rever a situação de Capitu, conclui que “era a antiga paixão que me ofuscava ainda e me fazia desvairar como sempre”. O adjetivo “antiga” traduz a idéia de que sua paixão estava morta. Continua o passeio para castigar Capitu com a demora. Passa por um barbeiro-músico, e o ciúme aponta outro disfarce, quando a mulher do barbeiro vem agradecer a atenção que Bentinho dispensava à arte do marido músico.

Finalmente regressa ao lar, onde reina a calma, mesmo na face de Capitu, “serena e pura”. Nos dias subseqüentes, D. Casmurro vive agitado. Na segunda-feira, arrepende-se de ter rasgado o discurso. Pensa em refazê-lo, mas desiste. Na terça, foi aberto o testamento de Escobar, acompanhado de uma carta a Santiago, com palavras “sublimes de estima e amizade”. Ao ouvi-las, “Capitu desta vez chorou muito, mas compôs-se depressa”. Bentinho anda calado e aborrecido. A esposa preocupa-se com o seu estado e tenta distraí-lo. O marido dissimula a causa real de seu aborrecimento e pretexta preocupação com os negócios. A mulher sugere vender suas jóias e objetos de algum valor, na esperança de uma retomada da vida tranqüila. Em vão; D. Casmurro mergulha de vez na melancolia que iria culminar em projetos de suicídio.

A paranóia de ciúme em marcha incorporava ao núcleo delirante todas as experiências diárias, e Bentinho toma o filho Ezequiel para transformá-lo em documento da traição de Capitu. Não são os olhos somente que repetem Escobar, “mas as restantes feições, a cara, o corpo, a pessoa inteira”. “Escobar vinha assim surgindo da sepultura, do seminário e do Flamengo.”

Os contatos com o filho tornam-se “repulsivos”, embora procurasse dissimular. Capitu passa a ser tratada com aspereza e brutalidade. “Os nossos temporais era agora contínuos e terríveis”, diferentes das rusgas anteriores à descoberta daquela “má terra da verdade”. “Já entre nós só faltava dizer a palavra última.” A presença do filho é cada dia mais penosa, e Ezequiel é afastado para o colégio da Lapa.

Esse afastamento não minora o sofrimento e cada volta do menino, aos sábados, é motivo de exacerbação da ferida de Santiago. Certa “idéia, que negrejava”, “abriu as asas” e escureceu ainda mais o horizonte do ciumento. Na melancolia e na insônia, a idéia de suicídio ganha forma. Compra o veneno, escreve cartas e deixa a despedida materna para uma última visita. Diante de D. Glória, afasta momentaneamente a idéia. Mas um núcleo maléfico impõe aos pensamentos de Bentinho uma direção egocêntrica e dolorosa.

Não é, pois, por acaso que vai jantar fora e escolhe como passatempo a representação de Otelo. Vê no mouro o seu duplo. O lenço comprometedor da tragédia shakespeareana transforma-se, na imaginação de Bentinho, em lençóis, peças íntimas, em idéias “vagas e turvas”. Até platéia é envolvida nas ondas do ciúme.

Caído o pano, já na rua, continua a raciocinar. Desdêmona era inocente e sua morte, no entanto, despertava aplausos frenéticos do público. Num desvio delirante, Bentinho interpreta os aplausos como a vitória da vingança, e não como tributo ao desempenho dos atores. “Se ela deveras fosse culpada, tão culpada como Capitu?” Sua visão se turva, tem sentimentos agressivos, com imagens de fogo e sangue. Fica a vagar pela cidade e, quando volta a casa, já manhã alta, escreve duas cartas. O texto da segunda “continha só o necessário, claro e breve. Não lhe lembrava o nosso passado, nem as lutas havidas, nem alegria alguma; falava-lhe só de Escobar e da necessidade de morrer”.

A frase é imprecisa: “só o necessário, claro e breve” e “falava-lhe só de Escobar”. Que falava? Que sentimentos externava? A fina arte do escritor deixa ao leitor a confecção do texto, mas deixa dissimulado, na reticência, o conflito inconsciente de que o narrador não se dá conta, nem mesmo se poderia dar. Observe que Machado é um mestre na arte do despistamento, do disfarce, através dos quais vai “seduzindo” o leitor. Os lapsos do narrador, sempre reveladores, são obra do artista e do psicólogo, que manipula com segurança suas criaturas e todos os discursos pelos quais elas se expressam: gestos, sonhos, lapsos, palavras. Daí a densidade e coesão que apresentam, daí a permanência de sua sedução.

Quando esperava pelo café, pensou em imitar Catão e matar-se. Chega mesmo a derramar o veneno na xícara, tremendo, como “os olhos vagos, a memória em Desdêmona inocente”. (O deslocamento Capitu-Desdêmona é um mecanismo de defesa que procura nos símbolos um representante substitutivo da pessoa real, geradora de ansiedade, esclarece o psiquiatra.) A ação é interrompida pela entrada do filho a gritar: “Papai! papai!”.

A presença de Ezequiel corta-lhe de novo o impulso suicida, mas, da mesma fonte, irrompe com violência o desejo de liquidar o filho:

(…) Chamem-me embora assassino; não serei eu que os desdiga ou contradiga; o meu segundo impulso foi criminoso. (Cap. CXXXVII, “Segundo Impulso”)

A psiquiatria ensina que as personalidades paranóides passam por mutações bruscas; o espiado torna-se espião, o condenado muda-se em carrasco, como o perseguido em perseguidor. Assim, quem atentar para as oscilações entre a agressividade suicida e a vingadora não deverá estranhar que o quase suicida transforma-se num assassino. Ainda nesta cena, mais uma oscilação: o mesmo pai que se encontra a beijar doidamente a cabeça do filho, no instante seguinte injeta na alma infantil outro veneno moral: “Não, não, eu não sou teu pai!”. (Observa-se a tríplice negação.) “Quando levantei a cabeça”, continua D. Casmurro, “dei com a figura de Capitu diante de mim”. Segue-se a cena capital em que revela a Capitu, por palavras, seu ciúme, na simples declaração: “Que não é meu filho”. Pressionado pela esposa, D. Casmurro se cala: “Há coisas que se não dizem”. Afinal resolve-se, ante a insistência da esposa, que já pedira a separação, a completar seu pensamento: “Aqui vai o que lhe posso dizer, e é tudo”. “Não disse tudo; mal pude aludir aos amores de Escobar sem proferir-lhe o nome. ”Essa impossibilidade de expressar-se em palavras e mesmo de dizer o nome do rival mostra a confusão de sentimentos de Santiago, e Capitu atira-lhe ironicamente: “Pois até os defuntos! Nem os mortos escapam aos seus ciúmes!”

D. Casmurro, por um momento, acreditou-se vítima de uma grande ilusão, de uma fantasmagoria de alucinado, mas a volta do filho, afastado no início da discussão, lança-o novamente ao mundo de seus fantasmas. Comenta e acredita que, à vista do filho, foi-lhe restituída “a consciência da realidade”, de uma realidade, porém, comprometida, deformada, delirante.

“Capitu e eu, involuntariamente, olhamos para a fotografia de Escobar. ”Esse incidente leva Bentinho a extrair uma confissão de culpa da esposa: “Desta vez a confusão dela fez-se confissão pura”, conclui o memorialista, acrescentando: “De boca, porém, não confessou nada”. A convicção, assim conseguida, fruto da interpretação delirante de uma personalidade paranóide, apaga em D. Casmurro as idéias suicidas, o “gosto da morte”. Sente que atuava dentro dele “um novo homem”, ou, como adiante reconhece com muita sutileza o memorialista: “Nesse caso era um homem apenas encoberto”.

Na volta da missa, Capitu, que entregara a Deus todas as suas amarguras, declara com firmeza: “A nossa separação é indispensável”. Para Bentinho, nos dias que se seguem, as feições do filho evocam continuamente as do morto e com elas “episódios vagos e remotos, palavras, encontros e incidentes, tudo em que a minha cegueira não pôs malícia, e a que faltou o meu velho ciúme”.

Observa o psiquiatra José Leme Lopes, que temos seguido até aqui:

No autismo, como no delírio, são comuns as ilusões da memória, as falsificações das lembranças que trazem em suas deformações a marca da catatímia. (…) Nos desvios psicopatológicos depressivos, como nos desenvolvimentos paranóides, a memória aumenta, desforma, desfigura, reagrupa, reorganiza os engramas na linha condutora do sentido dominante; o nada, o quase nada se transforma em tudo. A força aglutinadora do delírio chama a si todas as recordações. O tempo reencontrado não é o do tempo perdido, mas o fantasma ameaçador do amor perdido. Todas as reminiscências, mesmo ‘uma palavra dela sonhando’, são lenha seca para a fogueira do delírio de ciúmes.

A solução final imposta por Bentinho é um puro mecanismo de anulação e regressão. Santiago isola Capitu e o filho na Suíça. Responde às cartas da esposa com “brevidade e sequidão”. No recompor suas memórias, todo esse trecho da vida de D. Casmurro é apagado.

A morte de Capitu é referida da forma a mais sintética, por ocasião da inesperada visita do filho, já na casa do Engenho Novo: “A mãe — creio que ainda não disse que estava morta e enterrada”. O primeiro e único amor estava morto e enterrado, mas o ciúme não; ressurgia na figura do filho. a identificação delirante de Ezequiel com Escobar é manifesta, na visita do filho adulto, com esta reflexão ambígua: “Se fosse vivo José dias, acharia nele a minha própria pessoa”. A lisonja do subserviente José Dias, no intuito de agradar Bentinho, refletiria melhor a realidade que o espelho curvo do ciúme.

Ezequiel estudara arqueologia e queria fazer uma viagem científica ao Oriente Próximo. Pede o apoio financeiro do pai, que resmunga consigo: “Uma das conseqüências dos amores furtivos do pai [Escobar] era pagar eu as arqueologias do filho”. E termina seu pensamento com uma maldição: “Antes lhe pagasse a lepra…”. O jovem não morreu de lepra, mas de tifo, nas imediações de Jerusalém. O epitáfio inscrito no túmulo de Ezequiel sugere ainda a sombra do ciúme delirante do pai: “Tu eras perfeito nos teus cainhos, desde o dia da tua criação” (grifo do autor). “Parei e perguntei calado: ‘Quando seria o dia da criação de Ezequiel?’”. Na ausência de resposta, o velho memorialista rumina sua complexa história de amor. Dispõe sua vida numa feição “nem lívida, nem solitária”, mas sem qualquer afeição verdadeira; algumas “amigas”, “caprichos de pouca dura”, arremata D. Casmurro.

É sobre o ciúme a citação bíblica que ilustra o último capítulo: “Não tenhas ciúmes de tua mulher para que ela não se meta a enganar-te com a malícia que aprender de ti” (Jesus, filho de Sirach, Eclesiastes, cap. IX, vers. 1). Mas D. Casmurro contradita o preceito bíblico, e conclui:

(…) qualquer que seja a solução, uma coisa fica, e é a suma das sumas, ou o resto dos restos, a saber, que a minha primeira amiga e o meu maior amigo, tão extremosos ambos e tão queridos também, quis o destino que acabassem juntando-se e enganando-me… A terra lhes seja leve! (Cap. CXLVIII, “É Bem, e o Resto?”)

O psiquiatra oferece o seu diagnóstico:

“Do ponto de vista psicopatológico, a história é típica de um delírio de ciúmes, que encontra por base uma personalidade sensitiva. Temos uma paranóia de ciúmes, segundo a escola francesa. Um conjunto de idéias prevalentes toma conta da personalidade predisposta, passa a dominar o curso do pensamento, cria a atmosfera suspeita (trema), em seguida, desponta o auto-relacionamento obrigatório das experiências e as falsificações da memória (apofenia). A liberdade pessoal está comprometida, a personalidade está presa na roda do delírio. À fase de indefinição do ciúme e à simples expansão do sistema delirante, segue-se a de sua sistematização, com o aparecimento de percepção e interpretações delirantes. O ‘paciente’ cai no mundo dos fantasmas, da melancolia, dos impulsos suicidas e assassinos, transforma-se num homem novo e seu mundo também se transforma, com o esvaziamento afetivo e a incapacidade de criar novos laços amorosos, a esquisitice e a bizarrice do comportamento. Conserva, porém, a capacidade de recompor seu passado e nos dar a imagem imensamente rica desta figura única no universo literário brasileiro Dom Casmurro.

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O ALIENISTA DE MACHADO DE ASSIS: análise
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Todos os comentários desse artigo:
SOBRE MACHADO DE ASSIS E DOM CASMURRO 5

  • Yasmin

    Dom 07 Set 2008 03:32

    Muito instrutivo do começo ao fim; a analise psicológica das personagens também se declarou muito interessante e reveladora.
    Muito obrigada pelo ótimo resumo, foi de grande utilidade.