Olha, pessoal, o resumo e a análise de Dom Casmurro postados neste blog não dispensam a leitura do livro, apenas reforçam o raciocínio sobre ele, sobre o autor e sobre o período literário. Não deixe de ler esse livro que, além de envolvente, é inteligente e gostoso de ler. Dê, a si mesmo, essa oportunidade, pois se trata de uma das nossas melhores obras.
Parte 3
3. O MACHADO
“ROMÂNTICO” E O MACHADO
REALISTA
Tornou-se convencional a divisão da obra machadiana em duas fases. A primeira, impropriamente chamada “romântica”, abrange a produção literária entre 1870 e 1880 e engloba os romances Ressurreição, A Mão e a Luva, Helena e Iaiá Garcia, os livros de contos Contos Fluminenses e Histórias da Meia-Noite, e as poesias de Crisálidas, Falenas e Americanas. A segunda fase, conhecida como realista, configura a maturidade artística de Machado e inclui os romances Memórias Póstumas de Brás Cubas, Quincas Borba, Dom Casmurro, Esaú e Jacó e Memorial de Aires, os livros de contos Papéis Avulsos, Histórias sem Data, Várias Histórias, Páginas Recolhidas e Relíquias da Casa Velha, e o livro de poesias Ocidentais.
O marco inicial da fase realista, o “salto qualitativo”, deu-se entre 1881 e 1882, como o romance Memórias Póstumas (1881), como os contos de Papéis Avulsos (1882) e com as poesias de Ocidentais (1882).
Não se pense, contudo, numa ruptura entre as duas fases, num salto abrupto, numa oposição diametral entre a obra dita “romântica” e a obra realista.
A crítica mais moderna tem observado que muito do Machado realista, maduro, já estava em seus primeiros livros. Assim, prefere denominar “convencionais”, e não “românticos”, os livros da primeira fase, anteriores ao Memórias Póstumas, ao Papéis Avulsos e aos poemas de Ocidentais. A fusão de ingredientes convencionais e antecipações realistas observa-se sobretudo nos romances e nos contos.
Mesmo nos livros impropriamente chamados “românticos” estão presentes a observação psicológica das personagens, o interesse como móvel principal e ações humanas, o humor reflexivo e o estilo conciso, distante da linguagem adjetivosa dos românticos. Ainda que haja tipos e situações convencionais da ficção romântica, a tensão bem X mal, herói X vilão não existe, e as heroínas agem calculadamente por interesse na obtenção de status, na ascensão social através do casamento.
A “explosão” realista de Memórias Póstumas e Papéis
Avulsos de há muito vinha sedimentando seu caminho, e a “ruga
sardônica” de Quincas Borba, o “homem do
subterrâneo”, o “monstro de lucidez”, o
“bruxo do Cosme Velho” já vinham de longa e paciente
gestação. Não há dois Machados, um romântico, outro realista; há um
só, acima dos modismos dessas duas (e de outras) escolas.
4.CARACTERÍSTICAS CENTRAIS DA FICÇÃO
MACHADIANA
4.1. A despreocupação com as modas literárias
dominantes
Não se pode enquadrar Machado de Assis nos estreitos limites da prosa realista e naturalista de seu tempo. Machado extrapola qualquer tentativa de enquadramento rígido dentro de qualquer modelo convencional. Há na sua obra elementos clássicos (equilíbrio, concisão, contenção lírica e expressional); resíduos românticos (algumas narrativas convencionais quanto ao enredo); aproximações realistas (atitude crítica, objetividade, temas contemporâneos); procedimentos impressionistas (a técnica impressionista, a recriação do passado através da memória, das “manchas” de recordação) e antecipações modernas (a estrutura fragmentária não-linear, o gosto pelo elíptico e alusivo, a postura metalingüística de quem escreve e se vê escrevendo, as “obras abertas”, sem conclusão necessária, permitindo várias leituras ou interpretações). Isso para ficarmos apenas num inventário superficial de algumas constantes da prosa. (Há também o romantismo à Gonçalves Dias e Casimiro de Abreu na poesia da juventude, o formalismo parnasiano na poesia madura, o teatro, as crônicas na imprensa diária, a crítica literária e teatral.) Enquanto os realistas obedeciam à teoria de Flaubert, do “romance que narra a si próprio”, apagando o narrador atrás da objetividade da narrativa, enquanto os naturalistas, na esteira de Émile Zola, pregavam o inventário maciço da realidade, observada nos menores detalhes, Machado de Assis cultivou livremente o elíptico, o incompleto, o fragmentário, intervindo na narrativa para conversar diretamente com o leitor, para comentar o próprio romance, para filosofar, para bisbilhotar a vida das personagens, lembrando o leitor de que atrás dos narradores estava o artista Machado de Assis, mandando e desmandando no enredo e nas personagens, e ironizando o leitor. Machado de Assis focaliza os tormentos do homem e os absurdos do mundo com um tom não-enfático, neutro, sem retórica, imparcial, revestido de um humor reflexivo, algumas vezes amargo, outras apenas divertido, como quem estivesse rindo do leitor. A sua técnica consiste essencialmente em sugerir as coisas mais tremendas da maneira mais cândida (como os ironistas do século XVIII, Voltaire, Sterne e Swift, que Machado muito estimava), ou em estabelecer um contraste entre a normalidade social dos fatos e a sua anormalidade essencial, ou em sugerir, sob a aparência do contrário, que o ato excepcional é normal, e que anormal seria o ato corriqueiro.
O Prof. Antônio Cândido observa ainda que, não obstante o “arcaísmo da superfície”, Machado “parece bruscamente moderno, depois das tendências do nosso século, que também procuram sugerir o todo pelo fragmento, a estrutura pela elipse, a emoção pela ironia e a grandeza pela banalidade”.
4.2. Os temas profundos
Um dos problemas centrais da obra machadiana é o da identidade:
• Quem sou?
• O que sou?
• Em que medida eu só existo por meio dos outros?
• Eu sou mais autêntico quando penso ou quando existo?
• Haverá mais de um ser em mim?
Essas perguntas envolvem dois problemas centrais: a divisão do ser, o desdobramento da personalidade, e os limites da razão e do ser (este último, tema central de “O Alienista”). Outros problemas que permeiam a ficção machadiana são:
• A relação entre o fato real e o fato imaginado, entre o que aconteceu e o que pensamos que aconteceu.
• Seremos nós o ato que nos exprime?
• Será a vida uma cadeia de opções?
• Que sentido tem o ato?
Nessa mesma linha, Machado antecipa alguns temas do existencialismo literário contemporâneo de Camus e Sartre.
O tema da perfeição, da aspiração ao ato completo, à obra total, é outra obsessão machadiana, que resulta sempre na dolorosa constatação da impotência espiritual do homem, da impossibilidade de ser tudo, da inevitável mutilação do eu.
Assim, se não conseguimos agir senão mutilando o nosso eu, se o que há de mais profundo em nós é, no fim das contas, a opinião dos outros, se estamos condenados a não atingir o que nos parece realmente valioso, qual a diferença entre o bem e o mal, o justo e o injusto, o certo e o errado?
Este sentimento profundo da relatividade total dos atos, da impossibilidade de compreendê-los e de conceituá-los adequadamente, desemboca no sentimento do absurdo, do ato sem origem ou explicação e do juízo sem fundamento. Machado relativiza tudo, vê tudo pelo avesso, revelando um senso profundo da complexidade do homem e das contradições da alma.
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SOBRE MACHADO DE ASSIS E DOM CASMURRO -
Análise e questionário
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CASMURRO - QUESTÕES: DA FUVEST 1992
RESUMO - DOM
CASMURRO
DOM CASMURRO: O Otelo de
Machado de Assis
O ALIENISTA DE
MACHADO DE ASSIS: análise
MACHADO DE ASSIS:
romancista, contista, cronista, poeta e
muito
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